A violência está crescendo nas ruas de Campo Grande, especialmente nos bairros e vilas da periferia, que se transformaram em palco de assaltos e até mesmo de latrocínios (roubos com morte). Também tornaram-se frequentes os roubos em pontos de ônibus, nos quais pessoas que estão a caminho ou retornando do trabalho ou escola têm sido as principais vítimas dos criminosos.
Na prática, a falta de um policiamento mais efetivo nas ruas está facilitando a ação de assaltantes que, com esse tipo de delito, também alimentam o consumo de drogas e outras demandas criminosas, inclusive as que partem de dentro dos presídios da Capital.
De 1° de janeiro deste ano até segunda-feira, a Polícia Civil já havia registrado 2.492 assaltos em vias públicas na Capital. Entre eles, 963 estiveram relacionados diretamente ao roubo de celulares, delito fomentado pelo tráfico de entorpecente e comércio ilegal de aparelhos e peças, além de sustentar a entrada ilegal desses equipamentos nas unidades penais.
Os criminosos geralmente agem em motos e escolhem vítimas mais vulneráveis, principalmente aquelas paradas em pontos de ônibus. Muitos são os assaltos que ocorrem ao amanhecer o dia e à noite.
Estatísticas da Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) apontam que, em média, a cidade foi palco de 415 ocorrências dessa natureza por mês em 2018. A violência tem chamado atenção.
VIDAS PERDIDAS
Nos últimos dois meses, por exemplo, três pessoas foram mortas em latrocínio. No dia 7 de maio, o auxiliar de pedreiro Antônio Marcos Rodrigues de Souza, 34, morreu ao tentar proteger uma adolescente vítima de assalto, no cruzamento da Rua dos Ferroviários com a Avenida Mato Grosso, no Centro. Na ocasião, ele seguia para o trabalho e, ao ver a ação, tentou intervir, sendo esfaqueado no pescoço. O assaltante, Alexandre Moreira de Moraes, 23, fugiu a pé, mas acabou preso no mesmo dia pela Polícia Militar.
No dia 12, Rafael Lucas Soares, 23 anos, militar da Aeronáutica, reagiu a assalto em ponto de ônibus na Rua Bacabá, no Coophatrabalho, foi baleado e morreu. Ele teria se recusado a entregar o celular e entrou em luta corporal com o criminoso, que estava de moto e posteriormente foi identificado como João Victor Gomes Costa, 20, que acabou preso.
Jean Kaio da Costa Oliveira, 17, negou-se a entregar celular para o ladrão em ponto de ônibus na Rua Cláudio Coutinho, no Jardim Campo Nobre, foi baleado e morreu. O crime ocorreu na tarde de terça-feira.
Já na madrugada do dia seguinte, uma mulher de 27 anos não quis entregar o celular ao ladrão e também acabou sendo baleada.
SEGURANÇA
O secretário Antônio Carlos Videira, titular da Sejusp, afirma que a violência é resultado de dois fatores. O primeiro deles é que os celulares de hoje em dia são bastante avançados, repletos de funções complexas e com alto valor de mercado. Por este motivo, os criminosos utilizam o equipamento como moeda de troca em pontos de venda de entorpecentes ou até mesmo com empresários que precisam de peças para reposição.
Existem aparelhos que valem mais de R$ 4 mil e, mesmo assim, Mato Grosso do Sul tem mais telefones do que habitantes. Dados da Agência Nacional de Telecomunicações mostram que o Estado tem 3.21.649 celulares. Em contrapartida, a população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas é de 2.713.147.
Outro fator é que, justamente por todas estas funções, os celulares se tornam ferramenta imprescindível no cotidiano das pessoas e contêm informações de caráter pessoal.
“Hoje em dia, o celular não é apenas um dispositivo, representa mais do que um bem material. As pessoas enxergam como algo importante que contém suas informações privadas, fotos e outras conversas que elas não querem que terceiros tenham acesso”, disse Videira. Tal cenário faz com que as reações, apesar de nunca recomendadas, se tornem cada vez mais comum. “O indivíduo que está cometendo um roubo não tem nada a perder, por isso é importante não reagir. No caso do mês passado, no Centro, a polícia fez sua parte e, por meio das investigações, prendeu o autor, mas a vida tirada não volta”, pontuou.
MEDIDAS
Videira reconhece que boa parte dos roubos acontece nos corredores do transporte público e que a polícia não dispõe de efetivo suficiente para patrulhar todas as áreas. Por isso, o auxílio da população é imprescindível, não apenas por meio de denúncias.
No que se refere ao policiamento, afirma que a Polícia Civil intensifica investigações em busca de receptadores que alimentam o roubo, e que a PM faz patrulhamento ostensivo reforçado em horários de pico, nos principais corredores da Capital.