Cidades

SEM SAÍDA

Sem investir em UTIs, planos ocupam vagas da rede pública

As maiores operadoras privadas não mantém nenhuma vaga própria de leito intensivo neonatal e pediátrico

Planos de saúde mantém apenas dez leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal em Campo Grande e outros três em Dourados. Com a pouca quantidade disponível, quem paga pelo serviço particular, também acaba dependendo do Sistema Único de Saúde (SUS) para cuidar dos recém-nascidos. Assim, na rede pública são 50 leitos, que nem sempre são suficientes para atender a demanda gratuita e privada.

Quando se tratam de crianças que têm entre 28 dias de vida até 12 anos de idade, a situação é ainda pior, porque os planos não mantém nenhuma vaga de UTI para esse público no Estado, recaindo a demanda, novamente, sobre a rede pública, que disponibiliza 33 leitos pediátricos. Unimed e Caixa de Assistência dos Servidores do Estado do Mato Grosso do Sul (Cassems) não têm nenhum leito próprio de UTI neonatal ou pediátrica.

“Já aconteceu de todas as vagas estarem ocupadas e o recém-nascido prematuro que precisa do leito ter que ficar aguardando em Pronto Socorro, quando vem do interior, ou no hospital onde nasceu quando já está em Campo Grande. É difícil, pois esses bebês têm estado de saúde delicado e precisam de cuidados específicos, aparelhos e ficar em assim não é ideal, é grave”, explica a médica intensivista neonatal Silvia Nakashita, responsável pela UTI Neonatal do Hospital Universitário (Humap-UFMS). 

A especialista detalha ainda que “as vagas da Capital atendem todo o Estado. Como resolver isso eu não sei, talvez com acompanhamento melhor das gestantes no pré-natal para evitar nascimentos antes do tempo”, pontua.

A falta de vagas para atender pacientes de planos de saúde e particulares também é um problem grave, diz a médica. “Os hospitais particulares não têm vagas, e os pacientes que precisam acabam vindo para o SUS, onde o atendimento acontece de qualquer forma, e é até melhor nesses casos”.

Em todo Estado, são 83 leitos públicos de UTI que atendem recém-nascidos e crianças até os 12 anos, sendo 83 em Campo Grande e 10 em Dourados. A Capital ainda conta com outros 10 leitos denominados intermediários, que atendem pacientes provenientes das Unidades de Terapia Intensiva, mas que ainda necessitam de algum grau de monitoramento contínuo.

Assim, são somente 93 leitos intensivos mantidos pelo Sistema Único de Saúde para cuidados neonatais e pediátricos para os 79 municípios de Mato Grosso do Sul, o que corresponde a 1,17 leito por cidade. Dados de Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geogafia e Estatística (IBGE), indicam cerca de 50 mil nascimentos por ano no Estado, isso em 2016, que é o número mais recente.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), conforme estudo realizado em maio deste ano, para um atendimento satisfatório e sem riscos aos recém nascidos, o ideal seriam quatro leitos de UTI para cada mil nascidos vivos. A entidade não tem o levantamento dessa estimativa referente às crianças com mais de 28 dias de vida até os 12 anos.

“É uma situação grave e delicada. Todos os leitos de UTI para recém-nascidos e crianças estão em Campo Grande e Dourados. E os da Capital quase todos são do SUS. Até quem é paciente privado, acaba indo para o público. É a mãe SUS gold”, disse o superintendente de relações institucionais da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) e ex-secretário de Estado de Saúde, Antônio Lastória.

Ele afirma ainda que não é possível estimar quantos leitos a mais seriam necessários. “Sabemos que o número está aquém, mas não saberia afirmar quantos seriam necessários”. Ainda assim, o superintendente reforça que os planos privados deveriam investir nesses leitos, e permitir que o SUS atendesse somente a rede pública.

“É um manejo completamente diferente do que temos para UTIs adulto. Quando você tem uma crise num fim de semana com essas UTIs lotadas, a Justiça determina que a gente compre um leito particular e a gente compra. Mas nos casos de UTIs neo e pediátricas, não tem como fazer isso”, sustentou. Lastória pondera ainda que, todas as vezes que o Ministério Público Estadual (MPE) cobra a Prefeitura de Campo Grande quanto ao aumento na quantidade de vagas em UTIs, “o que eu digo é que eles (MP) precisam cobrar os planos de saúde, porque são eles que não tem leitos. Tem que ir para cima dos planos”, considera.

O superinendente lembra que “em Campo Grande, um hospital particular tinha leitos de UTI para crianças, mas fechou há uns dois anos. Agora só tem seis na Maternidade (Cândido Mariano), e quanto lota, o que ocorre sempre, os pacientes vão para o SUS de qualquer jeito. A quantidade de leitos para adulto é insuficiente, mas no caso de neo e pediátrico é horrível”, disse.

Os dois maiores planos de saúde que atuam no Estado, Unimed e Cassems, foram procurados para explicar a situação. A Unimed Campo Grande informou que “como o serviço de pediatria do Hospital Unimed Campo Grande foi aberto no início do mês de agosto, com o Pronto Atendimento, e ainda não oferece leitos de UTI pediátrico e neonatal, contratamos leitos da Santa Casa e Maternidade Cândido Mariano, que são prestadores credenciados”.

A cooperativa disse ainda que “além desses leitos no município, a Unimed Campo Grande possui, em sua rede nacional, leitos que podem ser utilizados quando, por alguma razão, não há leitos disponíveis nos locais”. A Cassems não respondeu aos questionamentos até o fechamento deste material.

 

 

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