Um dos principais centros universitários do Estado, a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) está presente em 25 cidades das mais diferentes regiões. Entre os vários cursos oferecidos aos cerca de 10 mil estudantes, está o de Medicina, que em função da obra inacabada do novo prédio na Capital, terá que funcionar provisoriamente nas dependências de outra instituição. Para falar sobre este assunto e outros considerados relevantes para a educação regional, entrevistamos o reitor Fábio Edir dos Santos Costa, que exerce seu último ano de gestão.
CORREIO PERGUNTA
A UEMS é uma universidade com perfil voltado para atender, principalmente, o contingente do interior do Estado, com 21 unidades em diversos municípios. De que forma foram escolhidos os cursos para atender as regiões? Obedecendo, de certa forma, a vocação de cada lugar?
FÁBIO EDIR DOS SANTOS COSTA - Costumo dizer que a UEMS é uma instituição com um posicionamento geopolítico estratégico e privilegiado em âmbito estadual. Estamos hoje com 15 unidades universitárias com cursos presenciais e outras 10 unidades em EaD, ou seja, estamos presentes em 25 cidades que abrangem todas as regiões de Mato Grosso do Sul. Hoje, nossa disposição geográfica nos permite conhecer de perto cada uma das principais demandas e potencialidades do nosso Estado. Sobre a escolha dos cursos, quando a UEMS foi fundada ela tinha uma missão principal que era qualificar a educação básica de MS, especialmente por meio da formação de professores. Nesse sentido a escolha dos cursos, inicialmente, visava promover a formação de professores nas áreas que eram mais carentes em cada região. Continuamos trabalhando nesse sentido, mas com o passar dos anos intensificamos nossa atuação também visando qualificar todos os tipos de profissionais demandados por cada região com cursos de bacharelado, licenciatura e tecnológicos.
A inacabada obra do prédio em Campo Grande forçou o curso de Medicina a se instalar em dependências de outra universidade. O que se pretende fazer para que a qualidade do ensino não seja comprometida e o que falta para que o novo prédio entre em funcionamento?
A qualidade de ensino para o curso de Medicina, assim como para os demais cursos da unidade de Campo Grande, está garantida. É obvio que gostaríamos de iniciar o ano letivo já na unidade nova, mas isso não irá interferir nas atividades letivas. O curso de Medicina funcionará provisoriamente na faculdade Estácio de Sá, que tem uma estrutura adequada às necessidades do curso nesta fase inicial. As atividades que requerem prática laboratorial serão realizadas, nesta primeira fase, junto à Secretaria Municipal
de Saúde.
As obras do novo prédio estão andando com o compromisso de sua conclusão assumido pelo governador Reinaldo, que tem sido nosso parceiro. A expectativa é que ainda neste ano, no final do primeiro semestre, nós entremos na nossa casa nova.
Quais outras unidades da UEMS passam por reparos, ampliações ou qualquer outra obra de infraestrutura? Quantas estão atrasadas?
Todas as unidades universitárias da UEMS passaram por reformas e melhorias nos últimos três anos de nossa gestão. Ainda no primeiro semestre deste ano, todas as obras que estão em andamento deverão estar concluídas.
Quantos alunos a universidade atende hoje, quantas graduações a UEMS oferece e quais os cursos mais procurados? Como está o investimento também em pós-graduação?
Somando alunos de graduação presencial, Ead, pós-graduações, segundas licenciaturas e todas as demais modalidades de educação desenvolvidas, a UEMS tem aproximadamente 10 mil alunos atualmente. Contamos com um total de 66 cursos de graduação, 14 cursos de especialização, 11 mestrados e um número que é motivo de muita honra para nosso Estado: dois doutorados. Digo isso porque fomos a primeira universidade estadual do centro-oeste brasileiro a conquistar um doutorado e também a primeira a conquistar um segundo doutorado. Todos esses dados mostram que temos atuado com solidez em todos os níveis da educação superior, desenvolvendo inúmeras ações que envolvem ensino, pesquisa e extensão.
Qual política a UEMS vem adotando para a criação de novos cursos? Existe a curto prazo a ideia de criá-los?
A curto prazo nosso objetivo é ampliar nossa atuação na Educação a Distância, através do Plano Nacional de Formação de Professores (Parfor) e com apoio das prefeituras, atendendo de forma estratégica e pontual as áreas que mais possam contribuir com o desenvolvimento dos municípios e do Estado. Podemos também ampliar os cursos presenciais, mas isso ocorrerá prioritariamente nas nossas unidades com menor número de cursos. Atualmente todas as unidades da UEMS têm pelo menos dois cursos de graduação. Nossa meta para os próximos três anos é que todas as unidades passem a ter pelo menos três cursos presenciais, fora os cursos de Ead. Isso depende, claro, se teremos orçamento suficiente para atender esta demanda. Mas, para além das metas e perspectivas, hoje, a prioridade da UEMS é o fortalecimento dos cursos existentes.
A UEMS tem parceria com universidades internacionais para aperfeiçoamento de alunos e professores?
Desde 2012 firmamos convênio com oito universidades da Europa, América do Norte e América do Sul. Também nos vinculamos à Associação de Universidades de Línguas Portuguesa, ao Grupo Coimbra de Universidade Brasileira e diversos convênios que visam à internacionalização. Além dessas ações convencionais, a UEMS tem protagonizado diversas ações que colocam MS no centro das discussões latino-americanas, como a efetiva participação na criação do Parque Tecnológico Internacional de Ponta Porã e na colaboração para o desenvolvimento da Rota de Integração Latino-Americana.
Como reitor, quais os problemas comuns aos vários campus a serem enfrentados? Qual deles é o mais problemático e por que?
A principal necessidade que a gente tem hoje é a garantia dos investimentos e dos recursos que estão aprovados na lei orçamentária anual, juntamente com a lei de autonomia da nossa universidade, que foram adequadas ano passado pela Assembleia Legislativa após dois anos de negociação e que a gente tem nesse momento o processo de adequação a esse novo modelo de orçamento. Em termos de dificuldades, nesse momento ainda é a infraestrutura da unidade de Campo Grande, mas pelo andamento das obras, até o final do primeiro semestre de 2015 já deverá estar pronta. Em maio teremos também a implantação da terceira fase do novo Plano de Cargos e Carreiras, que era uma demanda constante dos nossos servidores e que agora é uma realidade e vem consolidar esse ciclo de avanço que temos vivido.
Qual o orçamento 2015 para a UEMS? Houve algum corte em relação ao ano passado? Qual seria o orçamento ideal para a universidade trabalhar com folga?
O orçamento previsto para 2015 está na faixa dos R$ 208 milhões, sendo que deste valor total, R$ 194 milhões são oriundos da fonte 100, ou seja, diretamente do Governo do Estado. O restante é oriundo de receita própria e principalmente de parcerias com o Governo Federal. Esse orçamento dá à UEMS condições de atender suas necessidades hoje e conseguir, se ele for executado pelo menos nos próximos três ou quatro anos, a segurança de ter a universidade num cenário de crescimento. Então esse orçamento é suficiente para nossas necessidades hoje, mas o investimento em educação é constante e se quisermos continuar investindo e ampliando, mais recursos serão necessários.
Qual a diferença no perfil dos alunos depois que a seleção passou a ser feita pelo Enem?
Muitos dos que criticam a seleção feita pelo Enem/Sisu, especialmente por instituições estaduais como a nossa, alegam que ao facilitar o ingresso de alunos de todas as partes do país, a universidade acaba deixando de atender a população local. Isso não se aplica à UEMS. Nós continuamos com a maioria absoluta de nossos alunos vindos de MS, e o que chama mais atenção e é motivo de destaque dentro e fora do Brasil: cerca de 75% de nossos alunos concluíram o ensino médio em escolas públicas. O dado revela em números aquilo que já conhecemos no dia a dia da instituição, que a UEMS é certamente uma das universidades brasileiras mais sensíveis para as demandas sociais que estão em seu entorno. Quanto às cotas, a seleção via Enem também não altera o cenário que temos. Continuamos atendendo às leis estaduais que nos orientam a reservar 20% das nossas vagas para negros que tenham estudado em escolas públicas e 10% para indígenas. Isso permite a muitas pessoas o acesso à educação superior que, infelizmente, de outra forma seria praticamente inviável.
O senhor acredita que a universidade brasileira hoje está omissa no que diz respeito ao movimento sociopolitico brasileiro? Por que?
Acho que não. Em todos os momentos da história do nosso país a universidade sempre se mostrou ativa, ela participa das grandes discussões, como por exemplo a crise da água em São Paulo, talvez uma das principais crises que o país vem enfrentando atualmente. O verdadeiro diagnóstico para esse cenário foi dado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), composto em sua maioria por pesquisadores vinculados a universidades, e são eles que há anos já vinham alertando o poder público sobre a possível escassez de água. Sobre o cenário político, todos os cidadãos têm o direito de ter suas opiniões e dentro da universidade as discussões são talvez ainda mais acirradas do que em outros espaços.
Perfil
FÁBIO EDIR DOS SANTOS COSTA, 44 anos. Natural de Campinas. Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - Rio Claro (1991). Tem mestrado e doutorado (1999) em Zoologia. Atualmente é Reitor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul - UEMS (2011-2015). Foi Diretor Presidente da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino Ciência e Tecnologia de MS - FUNDECT de 2005 a 2010