Sem terem os calendários letivos suspensos, muitos acadêmicos acabaram se formando no fim de 2020 com estágios e aulas práticas prejudicadas. Embora reconheçam que a pandemia afetou todos os setores e afirmem que não seja possível apontar culpados, até mesmo os conselhos de classe se preocupam com a qualidade dos novos profissionais.
Uma aluna do curso de fisioterapia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, que pediu para não ter a identidade revelada, contou ao Correio do Estado os percalços no seu último ano.
Diferentemente de outras graduações na área da saúde, que diluem os estágios ao longo dos cinco anos, os futuros fisioterapeutas só vão a campo no último ano.
“No começo do ano, todos sabíamos que a pandemia iria chegar. Fomos atender na clínica da própria UFMS e em março, diante dos primeiros casos, todos os atendimentos foram suspensos”, afirmou a fisioterapeuta.
Foi implementado o telemonitoramento dos pacientes. Na opinião da ex-acadêmica, a ideia em si era boa, o problema é que os idosos atendidos tinham dificuldades em acessar as plataformas. Outros tinham internet com qualidade de conexão ruim e o sinal caía durante o atendimento.
Além disso, segundo ela, em muitos casos era difícil avaliar se o tratamento estava apresentando os resultados desejados ou se estavam fazendo justamente o oposto: prejudicando a saúde dos pacientes.
“Mesmo na parte teórica foi difícil. Os professores não eram familiarizados com o sistema AVA e tinham dificuldades em subir as atividades. Muitos esperaram até o último momento para ver se conseguiam fazer pelo menos as avaliações presenciais”, afirmou ao Correio do Estado.
Segundo ela, o retorno após as férias de julho foram marcados pela incerteza. “Ficamos até o fim de setembro sem qualquer atividade. Os coordenadores iriam decidir se nós terminaríamos o primeiro campo ou se iríamos para o segundo. E venceu essa última opção”, comenta.
Foi então que os acadêmicos do grupo da personagem desta reportagem começaram a estagiar na atenção básica.
“Não tinha Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para todos. Semanalmente nós íamos na clínica, pegávamos e repartíamos o que havia disponível”, conta.
Segundo ela, houve grupos que não conseguiram se formar porque um dos territórios ficou completamente prejudicado. Essas pessoas chegaram a passar para programas de residência da própria UFMS, mas não puderam se matricular porque ainda não haviam “se formado”.
ALERTA
O presidente do Conselho Regional de Fisioterapia da 13
ª Região, Renato Silva Nacer, a falta de estágio não impede o profissional formado de trabalhar, desde que ele tenha o registro no órgão.
Ele afirma ainda que sabe que muitas universidades não tiveram escolha, mas ainda assim, a qualidade dos profissionais formados durante a pandemia preocupa.
O conselho, segundo Nacer, tenta se aproximar desses fisioterapeutas oferecendo cursos, palestras e outras capacitações.
“Junto com essas ações, vamos trabalhar para verificar as lacunas deixadas por essa pandemia, por essa formação que talvez não tenha sido da forma como imaginávamos”.
SAÚDE
O Conselho Regional de Enfermagem (Coren) também compartilha dessa mesma preocupação, uma vez que isso reflete na qualidade da assistência oferecida à população, afirmou a enfermeira mestre em doenças infecciosas e parasitárias Vânia Paula Stolte, coordenadora da Câmara Técnica de Ensino, Pesquisa e Extensãodo Conselho.
Para ela, suspender as atividades e retomá-las de modo que todos os estágios pudessem ser cumpridos não seria a atitude ideal.
Contudo, existem formas de contornar o problema, aproveitando o momento para adquirir habilidades e competências.
Uma delas é o Programa Brasil Conta Comigo, em que os estudantes do último ano (enfermagem, fisioterapia e farmácia ou do 5º e 6º de medicina) podem atuar, mediante cadastro prévio, em ações de combate à Covid-19 com carga horária que pode chegar a 40 horas semanais.
“É importante destacar que estamos vivendo um momento onde ficou evidente a necessidade de profissionais de saúde no mercado de trabalho”.
O próprio Conselho disponibilizou, em 2020, um curso para qualificação de profissionais de enfermagem para atuar na pandemia, inclusive com temas abordando o cuidado ao paciente em unidades de terapia intensiva.
Existem também capacitações pela Universidade Aberta, como os oferecidos pelas plataformas UnaSUS e AVASUS.
“Cabe ao profissional mostrar interesse em buscar o conhecimento disponível é oferecido sem custos”, explica Vânia.
O Correio do Estado entrou em contato com a assessoria de imprensa da UFMS para saber como foram realizados e como serão os estágios este ano. Até a publicação desta reportagem não houve retorno.