Sem contar com o protagonismo dos Estados Unidos e sob a presidência de Fiji, os negociadores da COP-23, a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, reviveram as tensões entre os países em desenvolvimento e o bloco dos desenvolvidos.
Em duas semanas de brigas para evitar retrocessos nos compromissos para redução de emissões e financiamento das ações climáticas, sobrou pouco espaço para conquistas. As negociações mais duras ficaram para a COP do ano que vem, que ocorrerá na Polônia.
No último dia, Fiji buscou garantir a formalização do fundo de adaptação aos efeitos das mudanças climáticas no âmbito do Acordo de Paris, o que estendeu a conferência até as 4h da manhã deste sábado (18). Além do fundo, a COP aprovou o formato do diálogo que, ao longo do ano que vem, deve encorajar os países a aumentar a ambição nas suas metas climáticas.
Enquanto os Estados Unidos são o maior responsável histórico pelas emissões de carbono no mundo, Fiji figurou neste ano entre os três países mais vulneráveis aos efeitos da mudança climática, de acordo com o ranking da German Watch.
Junto ao grupo das pequenas ilhas, a presidência da COP-23 queria aumentar a ambição nas metas nacionais e o comprometimento com fundos para adaptação ao clima e compensação por perdas e danos. Mas a ausência americana contribuiu para o receio e a desconfiança dos países em melhorar seus compromissos.
Segundo um dos negociadores ouvidos pela reportagem, os países estão fazendo suas contribuições ainda sob a expectativa de que os Estados Unidos voltem para o Acordo de Paris. Ele compara a situação com alguém que, depois de um jantar caro, não aparece para pagar. "Estamos pagando por ele, mas esperando que ele volte com a carteira", compara.
Com um clima de mais receio e desconfiança, alguns movimentos fora das negociações foram frontalmente combatidos pelos países em desenvolvimento, que perceberam tentativas de retrocesso no compromisso dos desenvolvidos.
PROTOCOLO DE KYOTO
Nas duas semanas de negociações, países como o Brasil foram contundentes ao exigir que os países ratificassem nos seus parlamentos a segunda fase do Protocolo de Kyoto. A extensão do primeiro pacto climático precisa ser aprovada para que o mundo não fique sem nenhum acordo até 2020, quando o Acordo de Paris passa a vigorar.
Embora o protocolo esteja prestes a expirar e sua aprovação tenha pouco efeito prático sobre as emissões de carbono, os países em desenvolvimento passaram um recado claro aos desenvolvidos: a diferença histórica de responsabilidades pelo clima prevista em Kyoto está valendo.