No intervalo de apenas um ano, os brasileiros ganharam, em média, quase quatro meses a mais de expectativa de vida. Segundo dados do IBGE, divulgados no dia 1° de dezembro, a esperança de vida ao nascer da população do País atingiu 74,9 anos em 2013, 3 meses e 15 dias a mais do que em 2012. Diante desses dados, o Correio do Estado entrevistou o cardiologista Luiz Alberto Ovando, de Campo Grande, para saber o que, na opinião dele, tem contribuído para que isso ocorra. Nesta entrevista, ele fala sobre os avanços da medicina, a disseminação da informação, além do que é preciso fazer, ao longo da vida, para fazer parte das boas estatísticas.
CORREIO PERGUNTA – A expectativa de vida do brasileiro vem aumentando significativamente em todas as regiões, de acordo com dados divulgados esta semana pelo IBGE. Como médico, a que o senhor atribui este aumento?
LUIS ALBERTO OVANDO - É interessantes observarmos que em 1900 a expectativa de vida do brasileiro era de 33,7 anos, muito baixa. E isso ocorria porque existiam muitas doenças infectoparasitárias. Isso foi contornado. E é interessante que, a partir da década de 30, nós temos aquilo que chamamos de inversão, ou mudança epidemiológica, em que se dominam as doenças infectoparasitárias do ponto de vista de prevenção e, pela longevidade, começam a aparecer outras doenças, principalmente as que nós chamamos de degenerativas. E estas doenças, ao longo do tempo, foram sendo estudadas as suas causas. E hoje nós temos o domínio disso, sem nenhuma dificuldade. E este domínio passa, obrigatoriamente, pela compreensão, principalmente, no que diz respeito ao sistema cardiovascular, que é o seu funcionamento e os problemas que o atacam. E a gente sabe, hoje, que a má alimentação, a vida sedentária, o tabagismo, a obesidade, a hipertensão, e, em decorrência de tudo isso o diabetes, comprometem o sistema cardiovascular. Mas isso se dá numa fase mais avançada, por volta dos 50, 60 anos. E as pessoas têm aprendido que é preciso contornar isso, a ciência hoje mostra isso, que o controle desses fatores de risco conseguem aumentar a longevidade. Isso é possível e as pessoas têm abraçado, embora nunca se tenha tido tanto obeso e hipertenso como nós temos hoje. Então, é pelo conhecimento.
Quais são os primeiros sinais que o organismo apresenta no processo de envelhecimento?
Isso é relativo. O processo de envelhecimento tem o interno e tem o externo. Às vezes quando uma pessoa começa a apresentar cabelo branco dizem “está envelhecendo”. Mas às vezes isso é apenas uma característica genética. O normal é que as pessoas pintem o cabelo após os 35 anos. Este é um dos sinais externos, como também a perda da elasticidade da pele. E, do ponto de vista interno, é aquele desânimo natural, de que nada vale a pena; é aquele indivíduo que se queixa “ah, não quero mais, estou cansado”. Mas isso pode aparecer na juventude, ainda, ou depois dos 90 anos. Existem culturas no mundo nas quais o indivíduo aos 90 anos está dançando, casando. Infelizmente, isso não é comum, deveria ser. Mas aí entram a situação econômica, valores sociais e que destacam estas pessoas com mais idade como referência e o indivíduo se sente valorizado. Nós vivemos numa cultura na qual o indivíduo se aposentou ele é descartado. Isso está errado, isso faz o indivíduo envelhecer e morrer antes da hora.
Os órgãos internos também sofrem transformações?
Sim, sem dúvida. Nós perdemos vigor. Para se ter uma ideia, aos 35 anos é a faixa etária que a gente estabelece como juventude. Abaixo de 35 anos é jovem, acima de 35 já é meia-idade ou maduro. Mas a partir dessa idade, o coração perde 1% de débito cardíaco; o rim, perde 1% de função renal ao longo do tempo daí pra frente. Ou seja, se pegarmos uma pessoa de 70 anos hoje, ela tem 35% menos função renal do que um indivíduo de 35 anos ou menos idade. E o coração a mesma coisa. A gente perde vigor. A musculatura também, a gente vai perdendo a força muscular. A capacidade vital, do ponto de vista respiratório, perde-se progressivamente. Então, na média, a perda é de 1% destas funções ao longo do tempo depois dos 35 anos.
Este processo é inevitável. Todos envelheceremos. Mas existem maneiras de interferir positivamente nesse processo, de modo a retardar ou diminuir a sua velocidade. O que é preciso fazer para que isso ocorra?
A primeira coisa é preciso discutir o aspecto existencial. As pessoas nascem e são induzidas a uma competição acirrada de aquisição de poder e de matéria. Isso não leva a nada, ao contrário, degenera, porque você entra num processo agressivo de concepção, tensão e estresse e se cerca de pessoas interesseiras, fazendo com que a pessoa se sinta insegura. E a literatura mostra que vive mais quem convive mais, quem tem amigos. Está provado que chega a aumentar até 50% a perspectiva de vida de quem tem amigos, com quem possa interagir. Este é um ponto. O segundo ponto é que o biológico degenera, não tem jeito, o tempo passa e desgasta. Mas há formas de a pessoa preservar: é manter uma dieta adequada, manter atividade física e se manter por meio de desafios. Por exemplo, Moisés, da Bíblia, viveu até 120 anos. Ele andava na areia do deserto, tinha o desafio que era conduzir aquele povo e tinha meta, que era conquistar a terra prometida. Enfim, ele tinha o que fazer. Então, é isso, nós precisamos ter o que fazer. Nós temos que ter desafios biológicos (manter-se fisicamente) e desafios sociais. E não tem época para você ter desafio social, a pessoa tem que continuar envolvida, esta é a função do ser humano – e não acumular dinheiro em banco e ficar reclamando da vida porque não é reconhecido. O que é que você tem para semear? Você semeia pouco ou muito? Se você semeia coisa boa, colhe coisa boa; se semeia pouco, colhe pouco e se semeia bastante, colhe bastante.
Com o passar dos anos, o metabolismo basal, que é a quantidade de energia que nosso corpo precisa diariamente para sobreviver, diminui. O que o senhor indica para manter o metabolismo basal elevado?
A atividade física. Em princípio a atividade física. Mas esta é a grande dificuldade da sociedade. Só viver mais não adianta, é preciso estar bem.Cada pessoa tem que estabelecer metas, desafios e atividade física. Não tem jeito, há uma correlação muito grande entre função cognitiva, função cerebral com atividade física.
E esta atividade física da qual o senhor fala, ela começa num simples caminhar e passa por onde?
Porque há pessoas que podem pagar uma academia, um personal trainner, mas outras não.
Mas não é preciso, obrigatoriamente, fazer uma academia. Ali é o lugar onde há uma coisa programada, direcionada, com resultado mais proveitoso em menos espaço de tempo. Mas a pessoa pode caminhar, nadar, pedalar, dançar. Agora, o que eu sempre recomendo na condição de cardiologista é que as pessoas, antes de começarem qualquer atividade física, se elas têm mais de 35 anos de idade, é sempre bom fazer uma avaliação do sistema cardiovascular. Se não tiver absolutamente nada, pode começar sem restrição. A restrição será apenas sua condição física, de condicionamento. Isso é necessário, sob pena de fazer algo que viu na televisão, ter um problema e morrer indevidamente.
O senhor diz que cuidar da saúde durante a vida adulta é fundamental para se envelhecer bem. Isto é suficiente para chegar bem aos 80 anos?
Existem no trajeto da vida, como em qualquer situação, os imprevistos. Como aquela viagem de carro que você pensa em fazer e pega tudo o que precisa, é preventiva, no sentido de precaução. Mas daqui a pouco estoura um pneu, tem uma estrada interditada, uma ponte que caiu. Entim, na vida é assim também. Então, se você recebe a instrução desde jovem de como comer corretamente, se exercitar, não fumar, não beber, ter desafios, entender seu significado social e você começa a praticar isso, e a incorporar tudo isso como se fosse rotina, dificilmente terá problema. Mas você pode ter uma pneumonia, pode pegar um H1N1 e vir a morrer, não será protegido mas terá melhor condição de resistir. Você pode sofrer um acidente em nosso país com esta falta de segurança no trânsito, mas do ponto de vista de perspectiva, que depende de você, com certeza chegará melhor aos 80, 90 ou até aos 120.
Com o envelhecimento da população, o que podemos prever em termos de doenças crônico-degenerativas? Elas também aumentarão proporcionalmente?
Aumentarão, com certeza. E é preciso que as pessoas entendam que o envelhecimento desgasta. Mas não se pode dobrar ao envelhecimento, pura e simplesmente. Precisamos sempre pensar que é preciso preservar o patrimônio e o seu físico é o seu melhor patrimônio. Não tem patrimônio melhor do que ele. A ciência nos mostra hoje que a pessoa que é ativa mentalmente, ativa fisicamente e que se coloca dentro do contexto social como uma pessoa produtiva e influente, esta pessoa tem satisfação e vai continuar vivendo. Mas no trajeto, você pode desenvolver um problema de artrose, pode ter uma contratura muscular, pode ter um câncer de intestino, mas tudo isso fica reduzido na dependência dos seus cuidados alimentares, de atividades físicas e de perspectiva de vida, de satisfação de vida. Porque o homem nasceu para se mexer, não tem jeito. É preciso ser ativo fisicamente desde cedo, além de ativo mentalmente e ativo do ponto de vista social e religioso para que você tenha harmonia de vida.