Sobrinho do prefeito de Coronel Sapucaia, Rudy Paetzol (MDB), Valmir de Campos, 48 anos, foi sequestrado e executadoi na última segunda-feira (20) pelo grupo paramilitar EPP (Exército do Povo Paraguaio, na tradução livre), facção que atua no norte do país vizinho.
Segundo informações do jornal 'ABC Color', o brasileiro estava em uma fazenda em San Pedro, no Paraguai, extraindo madeira quando foi cercado por um grupo armado do EPP formado por até sete pessoas, segundo testemunhas, e sequestrado junto de outros quatro trabalhadores. Equipamentos usados por eles, como caminhões e tratores, foram incendiados pelo bando.
Em comunicado, a polícia paraguaia informou que Campos foi executado logo após o seu sequestro, a tiros, conforme levantamento com peões da região. Seu corpo ainda não foi localizado.
Segundo o Lá Nacion, outro jornal paraguaio, agentes da polícia federal local estão desde a madrugada desta terça-feira (20) na fazenda para verificar a área, que é considerada uma influência do EPP, uma vez que se teme que uma bomba tenha sido deixada no local.
A mesma fazenda já fora alvo do EPP anteriormente em 2015, quando duas pessoas foram mortas e tiveram seus corpos esquartejados pelos guerrilheiros.
Valmir de Campos (ao centro) em foto divulgada pela imprensa paraguaia: trabalho com extração de madeira no país vizinho, em área de influência da guerrilhaO EPP
Com grande influência no norte e leste do Paraguai, o Exército do Povo Paraguaio (EPP) foi formalmente fundado em 2008, mas o movimento rebelde por trás da guerrilha marca presença na região por quase 20 anos.
Relativamente novo no universo das lutas armadas, o grupo está tomando o espaço das autoridades locais e provocando rumores de que o próprio governo localage como cúmplice do grupo.
Habilidosos com explosivos e equipados com armas automáticas, os rebeldes do EPP são regularmente ligados a grupos armados estrangeiros, como por exemplo, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Sua ideologia é uma mistura das doutrinas marxista, leninista e guevarista, com uma característica local muito particular: o grupo reverencia o ditador que controlou o país após sua independência, José Gaspar Rodríguez de Francia. O político selou as fronteiras do Paraguai ao comércio exterior para impulsionar o desenvolvimento interno e executou e encarcerou centenas de seus oponentes.
O EPP se financia por meio da cobrança das chamadas 'taxas revolucionárias' de donos de propriedades agrícolas locais, contou um fazendeiro da cidade de Horqueta – um dos locais de mais força do grupo – ao jornal britânico 'The Guardian'.
“Eles afirmam ser como Robin Hood, roubando dos ricos para dar aos pobres, mas nós somos pessoas que trabalham duro também”, contou o homem que pediu para ser mantido em anonimato após ter sido advertido pelas guerrilhas para não falar com a imprensa, ao periódico britânico, em ampla reportagem publicada sobre a facção em 2012.

Mesmo com o envio de milhares de soldados e tendo declarado estado de emergência na região, o governo paraguaio parece não conseguir conter o grupo, que opera em algumas centenas de quilômetros quadrados de extensas florestas e propriedades agrícolas que só crescem.
Ao todo, o EPP e seus fundadores já mataram mais de 50 pessoas – 25 só nos últimos dois anos – das quais 30 eram civis e 21 policiais ou militares. Em março, assassinaram três fazendeiros paraguaios desarmados, e espalharam panfletos proibindo o cultivo de 'soja, milho, ou qualquer outro produto que exija pesticidas' pela propriedade.
Contudo, a manutenção da força do grupo tem provocado dúvidas sobre o real interesse do estado em combater o EPP, e sobre os benefícios em não acabar com a organização. A ideia de que a guerrilha é um inimigo conveniente e controlável do governo é defendida por Cristóbal Olazar, antigo secretário geral do Movimento Pátria Livre, cujo braço armado se dividiu para formar o EPP, e que agora é informante da polícia. “A corrupção é muito forte entre as organizações de segurança, e não é vantajoso para eles acabar com este grupo, porque isso também acabaria com o seu apoio econômico”, afirmou ao Guardian.
Ele alega também que a polícia e a Força-Tarefa Conjunta (FTC) – a força organizada pelo presidente Horacio Cartes para combater os terroristas – são cúmplices no esquema de tráfico de drogas que acredita ser organizado pelo EPP. No final de junho, a Câmera dos Deputados criou uma comissão para investigar as acusações de corrupção na FTC. O clientelismo, cultivado por décadas de regime de partido único e que resultou em funcionários corruptos, que desviam grandes quantidades de dinheiro público, também desmotiva a população a denunciar as ações do grupo terroristas – que fica cada vez mais perigoso.
