Aprender outro idioma investindo o mínimo de tempo e esforço possível parece ser uma proposta irresistível. Prova disso, são as inúmeras propagandas de cursos de idiomas que abusam dos vocábulos rapidez, individualidade e até diversão. Mas para os especialistas no assunto não existe “fórmula mágica”, senão dedicação, persistência e até uma certa “ousadia”.
Professora de francês, Soniá Stransky, de 34 anos, explica que manter o contato frequente com o idioma de interesse é a principal forma de progredir. “Aprendi o inglês quase que sem professor assim”.
Mas apesar desta experiência, ela alerta para o risco de estudar sem nenhum tipo de acompanhamento porque o aluno fica mais vulnerável a assimilar erros. “Esse vício muitos anos assimilado é muito difícil de tirar. Por isso é importante conversar com um nativo que vai te corrigir”, diz.
O ERRO É NORMAL
Soniá é francesa, fluente em inglês e francês e com certo conhecimento em polonês e alemão. Ela observa que o medo de errar é o principal empecilho para aqueles que querem aprender outro idioma. “Tem que trabalhar esse negócio da confiança! Não tem problema se errar. Não precisa ser perfeito”, pontua.
Para ela, é preciso ter em mente que o idioma é feito para se comunicar. Em um primeiro momento, o aluno vai cometer erros, mas nesse período inicial o importante é transmitir uma mensagem, fazer-se entender.
Doutora em ciências socioeconômicas, ela decidiu morar no Brasil para fazer uma pesquisa de campo e acabou casando-se com um brasileiro. Para aprender a língua portuguesa, ela tinha de exercitar o idioma com a ex-sogra. “Eu progredi na comunicação com a mãe dele. Tive que me virar mesmo até conseguir começar a falar”, declarou.
Mas pouco antes de desembarcar no Brasil, quando ainda estava na França, ela já procurava manter contato com o idioma. “Escutava muito os brasileiros, principalmente vídeos no Youtube. Pouco me importava o conteúdo”.
VÍDEO É A NOVA LOUSA
Felipe Dib é criador da plataforma Você Aprende Agora (foto: Reprodução)Professor de inglês e idealizador da plataforma Você Aprende Agora, Felipe Dib alerta que assistir filme ou ouvir música em outro idioma com objetivo de aprender é diferente do feito em momentos de lazer ou distração.
“Por mais que pareça simples, 99,9% das pessoas que falam que assistem filmes em inglês sem dificuldade e entendem tudo é uma lenda. Se você está aprendendo vai ouvir apenas ruídos porque não entende essa língua ainda”.
A dica dele é para aqueles que estão no nível básico, primeiro assistir com áudio em inglês e legenda em português para entender a história. Depois, com áudio e legenda em inglês. Ele afirma que até para aprender música é preciso ter metodologia e sequência. “Mas depende muito do nível que está esse aprendiz”.
Outra dica está relacionada a concentração. Apesar de o método de ensino criado por Dib ser por meio de vídeos, teoricamente mais fácil e acessível, ele afirma que a dedicação é imprescindível.
“A dica mais importante é: isole as distrações, feche o whats app e deixe o celular longe de você para nem olhar. Tem que se concentrar”, diz.
DOMINE O RELÓGIO
E nessa ideia de concentração, organizar o tempo é fundamental. “Temos exemplos de pessoas que estudam dez minutos por dia e têm resultados incríveis, mas é porque a pessoa não se distrai”, declara Dib, refutando aquela ideia da necessidade várias horas de estudo.
“No nosso ranking dos 20 melhores alunos, 15 são pessoas com mais de 60 anos. É porque eles não se distraem. Essa geração é a geração do imediato”, analisa.
Essa questão do tempo também é citada por Soniá como uma das dificuldades apontadas por aqueles que têm dificuldades em aprender outra língua. “Hoje o tempo é um problema para todo mundo, então a gente faz conforme a gente pode. Ás vezes com 1 hora, 1h30min por semana e o aluno vai aprendendo assim. Depende da disposição”.
VONTADE DE APRENDER
Paula Calado passou 40 dias na França para aprender mais sobre o idioma (foto: Arquivo Pessoal)A estudante de psicologia Paula Rodrigues Calado, de 19 anos, é fluente em francês, idioma que começou a aprender aos 13 anos. “Me interessei porque era diferente e nunca tive interesse no inglês”. Ela começou a estudar com uma turma de crianças, gostou, avançou de níveis e terminou o curso em 2014.
Para aprender ela conta que sempre manteve contato com o idioma, além do curso que fazia. “Com inglês você ouve música, mas no francês a dificuldade é um pouco maior. Sempre busquei ler alguns textos. Também fazia algumas atividades em aplicativos”.
Ela também teve a oportunidade de fazer um intercâmbio durante 40 dias e conta que depois da experiência conseguiu assimilar o francês mais facilmente. “Fiquei pouco tempo e já senti a diferença. A cabeça muda, é uma imersão no idioma”.
Mateus De Souza Jeronymo, de 18 anos, foi um dos 50 vencedores do concorrido Programa Jovens Embaixadores no ano passado. Ele conseguiu deixar Campo Grande para fazer um intercâmbio de três semanas nos Estados Unidos.
Mateus foi um dos vencedores do Jovens Embaixadores e participou de intercâmbio nos EUA (foto: Arquivo Pessoal)"Não existe fórmula mágica! A melhor maneira de aprender um idioma é fazer uma imersão na língua”, brinca. “No meu caso, eu assisto muitos filmes, ouço música, vejo programas de TV e séries. Saber a gramática é muito importante, mas essas coisas ajudam a saber utilizar o idioma no dia a dia", diz.
Sobre a experiência na Embaixada dos Estados Unidos, ele declara ter sido incrível. “Não tive nenhuma dificuldade. E mesmo quando não sabia o significado exato de uma palavra eu conseguia me expressar e ser compreendido. Além disso, não tive vergonha de pedir para algum americano repetir algo ou falar mais devagar”, finalizou ele, reforçando que a vergonha é prejudicial nesse processo.