Todos os anos, cerca de 280 mil pessoas se matriculam na graduação em pedagogia no Brasil. Em 2019, uma delas é Maria das Neves, uma babá de 55 anos que só começou a estudar aos 45 e, no mês passado, finalmente conquistou o sonho de concluir o ensino médio. Agora, ela traça um novo plano, que ainda não está totalmente definido: ou trabalhará como professora do ensino infantil, ou com o ensino de jovens e adultos (EJA), onde poderá servir de inspiração.
"Eu tinha um sonho de entrar na escola e estudar, mas chegar à faculdade era um sonho grande demais pra mim. Eu achava que era impossível", disse Maria das Neves ao G1, dias antes de começar o curso de pedagogia.
No caso de Maria das Neves, que em 2019 virou caloura universitária do curso de pedagogia na FMU, em São Paulo, a trajetória até o ingresso no ensino superior levou dez anos e passou por diversos percalços, incluindo quatro tentativas de conseguir o certificado por meio do Enem. No entanto, ela contou com dois recursos que, segundo os dados mais recentes, estão cada vez mais escassos: tempo livre para estudar e um curso para jovens e adultos perto de casa ou do trabalho.
'Adultos sem diploma'
A história de Maria integra a série de reportagens "Adultos sem diploma", na qual o G1 apresenta dados exclusivos sobre o Exame Nacional para Certificação de Competência de Jovens e Adultos (Encceja) que mostram que, dois anos depois que o governo federal decidiu retomar a aplicação do Encceja do ensino médio, em vez de usar o Enem para esse fim, a taxa de candidatos que fizeram todas as provas na mesma edição e conseguiram nota suficiente em todas elas para conseguir a certificação subiu de 14% para 36%.
As reportagens também analisaram os microdados históricos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e do Censo da Educação Básica, e mostram que, se todos os 5,8 milhões de participantes do Enem 2016 necessitassem da nota mínima exigida para conseguirem o diploma do ensino médio, 69,8% teriam sido "reprovados".
Além disso, embora o total de escolas tenha crescido 12% entre 2009 e 2018, o número de escolas que oferecem EJA do ensino fundamental caiu 34%.
Babá de dia, estudante à noite
No Centro-Oeste, a desterrense continuou trabalhando como babá, mas, apesar de alfabetizada por conta própria, não teve acesso a uma escola. Isso só aconteceu quando ela se mudou para São Paulo, na década de 1990, e arrumou um emprego como babá em uma família no Itaim Bibi, um bairro nobre na Zona Sul da Capital paulista.
Uma das tarefas do trabalho de Neves era levar e buscar as duas crianças das quais cuida no Colégio Pueri Domus todos os dias. Lá, ela descobriu a existência do Projeto Aprender, uma iniciativa criada em setembro de 2004 por alunos da escola, depois de uma pesquisa feita no entorno.
"Eles viram que existiam funcionários terceirizados da escola, da limpeza, da segurança, do restaurante, que não eram alfabetizados. Isso mexeu muito com aquele grupo, então eles começaram a estudar o assunto", explica o professor Giuliano Rossini, coordenador de projetos sociais do Pueri Domus.
Em 8 de janeiro deste ano, ela recebeu o certificado emitido pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, o estado com o maior número de candidatos do Encceja.
Em fevereiro, Neves começou a faculdade de pedagogia na FMU. O início acabou sendo adiado, já que a turma em que ela se inscreveu, no campus Itaim Bibi, perto de casa, foi fechada após ela efetuar a matrícula. Sem alternativa, ela decidiu que vai se deslocar à noite até o campus Liberdade da faculdade, no Centro de São Paulo, para cursar a carreira. E, enquanto isso, se preparar mais uma vez para fazer o Enem. Dessa vez, o objetivo é conseguir uma bolsa de estudos do Prouni.