A subtração do cadáver da dona de casa Rosilei Potronieli, 37 anos, na madrugada de terça-feira (12), horas depois de ser enterrada, em cemitério na cidade de Dois Irmãos do Buriti, distante 120 quilômetros de Campo Grande, é apenas um exemplo das situações extremas em que os casos de violência contra a mulher podem chegar. De acordo com a psicóloga da Casa da Mulher Brasileira, Tatiana Samper, não é possível encontrar explicações para as motivações destes crimes apenas no âmbito psicológico, mas é preciso considerar os aspectos culturais.
Na sexta-feira (15), em coletiva de imprensa, a Polícia Civil revelou que a subtração foi arquitetada pelo ex-policial militar José Gomes Rodrigues, 57 anos. Ex-namorado da vítima, ele contou com a ajuda de um primo, Edson Maciel Gomes, 50 anos, responsável por fazer as revelações à polícia depois de detido. A justificativa dada pelos autores para a ação foi o cumprimento de um “pacto” entre a vítima e o ex-companheiro, anos antes.
De acordo com a psicóloga, há duas perspectivas possíveis para explicar crimes como este: a cultura machista da sociedade, que leva os homens a acharem que têm posse sobre a mulher; e a psicológica, quando eles não aceitam uma separação e não têm recursos psíquicos para lidar com a rejeição. “Existe uma obsessão, como neste caso, mas isso não é uma exclusividade de pessoas com problemas psicológicos, porque o sentimento da posse é reforçado socialmente”.
Tatiana afirma que existem níveis de violência. Ela cita como exemplos desde de companheiros que querem determinar as roupas com que as mulheres devem se vestir até os próprios casos de feminicídio, considerados a expressão máxima de agressão contra a mulher. A subtração do cadáver ultrapassa até mesmo esse grau de violência.
CICLO DE VIOLÊNCIA
Por trás de feminicídio e do vilipêndio ao cadáver de uma mulher costuma haver uma vida de agressões, conhecida como de ciclo de violência, por especialista no assunto. As investigações apontaram que o caso de Rosilei é uma dessas histórias.
Conforme a delegada Nelly Macedo, as investigações mostraram uma relação conturbada entre Rosilei e José durante os oito anos em que estiveram juntos. O fato é comprovado por boletins de ocorrência e até processos judiciais regis
trados pela dona de casa contra o ex. São casos de ameaças, violência doméstica e até estupro.
NOVO SEPULTAMENTO
A revolta deu lugar à angustia entre os familiares da dona de Rosilei Potronieli, com a resolução do mistério envolvendo a subtração de seu corpo do cemitério. Irmãos e mãe da vítima não acreditam na versão de “pacto” sustentada pelo autor do crime e planejam novo sepultamento com medidas de segurança.
Conforme os familiares ouvidos pela reportagem do Correio do Estado, a versão sobre o pacto não passa de uma mentira e nunca foi mencionada pela dona de casa. Agora, a família espera por justiça e a oportunidade de sepultar o corpo de Rosieli mais uma vez.
SUSPEITOS SOLTOS
O ex-tenente da Polícia Militar José Gomes Rodrigues, 57 anos, acusado de subtrair o corpo da dona de casa Rosilei Potronieli, 37 anos, de cemitério em Dois Irmãos do Buriti ainda está solto. Conforme apurado pela reportagem do Correio do Estado, o autor do crime seria esquizofrênico e foi excluído do quadro da Polícia Militar, em 1998. O motivo da punição não foi revelado.
José reconheceu que teve um relacionamento com a dona de casa. No entanto, nega ser o autor da
subtração do cadáver.
Cúmplice no crime, Edson Maciel Gomes, 50 anos, revelou à polícia que a intenção do primo era de se manter diariamente próximo da vítima.
Isto porque, ao lado da nova cova, aberta em uma chácara da Capital, ele teria dito várias vezes: “A gente tinha feito esse pacto. Eu cumpri. Agora você está perto de mim”.
De acordo com a Polícia Civil, após ser levado para Campo Grande, o corpo de Rosilene foi lavado, vestido e novamente enterrado.
José ainda cobriu o local com folhas para despistar. Velas foram acesas e colocadas próximas ao local em que o policial aposentado começou a ir para “conversar” com a vítima.
A nova cova teria sido forrada com um tapete e um travesseiro foi colocado no local.
O crime de vilipêndio de cadáver está previsto no art. 212 e prevê de um a três anos de prisão, além de multa. (TJ e BA).