Você entra no consultório. Senta. Um pouco de conversa e de observação e o profissional já sabe: é depressão.
Psicólogos e psiquiatras frequentemente se valem de uma certa intuição baseada em sua experiência -também conhecida como "olho clínico"- para bater o martelo sobre o diagnóstico de seus pacientes.
"De frente com o paciente, percebendo a forma como ele olha pra você, é possível ter uma intuição diagnóstica. Há um retardamento, os movimentos são lentos e custosos e geralmente refletem bem o que a pessoa está sentindo", afirma o psiquiatra e professor titular da USP Wagner Gattaz. "Mas, muitas vezes a gente se engana também."
O que faltava era, basicamente, um corpo mais científico ao tal do "olhar clínico". E é aí que a psicóloga e pesquisadora Juliana Fiquer, também da USP, resolveu atuar, criando um registro dos comportamentos que ajudam a dizer se a pessoa tem depressão e se o tratamento funcionou.
Em seu doutorado, Juliana entrevistou e filmou pacientes (eram 40 no total) com quadro grave de depressão (e que estavam passando por um tratamento experimental de estimulação elétrica transcraniana).
Os comportamentos foram analisados e quantificados por pesquisadores independentes que não sabiam do estado clínico dos pacientes.
A tática para dessensibilizar o paciente, ou seja, minimizar o peso de ele estar sendo filmado, consistia em deixar a câmera gravando desde antes da entrevista, enquanto alguns formulários eram respondidos.
Para os resultados serem de boa qualidade (ou seja, reprodutíveis), era importante também que os pacientes não soubessem precisamente qual seria a finalidade da gravação -registrar suas expressões facial e corporal.
Por outro lado, a maioria deles -provavelmente por causa da depressão-, nem perguntava a respeito das filmagens, relata Juliana.