Cidades

Entrevista

‘Toda cidade organizada, conectada e inteligente é uma cidade mais humana’

Luciano Santos Rezende é Prefeito de Vitória (ES)

Redação

10/07/2016 - 06h00

O exemplo de gestão pública aplicado pelo prefeito de Vitória, capital do Espírito Santo, rendeu a ele um convite da Associação Comercial de Campo Grande para uma palestra esta semana na Capital. Adepto da gestão compartilhada e horizontal, Luciano Santos Rezende conta nesta entrevista como aprendeu a ouvir a população desde sua primeira gestão como vereador e como a utilização das ferramentas tecnológicas tem mudado para melhor o fazer público. 

Segundo ele, o envolvimento das pessoas é fundamental para as mudanças, numa corrente que ele denomina #somostodosprefeitos.

CORREIO PERGUNTA 
O senhor foi eleito em 2012 prefeito da capital do Espírito Santo, Vitória. Seu lema de campanha era “Muda Vitória”. O que, naquela época, o senhor desejava mudar? 
Luciano Santos Rezende -
Nossa campanha foi feita toda com uma ideia: “Muda Vitória, uma cidade mais organizada, mais segura e mais humana”. E Vitória se tornou uma cidade mais organizada, mais segura e mais humana. Para você ter uma ideia, em 2012 Vitória era uma das capitais mais violentas do País, com 31 homicídios por 100 mil habitantes. E isso foi prioridade em minha campanha, foi prioridade durante o governo, é prioridade e a cidade hoje é uma das capitais mais seguras do Brasil. Ela tem 356 mil habitantes e a Grande Vitória tem 2 milhões. Durante a semana nós sofremos impacto da movimentação da região metropolitana, que dobra a população da cidade. Vitória tem hoje média de 20,6 homicídios por 100 mil habitantes. Em três anos foi de 31 para 20. A média brasileira é de 30 a 29. É uma das cidades mais seguras no Brasil em três anos e seis meses. Outra mudança que fizemos foi a da mobilidade urbana. Vitória se tornou a Capital brasileira das bicicletas. Construímos mais ciclofaixas, ciclovias em quilômetros do que existia em toda a história da cidade. Começamos, recentemente, com a bicicleta compartilhada, que tem número de viagens maior do que a média brasileira. Algumas pessoas já estão trabalhando com estas bicicletas compartilhadas. Nosso sistema de saúde, que era prioridade, foi muito mudado. Hoje, cada pessoa que vai às unidades de saúde dá uma nota por torpedo pelo seu atendimento. 

Nesta Capital o senhor implantou a gestão compartilhada, tema que o trouxe a Campo Grande para palestra a convite da Associação Comercial de Campo Grande. Qual é o fundamento dessa gestão? 
Faço gestão compartilhada, horizontal, conectada, compartilhada com as pessoas, usando um lema que eu gosto muito e que é hashtag #somostodosprefeitos. A gente convida, permanentemente, por meio de vários mecanismos, as pessoas a serem prefeitas da cidade comigo. Trata-se de um governo em rede, conectado, usando todas as ferramentas tecnológicas para manter o contato permanente com a população. Eu resolvo questões via WhatsApp com a população, por exemplo. Todo mundo em Vitória tem meu telefone particular, todo mundo me aciona o tempo todo. Nós temos uma rede de mecanismos que vai desde nota por torpedo, WhatsApp do prefeito, WhatsApp da prefeitura, site da prefeitura, gabinete itinerante com reuniões mensais - no máximo de dois em dois meses - com a presença de todo o secretariado, no modelo de uma reunião de condomínio. Nestas reuniões presenciais conseguimos atentar para alguma pendência que ficou para trás e retornamos na região. Nosso trabalho, então, é o tempo todo para fazer um governo conectado. Os conselhos em Vitória, de toda ordem, são conselhos muito prestigiados pelo Governo. Para você ter uma ideia, a educação acabou de dar posse a 1.546 conselheiros eleitos pelas escolas, a partir de 8 anos de idade. Enfim, é um governo revolucionário, horizontal, para enfrentar o governo vertical, atrasado, do século 20, que é um dos motivos da ruína do sistema que nós estamos assistindo em Brasília. Há mais de um ano, quase todos os dias, alguém é afastado, indiciado ou preso em Brasília. Isso não é uma questão relacionada a um ou outro partido, é todo o sistema político que está caindo, virando pó.

Como consolidar um novo formato na gestão pública estatal que tenha como eixo basilar a democratização e participação social na implementação das políticas públicas? 
Usando as ferramentas do século 21, que nos disponibilizam construir um governo em rede. No século 20 a gente não tinha estas ferramentas e hoje temos. A internet é um espaço de reunião atemporal e afísico, não há necessidade de marcar hora nem de presença física. Esta ferramenta revolucionária apareceu no final do século 20 e ela vai dar as pautas do século 21. Darei um exemplo: eu recebi, dia destes, às 6h30min - sim, porque logo cedo eu opero minhas redes sociais - wattsapp de um cidadão que copiava e colava uma parte do Diário Oficial da prefeitura de Vitória, copiava e colava uma parte da legislação e me fazia uma pergunta absolutamente fundamentada. Há 30 anos este questionamento seria feito apenas por um órgão de controle e pela justiça. Hoje, um cidadão, às 6h30min, está fazendo este questionamento diretamente ao prefeito. Trata-se de uma sociedade em conexão o tempo todo. Se nós não usarmos estas ferramentas vamos ser atropelados. O movimento que surgiu nas ruas em 2013 mostra claramente que há uma demanda do País por transparência, eficiência, rapidez e construção de soluções em conjunto com a população. Ou os agentes políticos percebem isso ou vão ser varridos por esta força, que é incontrolável. Está, inclusive, promovendo no País uma reforma política gigante pela força das ruas, empurrando o Judiciário, empurrando a imprensa, isso ocorre agora no País. 

Em que medida o cenário atual possibilita de fato a consolidação da gestão pública compartilhada pela via das organizações sociais? 
Nós estamos no momento exato. O século 20 foi o século do governo vertical. Já no fim do século este tipo de governo estava caducando. Certamente o século 21 será o século do governo horizontal. Todo mundo na cidade tem que ser prefeito, porque na hora que você inclui todo mundo cria um ambiente de corresponsabilidade na cidade e as coisas funcionam melhor. Este é absolutamente o momento. Toda cidade organizada, conectada e inteligente é uma cidade mais humana. Estas ferramentas tecnológicas transformam as pessoas, transformam os sistemas. Nós acabamos de implementar em Vitória um sistema de confirmação de consultas on-line por site, por internet. Dezenove mil consultas em apenas uma unidade de saúde não eram efetivadas todos os dias, 40% das consultas. No momento em que a gente consegue confirmar ou não a consulta, podemos colocar outra pessoa no lugar e isso humaniza o atendimento, a cidade. Então, toda vez que você utiliza ferramentas para tornar a cidade mais inteligente, mais adaptada a este mundo em que nós vivemos, certamente a sociedade se torna mais humana.

A participação da sociedade civil, por meio  das organizações sociais, está mesmo delineando novas tendências na gestão das políticas públicas?
Certamente, não só na gestão das políticas públicas mas na gestão de uma forma geral. Nenhuma empresa privada hoje deixa de ouvir os seus clientes, seus usuários, porque se ela fizer isso eles migram. As cidades, os estados e os países disputam a revitalização de seu ambiente econômico com o modelo que apresentam. 

O senhor tem plena certeza de que a população de Vitória – do rico ao pobre – conhece este seu jeito de governar? Como a prefeitura difundiu a gestão compartilhada e como é medido o retorno? 
Este é um processo contínuo, permanente e que vai se consolidando à medida que as pessoas vão experimentando, sendo chamadas por uma destas portas de entrada - conselho, ou WhatsApp, ou reuniões físicas. Nada substitui a visita, o cafezinho, o abraço, o olhar. Mas nós precisamos utilizar ferramentas disponíveis para melhorar  este tipo de atendimento. À medida que a cidade vai percebendo isso, ela vai respondendo e nós temos avaliações muito positivas desta forma de governar. Até porque, como eu lhe disse, esta é uma demanda nacional brasileira, e do mundo, não é só de Vitória.

Mesmo quando se sabe que uma grande maioria da população não tem acesso à internet, às redes sociais?
Os movimentos que nós fazemos não são apenas via internet. Primeiro, Vitória é uma cidade altamente conectada, é um dos maiores indicadores de conexão do Brasil. Mas nós temos ferramentas como, por exemplo, o Gabinete Itinerante, no modelo de uma reunião de condomínio, no qual a gente migra para justamente atender quem não está conectado. São vários mecanismos, sempre buscando a governança horizontal, que pode ter uma ferramenta tecnológica mas ela pode ter também uma reunião tradicional, ouvindo as pessoas. Eu me atentei para isso quando fui vereador, logo no início de minha carreira eu percebi que todas as leis, todos os projetos de lei que eu fazia depois de uma audiência pública eram melhores do que os projetos de lei que eu fazia sem a audiência pública. E eu fui percebendo que a audiência pública é mágica. Então, desde aquela época eu já colocava os meus telefones nas unidades de saúde. Qual era o meu raciocínio? O usuário do sistema de saúde fala com o secretário independente de qualquer pessoa permitir ou não. Isso me dava o controle pela ponta. Apenas depois de 20, 25 anos as ferramentas são outras, mas a ideia não é dependente de aparato tecnológico. O envolvimento das pessoas é o que é o “x” da questão, o governo horizontal, o governo #somostodosprefeitos. As ferramentas você vai usar de acordo com o ambiente em que você está. Se  está num local onde não há internet utilize um papel e uma caneta, mas leve em consideração o que a pessoa está dizendo.  

O senhor completará 4 anos à frente da prefeitura. É possível ser candidato à reeleição. Caso não ganhe, acredita que seu sucessor dará seguimento ao seu projeto?
 Nós não decidimos isso ainda, as eleições oficialmente começam no dia 16 de agosto e eu sou candidato a cuidar de Vitória até o último minuto que eu tenho para decidir. Inclusive, quanto mais eu cuidar de Vitória, melhor fica minha possibilidade de decisão daqui a 40 e poucos dias. Quanto a dar prosseguimento, o mundo e o Brasil não permitem mais nenhum tipo de governo que não seja horizontal, transparente, eficiente e rápido. Todas as pessoas vão por bem ou pela força da demanda da população ter que se adaptar a este modelo. O governo vertical, atrasado, do chefe, do chefe, do chefe para chegar ao povo é uma peça de museu. O líder maior, no caso do município, o prefeito, está na mesma linha de qualquer pessoa. Se ele não compreender isso ele será atropelado por uma sociedade que não permite mais o governo vertical, basta observar o que está acontecendo no País. A sociedade exige transparência, honestidade, rapidez e eficiência o tempo todo, tanto na iniciativa privada quanto na gestão pública. Isso é um fenômeno sem volta.  

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