Cidades

CG 119 ANOS - CENTRO

O coração de Campo Grande: <br>comércio que pulsa

Com prédios centenários e lojas que ultrapassam gerações, o comércio é a fusão entre passado e futuro

Diariamente, são cerca de 10,5 mil pessoas transitando nas ruas da região central. Por mês, em torno de 315 mil campo-grandenses desembarcam e exploram as ruas movimentadas, cheias de vendedores ofertando preços e promoções “imperdíveis”. Os dados da Federação do Comércio de Mato Grosso do Sul (Fecomércio) evidenciam que, por mais que enfrente uma crise de vendas e identidade, o centro de Campo Grande permanece como uma das regiões mais importantes e vitais para a Capital.

“Eu faço compras, pago contas, resolvo tudo aqui de uma vez”, diz a atendente Mayara dos Santos, de 29 anos, que andava apressada pela Avenida 14 de Julho. “Eu não gosto de shopping. Eu prefiro o agito, o barulho da rua”, reforça. “O centro é prático e movimentado. Sinceramente, eu prefiro vir aqui do que em algum outro lugar”, complementa Maria das Dores, de 46 anos, outra consumidora que passava cheia de sacolas pela região.

Infelizmente para os lojistas do centro, pessoas como Mayara e Maria estão se tornando, cada vez mais, raras. Concorrência com os shoppings centers, com as lojas de bairro e com as vendas pela internet, além da dificuldade para encontrar estacionamento e alto preço de aluguel, são alguns dos motivos que prejudicam a popularidade de avenidas que já foram consideradas o “coração” de Campo Grande. Nos últimos meses, mais de 200 imóveis fecharam as portas na região. Mesmo assim, há uma parcela grande de comerciantes que persistem e mantêm as esperanças por dias melhores. Para eles, a vivência no centro é insubstituível, especialmente pelos relacionamentos desenvolvidos ao longo de tantos anos de trabalho e companheirismo.

“Nunca consideramos [mudar para o shopping]. Não consigo nem imaginar”, afirma a empresária Ana Sílvia Oshiro Kawata, de 49 anos, que cuida de uma tradicional loja de artigos para festas. “Minha mãe abriu a loja em 1978. Antes, ficava perto da Santa Casa, mas, em 1988, mudamos para esse prédio [na Rua Sete de Setembro]”.

Kawata cresceu nas ruas do centro, desde criança até assumir o comércio da família, 
e não esconde o laço afetivo que criou com o lugar. Mesmo com a queda de movimento, não pensa em buscar outro ponto. Nos últimos anos, reduziu o quadro de funcionários de 20 para 10 empregados. A crise, principalmente, afetou as vendas, mas não conseguiu mudar um sentimento que só campo-grandenses podem entender: “Aqui, a gente se sente em casa. Existe calor humano”, resume.

OUTROS TEMPOS

Há 23 anos trabalhando na livraria do tio, na 14 de Julho, a gerente Simone Rezende, de 41 anos, lembra dos dias distantes do centro, quando as vias eram ainda mais lotadas e disputadas pelos consumidores. Apesar da queda de movimento, ela diz que pouca coisa realmente mudou no lugar. “O centro sempre foi esse que você está vendo agora, sempre foi assim. Até na aparência, pouca coisa realmente está diferente hoje”, opina. “Eu acho que faltam atrativos interessantes, como existem agora nos shoppings. 

Apresentações, espetáculos, música, feiras... Eu tenho esperança de que, com a reforma inaugurada, aconteçam mais atividades, para atrair as pessoas de volta”.

As obras do Reviva Campo Grande, que vão dar cara nova para a 14 de Julho e devem ser finalizadas apenas no fim do ano que vem, são a grande esperança dos comerciantes que amam trabalhar na região e não querem mudar de endereço ou fechar suas portas.

Mesmo com todas as dificuldades, quem conhece o centro há décadas acredita que a crise é um momento passageiro e que a região vai se reerguer, conforme já fez tantas outras vezes, como quando os primeiros shoppings surgiram. “Vai melhorar e, enquanto isso, a gente espera, com essa obra. Aqui é como se fosse minha casa, e estão reformando o quintal. Atrapalha sim, gera transtorno, mas o resultado final vai compensar”, aposta a lojista Kawata.

CENTRO
Composto por 13 bairros, a região central conta com 71 mil habitantes, conforme dados do Perfil Socioeconômico de Campo Grande. Foi a única região a perder habitantes nos últimos dez anos.

CURIOSIDADE:
O bairro Amambaí é o mais antigo de Campo Grande. Inicialmente, o corpo do fundador de Campo Grande foi sepultado em cemitério que existia na região, onde hoje é a Casa da Indústria. Tempos depois, seus ossos foram transferidos para o jazigo da família, no Cemitério Santo Antônio.

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