Cidades

Ouro de Ofir

Apesar de operação, "mulas da fraude" continuam com golpes

Novas transações fraudulentas foram descobertas e prejuízo pode ser bilionário

Redação

28/11/2017 - 11h52

A Operação Ouro de Ofir, deflagrada na semana passada pela Polícia Federal e Receita Federal, desarticulou a célula do criminoso especializado em golpes financeiros que agia a partir de Campo Grande, por meio da falsa repatriação de recursos referentes a uma mina de ouro. Entretanto, as investigações não impediram que as fraudes continuassem pelos corretores, baseadas, principalmente, em crenças religiosas e na promessa de que os investimentos serão recompensados.

Nas redes sociais e grupos de WhatsApp, tais corretores, identificados como "mulas das fraudes", mantêm garantias de pagamento e seguem a aliciar novas vítimas, até porque dependem da arrecadação de comissões. Por este motivo, a Delegacia Especializada de Repressão Crimes de Defraudações, Falsificações (Dedfaz) da Polícia Civil passou a atuar no caso, apurando denúncias de estelionato.

Estão presos Celso Éder Gonzaga de Araújo, gerente da empresa Company Consultoria Empresarial Eireli, localizada no Jardim São Francisco e usada para legitimar os golpes, Sidnei dos Anjos Peró e Anderson Flores de Araúj. Há mais envolvidos.

Os três coordenavam as operações SAP, abreviação para o nome de Peró, e Aumetal. A ação consistia em “típica fraude para burlar tanto o fisco federal como as supostas vítimas que acreditam estarem investindo num negócio lícito e devidamente declarado, com respaldo das autoridades federais de fiscalização”, lê-se no relatório policial. 

Os investidores aplicavam cotas a partir de R$ 1 mil e chegavam a assinar contratos falsificados, acreditando que futuramente receberiam milhões dos recursos da mina. O valor pago por eles na SAP e Aumetal, afirmavam os golpistas, seria apenas para cobrir despesas com o processo.  Porém, quanto mais fosse investido, maior seria o benefício.

De acordo com o delegado Guilherme Farias, da Delegacia Especializada de Combate ao Crime Organizado da PF, os corretores, que operam abaixo dos líderes na escala hierárquica, continuam divulgando as operações e afirmando que o trabalho policial se trata de uma mentira sustentada pelo Governo Federal. “Eles chegam a dizer que o pagamento, que nunca aconteceu, será feito no próximo dia 1º de dezembro”.

Conhecidos como “mulas das fraudes”, pois realizam trabalho sujo similar ao que fazem as “mulas do tráfico”, tais corretores são ou têm contato com líderes religiosos, razão pela qual convencem as pessoas sobre a legitimidade das transações, na afirmação de que o dinheiro é uma bênção de Deus. “Muitas acreditam até hoje que vão receber alguma coisa”, pontuou Guilherme.

Durante a operação, a PF descobriu que aproximadamente 25 mil pessoas haviam sido lesadas em todos os estados da federação. Algumas chegaram a aplicar de R$ 500 mil a R$ 1 milhão. Porém, novas operações similares a SAP e a Aumetal foram descobertas recentemente, o que leva a polícia a crer em prejuízo bilionário. “Descobrimos agora a Operação Zim, com  moedas do Zimbábue, Mariah, Londres, Suíça, G4 e até mesmo Armagedom, com milhares de vítimas, e todas elas serão investigadas”, detalhou o delegado.

POLÍCIA CIVIL

Dentro de suas atribuições, a PF investiu contra a célula do esquema, pois havia provas de crime contra o sistema financeiro nacional. Já a Polícia Civil, pela Dedfaz, vai investigar as ações dos corretores, especificamente no que se refere ao estelionato cometido contra cada um dos investidores.

Segundo o delegado Maércio Alves Barbosa, titular da Dedfaz, pelo menos 20 vítimas foram identificadas somente em Campo Grande, dentre as quais algumas chegaram a empenhar R$ 100 mil. “Temos um problema de fé, porque muitos envolvidos nesse comércio fantasioso estão dentro das igrejas e levam as pessoas a crer em fatos que desafiam a razão”, pontuou Máercio. 

ESQUEMA

Com intuito de legitimar golpes financeiros, a organização desarticulada chegou a declarar falsamente o repasse de R$ 3.938.441.828,00. Utilizando Letra do Tesouro Nacional (LTN), XXX, um dos investigados, transferiu o valor exorbitante para Celso. A transação foi declarada por Celso no imposto de renda e usada como lastro para convencer investidores de que eles seriam pagos.

Ao longo das investigações, tanto o Banco Central do Brasil, como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), tiveram documentos forjados, com citação do nome de servidores públicos federais e, até mesmo, assinatura falsa, tudo organizado para mostrar as vítimas que os investimentos se tratavam de operação financeira lícita. “Por fim, e mais recente, o Banco do Brasil S/A detectou uma fraude em um documento supostamente assinado por um executivo da Secretaria Executiva” consta no relatório.

Conforme noticiado, a organização buscava lucro a partir da falsa existência de uma suposta mina de ouro cujos valores estariam sendo repatriados para o Brasil e cedidos, vendidos ou até mesmo doados a terceiros mediante pagamento. Por mais questionável que pudesse parecer a história, foram inclusive detectados contratos de doação, mediante pagamento.  

Para demonstrar “legalidade”, os investigados redigiam contratos com base em “Escritura Pública Declaratória de Averbação de Direito de Crédito e Recebíveis EB-Protocolo nº 30.774/201 Livro: 694 Folha: 078”, tentando dar um viés de legalidade a um negócio tipicamente fraudulento. Apesar de os autores alegarem que os valores extratosféricos “transferidos” a terceiros, em contrato, serem oriundos de uma mina de ouro, nada disso encontra-se registrado ou respaldado com documentação legal.

 

*Matéria editada às 16:15 horas do dia 24 de setembro 2018 para exclusão do nome de um dos suspeitos por determinação da Justiça de Goiás.

Por decisão do juiz Adenito Francisco Mariano Junior, do Juizado Especial Cível, da Comarca de Itajá (GO), de 17 de maio de 2018, o Correio do Estado retirou o nome de dois acusados de envolvimento em esquema de pirâmide financeira e enriquecimento ilícito, com vítimas em Mato Grosso do Sul e alvo de operação Ouro de Ofir, da Polícia Federal.  

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