Desde que o filho tinha um ano de idade, Romilda viaja 440 quilômetros para que ele possa receber atendimento médico. O garoto, que hoje tem13 anos, sofre de paralisia cerebral, por isso precisa de cuidados especiais que Porto Murtinho, cidade onde mora, não oferece.
“Ele sente muita dor, viaja a noite inteira acordado, passa mal, e às vezes chega aqui e não é atendido. Mas é preciso, porque lá não tem nenhum tipo de tratamento. O jeito é vir para Campo Grande”, diz a mãe.
A realidade de Romilda Amarilha e do filho é a mesma enfrentada por outras milhares de pessoas, que diariamente, buscam atendimento na Capital. Não fosse o transtorno enfrentado pelas famílias, o inchaço do Sistema Público de Saúde em apenas uma cidade, que deságua na falta de leitos e médicos para todos, o problema estaria resolvido, mas não está.
“Campo Grande é responsável pela saúde de 33 municípios da macrorregião, mas acaba atendendo muito mais. Além disso, não há um filtro adequado dos pacientes de acordo com especialidades, o que acaba superlotando os hospitais e impedindo que seja oferecido um bom atendimento tanto para campo-grandenses, quanto para quem vem do interior”, explica a presidente do Conselho Municipal de Saúde (CMS), Maria Auxiliadora.
Em busca de uma solução para a crise, que acaba afetando a todos, o Conselho criou um grupo de trabalho que vistoriou os principais hospitais da Capital.
O resutado das visitas foi um relatório que mostra o que os ônibus de secretarias de saúde do interior circulando cada vez mais por Campo Grande já indicavam: pelo menos 20% dos atendimentos feitos pela Santa Casa, Hospital Regional e Hospital Universitário, são de pacientes que vem do interior.
Dados do HR, por exemplo, mostram que dos 26.177 atendimento ambulatoriais realizados pelo hospital no primeiro quadrimestre deste ano, 5.565 era de pacientes de outras cidades, que não a Capital, ou seja, 21,26%. A situação se repetiu nas internações no mesmo período. De 4.889 realizadas, 1.035 eram de pacientes do interior, percentual de 21,17%.
“O que nós queremos mostrar é que está vindo gente do interior que poderia ser atendida no município onde mora, enquanto a população daqui morre na fila por vaga, por causa da superlotação. O nosso pedido é que o Estado e os hospitais façam a sua parte. O Estado a partir do financiamento da saúde nesses municípios, além da regulação correta, e os hospitais a partir de uma melhor gestão da vagas”, pontua o secretário executivo do CMS, Josemar Carnalã.
Conforme o Conselho, a prefeitura da Capital tem investido, em média, 36% do orçamento em saúde, enquanto o Estado investe só 12% - mínimo previsto em lei -, e a União bem menos que isso.
“Isso significa que a Capital tem arcado sozinha com a falta de investimentos no interior. Exemplo é que nós temos pouco mais de 864 mil habitantes, mas o número de cartões do SUS registrados na Capital ultrapassa 1,2 milhão, como isso seria possível se não fosse a realidade de que há número excessivo de pessoas que moram no interior e buscam tratamento aqui?”, questiona o conselheiro.
ROTINA
Em busca de atendimento médico, pacientes ficam hospedados em casas de apoio na Capital. Rider Soares, 34 anos, é proprietário de um dos quatro locais de hospedagem regulamentados e conta que há muitos outros clandestinos.
Com 18 apartamentos disponíveis, ele diz que recebe cerca de 60 pessoas por dia.“Nós temos convênio com 10 munícipios. Algumas pessoas vem, passam por atendimento e vão embora no fim do dia. Outros ficam hospedados aqui à espera de atendimento e outros porque estão acompanhando um doente”, explica.
Além do dormitório individual, onde há cama e banheiro, o local oferece café da manhã, almoço e jantar. Os pacientes e acompanhantes vem de ônibus de suas cidades, mas o transporte aqui na Capital também é realizado pelos proprietários da pousada.
“Procuramos receber as pessoas da melhor forma possível. Muitas chegam aqui fragilizadas, pois estão com problemas, fora de casa, mas nós fazemos o que podemos para ajudar”, diz o empresário.