Há seis meses, as primeiras das 11 famílias - maioria indígenas - que ocupam as margens do córrego Imbirussu, na Vila Bordon, em Campo Grande, chegaram ali. Os barracos de madeira e lona, montados sobre os alicerces de casas demolidas, são bem pequenos e precários para abrigar, em média, cinco pessoas. Há muitas crianças e a rua de terra levanta bastante pó nesse período de estiagem. Ainda assim, as mães e pais afirmam que morar ali é melhor que os locais onde viviam antes.
Essa é apenas mais uma de outras invasões de áreas públicas em Campo Grande. São as “favelinhas” da capital e a maior delas, com mais de 800 famílias, é a Cidade de Deus, no bairro Dom Antônio Barbosa, em frente ao lixão. A precariedade costuma ser a mesma em todas: más condições de higiene, gambiarras de água e energia elétrica, falta de rede de esgoto, entre outros fatores.
Jânia Dias Paulino, 28 anos, é terena e chegou ali na Vila Bordon há seis meses, junto com tias, primas e outros parentes. Ela está em Campo Grande há cinco anos, quando veio da Aldeia Taunay, em Aquidauana, com o marido e o filhinho mais velho, que hoje tem seis anos de idade. Aqui na capital ela teve mais duas meninas, uma delas ainda de colo.
O marido dela, que trabalha num curtume perto dali, no Distrito Industrial, recebe R$ 400 todos os meses, o que impossibilita a família de manter o pagamento do aluguel de R$ 300 da casa onde moravam até o começo deste ano, na Vila Popular. “Além do aluguel, tem a água e luz pra pagar. Não tinha como”, afirmou. No holerite do esposo, segundo ela, ele recebe R$ 800, mas “tem muito desconto e, no final, sai menos de R$ 400”.
Numa situação que parece mais difícil, está Adriana Helena Dias Sales, 34, que é tia de Jânia. Ela também veio da Aldeia Taunay com o marido, que é funcionário do mesmo curtume. Ele recebe um salário mínimo e ocuparam a área de onde outras famílias foram retiradas anos atrás porque “não dava mais pra pagar R$ 450 de aluguel e ainda a água e a luz”, lamentou. O mais grave aconteceu quando ela teve que parar de trabalhar, porque o filhinho do casal, de um ano, nasceu com hidrocefalia e precisa de cuidados constantes. “Eu fazia faxina pra ajudar e a gente ia levando, mas aí começou o tratamento do menino e não posso mais trabalhar”, lamentou.
No entanto, ela, Jânia e outras famílias dali afirmam que o modo como vivem hoje é muito melhor do que na aldeia de onde vieram. “Lá não tinha trabalho. Lá é só lavoura, mas não dá pra todo mundo. E aqui na cidade a gente tem mais recurso, tem mais saúde. Aqui tem como fazer o tratamento do menino. Lá ia ser bem mais difícil”, disse, lembrando que a primeira-dama da capital, Andréa Olarte, visitou-a durante a entrega de cobertores da Campanha do Agasalho. “Ela disse que ia me ajudar”.
Dos 11 barracos erguidos ali, apenas em três as famílias não são indígenas. Mas a esperança de todos é a mesma: conseguir uma casa própria através dos programas de moradia popular. “Daqui a gente não sai até conseguir uma casa”, enfatizou Jânia.
Aumento
As ocupações de áreas públicas aumentam em Campo Grande desde o ano passado. Porém, dessas áreas, as favelas são as que mais se destacam, pela quantidade de pessoas que ocupam os locais.
Em outras regiões, como no Bálsamo, já perto da Avenida Guaicurus, apenas grupos mínimos ocupam o local. As invasões foram um grande problema na gestão passada, do prefeito cassado Alcides Bernal. Alguns vereadores de Campo Grande chegaram a levantar a hipótese de que as ações não seriam espontâneas, e sim “direcionadas”.
Áreas invadidas
Há pelo menos 20 áreas públicas invadidas por famílias sem-teto em Campo Grande. Desde bairros da região sul até a saída para Cuiabá há barracos montados. Nem a Emha nem a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (Semadur) sabem, de fato, quantos locais encontram-se ocupados irregularmente na capital.

A secretaria, no entanto, prepara uma equipe para atuar justamente no mapeamento dessas áreas e, somente depois, saber o que fazer em cada uma. O secretário de meio ambiente, João Alberto Borges dos Santos, afirma que esta semana a equipe já começa a fazer o levantamento e vai percorrer os locais invadidos. “Estamos preparando um levantamento para mapear essas invasões”, afirmou.
O levantamento é feito com base em dados da Emha, da Semadur e da Procuradoria Geral do Município (PGM). Os três órgãos vão trabalhar juntos, conforme João Alberto. “Há processos na PGM com relação a algumas dessas áreas, alguns, inclusive, em que já foi determinada a reintegração de posse”, comentou. Assim que o levantamento ficar pronto, a prefeitura vai avaliar a possibilidade de regularizar ou construir casas para essas famílias. Há, no entanto, conforme a lei vigente, a possibilidade de os invasores perderem o direito a uma casa popular.