Conhecidos pelos destinos paradisíacos e de água cristalina, os Estados do Ceará, Pernambuco e Rio de Janeiro têm quase metade das praias ruins ou péssimas em relação à qualidade da água, segundo levantamento da Folha de S.Paulo.
Isso significa que, dos trechos monitorados no litoral, quase metade ficou impróprio para banho por pelo menos 25% do tempo, ao longo de todo o ano passado.
A reportagem analisou dados de balneabilidade de 1.180 pontos de praias monitorados em 14 Estados do país -há praias com mais de um local de análise. Entre esses pontos, 42% foram classificados como "bons" ou "ótimos" para banho, 29% estavam "regulares", e 29%, "ruins" ou "péssimos" por mais de três meses no ano. Os dados são dos próprios órgãos ambientais estaduais.
O cenário contrasta com a boa condição dos balneários mais famosos, como Jericoacoara (CE), Búzios (RJ) e Porto de Galinhas (PE), e é um retrato dos ainda baixos índices de cobertura e tratamento de esgoto nos municípios litorâneos.
A maioria dos trechos ruins fica na capital ou região metropolitana, e sofre influência de ligações clandestinas de esgoto e crescimento urbano desordenado. "É algo que ocorre em todo o país, infelizmente", informou a Agência de Meio Ambiente de Pernambuco, para quem o problema é "estrutural".
Os trechos considerados ruins ou péssimos no Estado atingem 44% do total de pontos monitorados. A maior parte fica na região metropolitana do Recife (Olinda, Paulista e Jaboatão dos Guararapes). A cobertura de esgoto nesses municípios não ultrapassa 40% -em Jaboatão, é de 6%.
"O problema é que os governos, por muito tempo, se preocuparam em mostrar obras acima do solo. Rede de esgoto, ninguém vê", diz o engenheiro Eduardo Elvino, diretor de controle de fontes poluidoras no governo de Pernambuco. "Havia projetos em gavetas há anos. Mas eles estão começando a sair do papel", defende.
No Ceará, onde o turismo é uma das principais atividades econômicas, o percentual de pontos ruins ou péssimos é de 43%. Em Fortaleza, dos 31 trechos monitorados, apenas um foi considerado bom -ou seja, ficou próprio para banho ao longo de todo o ano. Todos os outros variam entre regular, ruim e péssimo.
"Não é algo bom, mas já melhorou muito", diz a secretária-executiva do Meio Ambiente no Ceará, Maria Dias. "O problema é que isso não evolui da noite para o dia. E não depende só do saneamento." A capital cearense tem cerca de 50% de cobertura de esgoto, segundo dados do Instituto Trata Brasil. Mesmo onde há coleta, porém, ligações clandestinas baixam a qualidade da água.
"A avenida Beira-Mar, em Fortaleza, é toda saneada. Mas e daí? Tem pontos clandestinos", comenta Dias. O pior trecho fica no final da avenida, próximo ao iate clube. No mais, a qualidade da praia com maior concentração hoteleira na capital cearense se divide entre regular e ruim.