A terra cor laranja-escura que há duas décadas formava as ruas da Vila Dr. Albuquerque hoje resiste em cerca de 100 metros quadrados do bairro, na região do Bandeira, sul de Campo Grande. Lá, o futebol serve de pretexto para reunir novos e velhos moradores em torno das linhas desenhadas com cal. Batizado irônica e pretensiosamente de “Arena Albuquerque”, o local recebe jogos de campeonato amador aos fins de semana.
A bola rola no terrão do bairro desde 2009. São realizados dois campeonatos por ano e o responsável pela organização é o mestre de obras Adão Gregório, 49 anos. A edição em andamento é a de número 19, que distribuirá premiação total de aproximadamente R$ 8 mil. São 20 times na disputa.
Gregório chegou à região da Vila Dr. Albuquerque em 1978, ainda criança, para morar com os tios. Frequentou a Escola Municipal Flora Guimarães Rosa Pires, situada em um extremo da Rua Ramalho Ortigão – escritor português. O campo de futebol fica na outra ponta, quando a via encontra a Rua Júlio Verne – também escritor, mas francês e mais conhecido, autor de “Viagem ao Centro da Terra”.
A Ramalho Ortigão, por onde passa a linha de ônibus Dr. Albuquerque/Tropical, era a única rua pavimentada nas lembranças do mestre de obra. “O asfalto ia só até a Coopharadio. Hoje, de terra só sobrou o campo mesmo”, brinca.
O impulso para o desenvolvimento mais veloz da área se deu com a chegada da nova rodoviária de Campo Grande, localizada a menos de cinco minutos da Vila Dr. Albuquerque. Inaugurado em 2009, o terminal contribuiu para movimentar o comércio e valorizar imóveis dos bairros no entorno.
A esteira do progresso trouxe asfalto, mas se esqueceu do lazer. Não há praças ou parques no bairro. O campeonato amador logo se tornou a única diversão de quem vive nas proximidades.
“Vem muita gente falar para mim: poxa, Adão, ainda bem que você faz isso [organiza o campeonato], porque aqui não tem muita coisa para fazer. Queira ou não, a gente acaba movimentando o bairro. Na última final, consegui trazer a banda da Polícia Militar para cantar o hino, tivemos apresentações de escolinhas”, relata.
Gregório já se mobiliza para dar mais uma festa na decisão do torneio. O mestre de obras quer interditar a rua e colocar pulas-pulas para a criançada.
MAIOR CAMPEÃO
A Arena Albuquerque fica em um terreno particular. Gregório e outras lideranças do bairro lutam para tornar o espaço público e permanente da comunidade.
O sonho é um campo cercado, até para diminuir o trabalho dos gandulas. Um chute descalibrado na direção do gol da Rua Antoniêta Borges pode mandar a bola direto para o quintal de algum vizinho. Se o jogador erra por muito a meta da Rua Júlio Verne, é capaz de a pelota acertar um padre na Casa de Formação São Vicente Pallotti.
Hoje apenas na organização dos certames, Adão Gregório também já deu seus chutões na Arena Albuquerque. Não só isso. O time que ele ajudou a fundar é o maior campeão do bairro, o Clube Atlético Santo Eugênio, o Case, dono de sete títulos da Vila Dr. Albuquerque. O time leva o nome de um bairro da mesma região, porém, já não disputa o torneio. “Para evitar polêmica. Para não dizerem que eu estou favorecendo meu clube”, justifica. Gregório não gosta de deixar ponto sem nó, para não dar margem a críticas.