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‘Quando assumimos, a Secretaria de Saúde estava em coma’, diz Jamal Salem

‘Quando assumimos, a Secretaria de Saúde estava <br>em coma’, diz Jamal Salem

Redação

06/07/2014 - 18h30
Notícia sem imagem


Foto: Gerson de Oliveira / Correio do Estado

Há três meses à frente da Secretaria Municipal de Saúde, o médico urologista e vereador reeleito Jamal Mohamed Salem, 55 anos, faz um balanço da gestão. Ele ressalta que encontrou a saúde municipal em estado crítico, de abandono mesmo. Também, cita as medidas emergenciais tomadas e os novos projetos, como a criação do Hospital da Criança, do Hospital Municipal, colocar em prática o projeto de regulação de exames, consultas e vagas, entre outras coisas.

CORREIO PERGUNTA
O senhor assumiu a Secretaria Municipal de Saúde há 90 dias. Qual era a situação desta pasta quando chegou e qual o ponto mais crítico?
Jamal Mohamed Salem – Quando assumimos, a Secretaria de Saúde da nossa cidade estava em coma. Havia muitas reclamações, falta de médicos, falta de ambulâncias e de medicamentos. Não vou falar que estava no cemitério, porque, quando se chega a este estágio, não há mais recuperação. Mas posso lhe afirmar que estava em coma, faltava tudo, principalmente no atendimento da saúde, como medicamentos, material de laboratório, de exames. Encontramos uma fila de raios X com mais de 18 mil pacientes aguardando. O último da fila, se fosse esperar, ficaria um ano aguardando para fazer o exame. A fila do ultrassom era outra. Não havia mamógrafo funcionando, estavam os dois quebrados; os aparelhos de raios X também estavam em situação precária. As ambulâncias do Samu, então, que são 19 no total, mais de 15 estavam quebradas e na oficina, apenas 4 funcionando. Era uma situação caótica.

Quais foram as medidas emergenciais tomadas para iniciar a reversão do problema?
Bem, a primeira medida que nós tomamos foram três itens importantes: primeiro, resolver as urgências. Então, começamos a contratar mais médicos, para poder preencher o atendimento nos postos 24 horas. Quando nós assumimos, o prefeito Gilmar Olarte tem uma pesquisa da época, em que 75% da população apontava a saúde. Então, investimos todo o esforço da prefeitura em saúde. Sendo assim, contratamos 148 médicos, para que cada unidade tenha 10 médicos no plantão (5 clínicos e 5 pediatras). Nós conseguimos atingir esta meta durante a noite, horário que tem a equipe completa de pediatras. Nossa dificuldade é durante o dia, porque apenas 3 unidades 24 horas têm. O segundo ponto que conseguimos resolver é no que se refere ao Samu. A maioria das ambulâncias estava na oficina. Depois de uma conversa, o serviço de entrega foi acelerado, porque o problema era falta de pagamento. Havia dinheiro em caixa na secretaria, só que os gestores não pagavam ou estavam com pagamentos muito atrasados. Esta foi outra negociação que fizemos e, graças a Deus, eles nos atenderam e, em cinco dias, estavam cinco ambulâncias a mais circulando no conjunto do Samu. O terceiro ponto é a questão dos medicamentos. Faltavam muitos, muitas vezes, até o básico. Havia pedidos feitos na gestão anterior e outros que nós fizemos, e pedimos urgência aos fornecedores, para poder abastecer as farmácias. Esses foram os primeiros pontos que nós trabalhamos numa situação emergencial.

Quais são as unidades médicas sob a jurisdição municipal? São constantes as reclamações no que se refere a atendimento, tempo de espera, falta de medicamentos. O que mudou?
Dá um total de 112, entre unidades 24 horas, unidades básicas de saúde e saúde da família. Hoje, eu posso afirmar que o tempo da consulta diminuiu bastante. Porque, ao mesmo tempo em que resolvemos os três itens já citados, trabalhamos a valorização do nosso profissional, do funcionário da secretaria. Melhoramos para eles a alimentação, a qualidade da refeição, as condições de trabalho – todos os aparelhos de ar-condicionado estavam quebrados, com médico chegando ao ponto de levar o seu ventilador no plantão, para poder usar.

Não são poucas as vezes em que pacientes em estado grave permanecem em Upas, aguardando leitos em hospitais. Como a prefeitura tem resolvido o assunto?
Na realidade, o paciente, quando é atendido de urgência, é na Upa, onde teria de ficar no máximo 24 horas e seguir para o hospital. Mas, como nós temos falta de leitos hospitalares, que dá cerca de 800 leitos e mais 50 de UTI, estamos com superlotação, não há vagas. Falta até para paciente particular – chegou uma época em que não havia vaga em UTI até para paciente particular. Então, tentamos conversar com os médicos da regulação, para que eles pudessem retirar um paciente que estava em melhor situação em UTI e transferi-lo para a enfermaria, para acomodar o paciente de urgência.

O senhor confirma que a secretaria está investindo num novo projeto de regulação de exames, vagas, consultas? Como ele será feito a partir de agora?
Nós temos, agora, dois médicos – Dr. Marcelo e Dr. Renato – que estão coordenando a área de regulação. Trata-se de uma área muito importante, porque, quando se pede uma vaga, eles vão fazer uma revista em hospitais, tentando arrumá-la. Neste local, eles fazem essa avaliação do paciente que estiver em melhores condições, de dar alta da UTI para desocupar a vaga e internar o paciente mais necessitado. E a regulação, também, já tem o controle na mão do número de vagas existentes. No que se refere às consultas também, já que elas são programadas por meio da regulação. Às vezes, temos a seguinte situação: há 16 vagas disponíveis e, destas, 8 pessoas faltam. Então, o que ocorre? Oito pessoas faltam e deixa-se de chamar 8 pessoas que estão na fila para uma consulta. Agora, com este novo sistema, a regulação poderá confirmar, com 48 horas de antecedência, se o paciente vai nesta consulta. Porque, muitas vezes, o paciente já fez o exame e fica esperando. Então, com a reconfirmação, com a interferência da regulação, poderemos organizar as consultas e os exames, poderemos chamar pacientes que estão aguardando.

As cirurgias eletivas também permanecem em estado de letargia. Há alguma solução imediata para mudar este quadro?
Neste quadro de cirurgias em geral, sabemos que há muita gente na fila para fazer, por exemplo, cirurgia de ortopedia, cirurgia geral. E nós estamos, há um mês, negociando com cada especialidade para dar avanço nisso. Por exemplo, há duas semanas, conversamos com o Hospital São Julião, que é um referência em oftalmologia, e eles vão realizar um mutirão de mil cirurgias de cataratas por mês. Eles farão as consultas, avaliarão os pacientes que necessitam fazer a cirurgia, e e nós realizaremos o mutirão com capacidade de mil cirurgias por mês. A mesma coisa estamos fazendo com as cirurgias eletivas (de hérnia, vesícula); estas que pedem menos tempo de internação, estamos fazendo um estudo e encontrando a solução ao mesmo tempo. As urgências da ortopedia, por exemplo, resolvemos. Existia uma fila, às vezes, o paciente precisava do atendimento de emergência e ficava dois ou três dias aguardando. Hoje, com o convênio com o Pênfigo, eles atenderão a baixa complexidade, agilizando estes atendimentos. A alta e média complexidades continuam com a Santa Casa, e a baixa fica para o Pênfigo, diminuindo o tempo de espera. Temos trabalhado para que o paciente seja atendido em até 24 horas.

A falta de pediatras e o atendimento pediátrico na rede municipal também carecem de melhorias urgentes. Em que estágio se encontra a negociação para que o Hospital Sírio Libanês se torne um hospital pediátrico?
Bem, a falta de pediatra é um problema nacional; aliás, a saúde como um todo é problema nacional, não só em Campo Grande. Mas, se você comparar a nossa cidade em relação a outras, estamos muito melhor. Nós sofremos realmente com a falta de pediatras, e não é por falta de remuneração. Nós, inclusive, já fizemos proposta salarial e estávamos aguardando uma contraproposta da Sociedade de Pediatria, mas não recebemos nenhuma. E uma das coisas que estamos revertendo nos postos de saúde onde há pediatras é a falta de segurança, estamos conversando com os nossos guardas municipais. Levamos ao prefeito Gilmar Olarte proposta de videomonitoramento em todos os postos de saúde, para dar mais segurança para o paciente e para o pessoal da área médica. No que se refere ao Sírio Libanês, a negociação está bem avançada, está apenas faltando a parte burocrática. Pretendemos criar um ambulatório de pediatria com atendimento 24 horas e, depois, aproveitar os leitos de internação, que são 100. Destes, precisaremos de 30, e os 70 restantes poderemos, quem sabe, utilizar para ortopedia. Dependemos apenas de resolver a burocracia.

Este novo espaço hospitalar seria um passo para a criação do Hospital Municipal?
Sim, inclusive, já está no orçamento para o ano que vem. Estamos, no momento, fazendo o levantamento para o orçamento do ano que vem, porque nós precisamos fazer três coisas importantes, uma delas o Hospital Municipal, pertencente à prefeitura e que será feito numa área pública, para 250 leitos. E o prefeito quer que façamos todo o esforço para ter o hospital no ano que vem. A área ainda está em estudo e nós ainda vamos fazer a proposta ao Ministério da Saúde, porque há alguns convênios que a gente pode trazer recursos, vamos contar com o apoio de nossa bancada federal para colocarmos, então, tudo na prática.

O senhor não tem medo de, a exemplo de Bernal e Delcídio, prometer benfeitorias e não conseguir concretizá-las?
Eu não tenho medo, porque, quando eu prometo uma coisa, é porque eu tenho condições de fazê-la. Eu estive esta semana em Anhanduí, onde a unidade reivindicou uma ambulância, e eu prometi que, em 90 dias, vamos conseguir. Porque a Semadur e a Planurb fizeram um convênio com uma empresa de loteamento e eles, em contrapartida, vão doar 11 ambulâncias para a secretaria. Então, eu assumi o compromisso. Tanto eu quanto o prefeito Gilmar Olarte não vamos vender sonhos, vamos vender realidade. Aquilo que tivermos condições de fazer, faremos, não vamos prometer nada que não temos condições de cumprir.

Quais são suas prioridades em solicitações junto ao Ministério da Saúde?
Nosso primeiro ponto é o Hospital do Trauma, da Santa Casa. Mesmo estando tudo em andamento, nós sempre estamos visitando. Ele está há mais de dez anos parado, são 135 leitos de trauma, e o número de acidentados só cresce. Mas falta pouca coisa para o hospital ser inaugurado. Porque não depende da Santa Casa e nem da prefeitura, depende da liberação de verbas do Ministério da Saúde. A segunda prioridade é inaugurar o Hospital da Criança, dar um apoio emergencial para atender a população. Neste ano, faremos este hospital apenas com recursos próprios, mas, no ano que vem, nós temos a promessa do Ministério da Saúde, porque já apresentamos o projeto, e ele vai nos apoiar, até para poder ampliar o atendimento deste Hospital da Criança. E o terceiro é inaugurar o Laboratório Central, que fica instalado no prédio da Rocket, na Maracaju. Teremos uma instalação bem ampla e pretendemos, também, ampliar os exames laboratoriais.  

Perfil
Jamal M. Salem, 55

Natural de Campo Grande. Formado pela UFMS, em Medicina, com residência em Urologia, no Rio. Trabalha na Capital desde 1985, quando se formou. É bacharel em Direito (2010). Vereador por 4 mandatos. Foi diretor adjunto do Hospital Regional, durante 2 anos (2005/06). Tem trabalho social nos mutirões de saúde, nos quais criou a Saúde da Família. Como vereador, realizou a construção do Posto da Saúde do Homem, no Bairro Coronel Antonino (2010).
 

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