Reviravolta resultou no desmembramento do julgamento de pessoas ligadas ao grupo de extermínio que fez pelo menos 13 vítimas na região do Danúbio Azul, em Campo Grande. Diante do júri nesta sexta-feira (o segundo deles), Jean Marlon Dias Domingues, de 20 anos, negou que tenha participado do assassinato do menino Lessandro Valdonado de Souza, de 13, diferente das versões apresentadas pelos supostos comparsas Luiz Alves Martins Filho, o Nando, chefe dos executores, e Talita Regina de Souza, acusada de ter instigado o crime aos demais.
Diante da divergência dos discursos, o juiz Aluízio Pereira dos Santos, da 2ª Vara do Tribunal do Júri, desmembrou o julgamento, decidindo que Jean ainda será julgado nesta sexta-feira, mas Nando voltará ao banco dos réus em outra ocasião. Talita, por sua vez, recorreu por ausência de provas, também baseada na inconsistência dos depoimentos, e vai a júri somente depois da manifestação da justiça sobre o recurso. "Não participei. Fiquei em estado de choque, porque eu conhecia o menino desde pequeno", disse Jean.
O desmembramento foi requisitado porque o mesmo defensor que atendida Jean também defendia Nando. Como os depoimentos de ambos eram divergentes, pois o rapaz dizia que não havia participado e Nando alegava que sim, o defensor se julgou incapaz de atender ambos. Ele sugeriu continuar com o julgamento de Jean e pediu que a justiça remarcasse o júri com Nando, para que este pudesse ter novo advogado ou defensor. Ou seja, Nando não poderia participar sem uma defesa constituída. Não foi divulgada a nova data.
O JÚRI
Estava no tribunal apenas Jean. Nando está preso na Penitenciária Estadual de Dourados (PED) e se recusa a tratar tuberculose, motivo pelo qual oferecia risco à saúde dos jurados. Por isso, iniciou a sessão por videoconferência. Talita recorreu das acusações dizendo que, inclusive, jamais teria mantido qualquer tipo de intimidade com Nando e Jean. Conforme denúncia do Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul, o crime ocorreu no dia 1° de agosto de 2016, em cemitério clandestino feito por Nando no Jardim Veraneio.
Na ocasião, o trio atraiu Lessandro para o local onde o estrangulou com uma corda até a morte. A vítima foi enterrada ali mesmo em uma cova. Os relatos de Nando e Talita apontam que os três estiveram no local, embora Jean negue. Ele sustentou que ficou sabendo do crime aproximadamente 10 dias depois, quando o bairro todo já espalhava boatos sobre o desaparecimento de Lessandro. "Ele me falou que tinha dado um sumiço no menino junto com a Talita. Mas eu não estava com eles, não participei disso", se justificou ao júri.
O homicídio teria sido planejado por Talita, como forma de calar Lessandro. Talita era namorada do irmão da vítima e teria sido flagrada pelo garoto cometendo traição com um rapaz identificado como Vaquinha. Como Lessandro cogitou divulgar o caso, ela decidiu matá-lo e recorreu a Nando. Ela, inclusive, era responsável por arranjar encontros sexuais para Nando, o que fez ganhar a confiança do "chefe". Diante da situação, levaram o garoto para o Jardim Veraneio onde o mataram e enterram com outras vítimas do grupo de extermínio.
CONDENAÇÃO
Em junho, Nando foi condenado a 18 anos e três meses de reclusão em regime fechado, por homicídio qualificado e ocultação de cadáver de um homem identificado apenas como Café ou Neguinho. O comparsa de Nando, Jean Marlon Dias Domingues, teve condenação de 15 anos e seis meses de reclusão pelos mesmos crimes.
Pela denúncia, em abril de 2016, em dia e horário indeterminados, próximo ao local denominado lixão (aterro), situado na Rua dos Astronautas, Jardim Veraneio, na Capital, eles mataram Café usando corda, chave de fenda e uma faca e enterraram o corpo em uma espécie de cemitério clandestino, onde outras vítimas haviam sido sepultadas.