Cidades

ENSINO

O que o resultado do Saeb revelou sobre a educação pública em Mato Grosso do Sul?

No Estado, 14% dos concluintes do ensino médio não tinham os conhecimentos mínimos

Ricardo Campos Jr

09/11/2020 - 06h00

As notas do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) saíram na última sexta-feira (6). Em resumo, estudantes fazem uma prova para medir o conhecimento em português e matemática. O resultado é comparado com a lista de conteúdos que, em tese, eles deveriam saber.

Uma escala organiza os graus de proficiência nessas duas disciplinas. O objetivo do indicador é auxiliar os gestores a formular políticas públicas para melhorar a qualidade do ensino. 

Em Mato Grosso do Sul, o teste revelou que 14,94% dos alunos que terminaram o terceiro ano do ensino médio em 2019 na rede pública não atingiram sequer o nível um em língua portuguesa, o mínimo de conhecimento esperado a quem passou mais de dez anos nos bancos escolares. Eles não sabiam, por exemplo, identificar elementos narrativos em uma história em quadrinhos ou encontrar o sentido das palavras em uma letra de música.

No teste de matemática, 15% foram incapazes de interpretar uma tabela, relacionando-a a algum texto.

Por outro lado, apesar de serem significativos os porcentuais que apontam para o revés, metade dos participantes ficou entre os níveis três e cinco em ambas as disciplinas (a escala vai até oito).

A doutora em educação Ângela Marques afirma que o Saeb reforça também o abismo de qualidade entre a educação oferecida pelo governo e a privada, já que apenas 4% dos estudantes de escolas particulares terminaram o ensino regular com nível zero em português e 3% em matemática. Além disso, a maioria atingiu entre quatro e seis nas disciplinas.

Também fazem a prova os estudantes do nono ano do ensino fundamental. em Mato Grosso do Sul, 10% dos alunos da rede estadual e 11% da municipal eram incapazes de olhar uma sequência de números decimais e apontar qual deles era o maior. 

Em Língua Portuguesa, 13% de ambas as redes de ensino público sabiam reconhecer expressões características da linguagem, ou seja, identificar elementos que ajudassem a classificar um texto entre uma crônica, uma reportagem jornalística, etc. Outros 13% não conseguiram encontrar informações explícitas em fragmentos de textos. 

Nesse nível, a maioria dos alunos também ficou entre os níveis três e cinco de proficiência em ambas as matérias.

Já no quinto ano do ensino fundamental, os resultados foram melhores para a rede pública. Apenas 1,94% dos participantes da rede estadual e 3,1% da rede municipal ficaram na escala zero. 

Ângela observa os resultados gerais e afirma que pela primeira vez o ensino médio teve algum avanço, já que desde 2009 as notas dos concluintes do ensino regular estavam estagnadas, mas ainda não é suficiente.

“Está faltando muito para chegar no nível oito. Um em cada quatro alunos do ensino fundamental não sabe escrever uma palavra de três sílabas quando é feito o ditado. Os alunos do fundamental não conseguem ler um bilhete. Realmente estamos muito abaixo do esperado”, pontua a doutora em educação.

Na opinião dela, é preciso analisar o porquê do fracasso. “O Ceará, por exemplo, sempre teve índices baixíssimos de escolaridade, mas eles mudaram a educação. O restante do país parece não estar levando a educação a sério. Nos perguntamos por que o fracasso existe. Primeiro, por falta de conexão entre o que é ensinado e a realidade do aluno. Depois, pelo desinteresse do próprio aluno, muitos têm que se preocupar em arrumar emprego para levar dinheiro para casa. Além disso, o processo de ensino-aprendizagem ainda evolve muita decoreba”, diz Ângela. 

EXEMPLO

O Ceará, citado por Ângela, é um exemplo nacional de investimentos em educação. O estado nordestino não está na frente apenas nos rankings do Ideb e Saeb, mas também no IOEB (Índice de Oportunidades da Educação Básica), que leva em conta dados como a experiência dos diretores, a formação dos professores, o tempo de jornada escolar, entre outros 

A mudança começou em 2007 com a implantação de um programa para garantir a alfabetização até o final de 2º ano do ensino fundamental, Estado e municípios são incentivados a adotarem medidas de cooperação. 

Os milhões investidos com o PAIC são distribuídos por meio de premiações em dinheiro às escolas com melhores índices. Até mesmo as prefeituras que se destacam na educação recebem mais verbas no repasse do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

Para Ângela, o estado é prova de que é possível melhorar a qualidade da educação, desde que políticas mais incisivas para garantir o aprendizado de todas as competências sejam implantadas. 

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