A startup brasileira que criou o aplicativo de monitoramento de contatos para avaliar riscos da Covid-19 perdeu a licitação cujo objetivo era contratar o seu próprio produto. O Governo confirmou ao Correio do Estado que a pernambucana Mamba Labs ficou em segundo lugar na disputa. O nome da vencedora não foi divulgado.
O resultado dessa situação é que o processo corre há dois meses sem desfecho. Em pleno pico da pandemia, o programa poderia ajudar a identificar e testar mais rapidamente casos suspeitos da infecção pelo novo coronavírus.
Quem indicou a plataforma para o Estado foi a Fundação Oswaldo Cruz. Técnicos sul-mato-grossenses chegaram a fazer uma série de reuniões com os desenvolvedores para que ajustes foram feitos e novas funcionalidades incrementadas, como por exemplo a liberação de vouchers para o drive-thru.
Mato Grosso do Sul poderia ter usado o decreto de calamidade para simplificar o processo e agilizar a contratação, mas o secretário de Saúde, Geraldo Resende, disse que não empregaria a inexigibilidade em nome da transparência.
O próprio edital foi elaborado contendo as especificações técnicas do Dycovid da Mamba Labs, que já funciona no nordeste.
Matheus Rodrigues de Souza Félix, CEO e fundador da startup, disse ao Correio do Estado que poderia fazer o aplicativo funcionar em Mato Grosso do Sul em 24 horas, caso recebesse aval do Governo. Diante da situação, ele segue acompanhando o processo licitatório.
A falta de informações sobre a vencedora gera incertezas e dúvidas. Não se sabe, por exemplo, se ela vai criar do zero o programa, para depois testá-lo e quanto tempo levaria todo esse processo.
“Caso vença outra solução, é importante ver se eles identificam o infectado antes da realização de testes ou exames assim como nós fazemos e se eles têm um modelo robusto de segurança, como o Dycovid, que trabalha em modelagens similares ao que a Google e Apple estão fazendo, porém com outras tecnologias além do bluetooth, como data over sound, wifi e GPS”, diz Matheus.
Em resumo: é preciso monitorar os contatos que cada cidadão teve, mas sem identifica-los. Não faz parte dos objetivos fiscalizar a vida de ninguém. O programa desenvolvido no nordeste foi acompanhado e validado pelo Ministério Público pernambucano.
“Nós somos a única empresa da América Latina fazendo contact tracing. Se o aplicativo contratado não tiver essas características, ou se escolheram algo que não funciona, que não está sendo utilizado no mundo ou que coloca em risco a privacidade da população, será complicado”, disse Mateus.
A confiança no produto será fundamental, já que é preciso que uma boa parcela da população baixe para que ele funcione.
Basicamente, quando uma pessoa testar positivo, o programa automaticamente “volta no tempo” e manda um alerta para todos os que tiveram contato com o paciente infectado. O nível do aviso depende da distância e do tempo em que as duas pessoas permaneceram juntas.
Além disso, é possível saber se o lugar onde o cidadão está tem alta, média ou baixa probabilidade de conter coronavírus espalhados pelo ambiente, tudo seguindo a mesma lógica.
Quando a ideia foi ventilada, a Fiocruz enxergava como fundamental a adoção do Dycovid para a retomada das aulas, especialmente na rede pública. Agora não se sabe quando a população terá acesso à plataforma.
Segundo informações da Secretaria de Saúde, uma comissão está analisando o processo licitatório com três representantes: uma pessoa da área solicitante, outra da Tecnologia da Informação e outra da Superintendência de Gestão da Informação.