As barracas tradicionais de vendedores ambulantes, que há anos estão instaladas nas calçadas do quadrilátero da Santa Casa, foram notificados pela Prefeitura de Campo Grande a deixar o local até segunda-feira (3) sob pena de multa e apreensão de mercadorias.
De acordo com os vendedores da região, o pedido para a saída dos comerciantes foi feito à prefeitura pela presidência da Santa Casa sob justificativa de arrumar as calçadas no entorno do hospital. O Portal Correio do Estado entrou em contato com a assessoria de imprensa do hospital, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Ambulantes que mantinham pontos na calçada das ruas Rui Barbosa, 13 de maio, Eduardo Santos Pereira e na Avenida Mato Grosso, já começaram a deixar os locais. A notificação, que aconteceu na semana passada, pegou a maioria dos trabalhadores de surpresa.
Neste sábado (1º), na calçada da Rui Barbosa, que tradicionalmente costuma ter dezenas de ambulantes, apenas dois ainda mantinham suas barracas.
Um comerciante que vende brinquedos na Rui Barbosa há 18 anos e preferiu não ser identificado, disse ao Portal Correio do Estado que os vendedores foram notificados na segunda-feira (27) para sair do local no prazo de cinco dias. Conforme ele, o prazo venceria na sexta-feira (31) mas os vendedores foram liberados para ficar até o fim de semana.
Assim que recebeu a ordem, o comerciante já desmontou o comércio e deixou o local. “A justificativa é que é pra arrumar a calçada, mas não deram prazo para a gente poder voltar e nem temos para onde ir”, disse, explicando também que no local onde seu ponto foi fixado ele próprio arrumou a calçada.
Conforme ele, os pacientes da Santa Casa são clientes das barracas, além de outras pessoas que passam diariamente pela região. “É um local tradicional, os pacientes e acompanhantes conhecem e vem aqui enquanto esperam. Não tem mercadoria ilegal, não tem briga, ninguém usa drogas. Estou revoltado, é uma falta de respeito ao cidadão que está trabalhando. Se quer nos tirar, arruma um lugar para a gente ficar”, opinou o comerciante.
Ele informou ainda que nos 18 anos de comércio, é a primeira vez que recebe uma notificação para deixar o local de trabalho. Conforme o autônomo, há alguns anos foi proibido o uso de lonas e montagem de barracas nas calçadas e o produto passou a ser exposto em mesas. “Trabalhamos no sol e nos arriscamos, mas na hora de nos tirar, ninguém nos chamou para conversar, já chegaram dando ordem”, reclamou.
Há três anos com o ponto montado na Rui Barbosa, José Dario Damasceno, 86 anos, mantém a barraca de venda de cobertores mesmo com a proibição. Ele disse ao Portal Correio do Estado que entende que pode ser multado ou obrigado a sair do local, mas afirmou que “precisa trabalhar” e vai continuar montando a barraca.
Aposentado, o comerciante disse que o salário que recebe é pouco e precisa da renda extra para garantir o sustento da família. “Não estou matando, roubando nem vendendo droga.Tanta coisa acontecendo de pior e vem tirar as pessoas que estão aqui trabalhando”, disse.
Sobre o risco de ser multado ou perder as mercadorias, Damasceno disse que, caso seja forçado a sair, começará a vender as mercadorias em bairros da Capital. “Minhas contas ninguém vai pagar e eu não sei fazer outra coisa. Vou fazer o que, esperar morrer?”, questionou.
Conforme os comerciantes, barracas tradicionais de venda de ervas naturais, salgados e caldo de cana já foram fechadas por comerciantes em atendimento à notificação. Um grupo pretende se reunir e procurar a Prefeitura para tentar reverter a decisão.