Neste ano, o número de ocorrências registradas por mulheres que foram agredidas chegou a 1.438 em Campo Grande, representando 34% dos casos registrados em Mato Grosso do Sul.
Isso significa que nos 113 primeiros dias de 2021 uma mulher foi agredida a cada duas horas na Capital.
O número, no entanto, é menor do que o registrado no mesmo período do ano passado, mas, de acordo com a delegada Bárbara Camargo Alves, as subnotificações devem ser consideradas.
Os dados são da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Conforme o banco de registros, em 2020, no mesmo período, ocorreram 1.562 casos de violência doméstica.
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Nesses casos, as vítimas tiveram coragem de fazer a denúncia e muitas delas conseguiram se afastar dos agressores.
Um exemplo é Tamita Cordeiro da Silva, que aos 18 anos se envolveu com o ex-marido, 15 anos mais velho que ela. Desde o início do relacionamento, ele a manipulava.
Hoje, com 22 anos, a jovem conta os traumas que viveu ao lado do homem que dizia amá-la.
“Ele fez eu me afastar da minha família, me fazia viver sob cárcere privado, eu só saía se fosse com ele. Eu era obrigada a trabalhar com ele em obras de construção civil. Abusos sexuais eram constantes”, conta a jovem.
Com uma filha de dois anos, ela conta que o ex-marido segurava a filha no colo enquanto batia nela, de forma que a vítima não se defendesse, para não machucar a criança.
“Depois de dois anos eu consegui arrumar um serviço, mas ele não concordou e começou a me agredir fisicamente. O que mais me doeu não foi o fato dele ter feito tudo isso comigo, mas, sim, o fato de a minha filha presenciar tudo, porque ele era tão covarde que, na hora que ia me agredir, segurava a minha filha no colo, e eu não podia fazer nada”, diz.
Em 2019, Tamita procurou a Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande e ficou no abrigo por cinco dias, mas decidiu voltar com o ex para ficar junto da filha.
“Quando fui para o abrigo, ele não me deixou levar a minha filha, e a lei diz que por ele ser pai tem o direito de ficar com a criança, então por desespero eu voltei para casa”.
Depois de viver mais um tempo com o agressor, ela encontrou o Programa Mulher Segura e, enfim, sentiu-se protegida e liberta.
“Em 2020, duas amigas do meu serviço me ofereceram ajuda, a minha mãe também fez uma boa parte, procurou o Promuse [Programa Mulher Segura] e foi aí que um grande grupo de anjos da guarda apareceram na minha vida. Foi quando a sargento Gisele e a equipe dela me estenderam a mão e me ajudaram a sair daquela situação”.
Mesmo depois de sair de casa, o ex-marido continuou indo atrás dela, mas com o auxílio do Promuse ela se manteve segura.
“O meu ex-marido teve que usar tornozeleira. Mas graças a Deus não aconteceu nada pior com a gente. Eu sempre falo que só não aconteceu nada pior porque a equipe do Promuse sempre esteve de prontidão para nos ajudar quando a gente precisava”, conclui Tamita.
FEMINICÍDIO
Ano passado foi o mais fatal para as campo-grandenses desde a criação da lei que tipificou o feminicídio, em 2015. De acordo com a Sejusp, 39 mulheres foram mortas em 2020 – o número é o maior dos últimos cinco anos.
A filha de Roberta (nome fictício, pois a fonte preferiu não se identificar) foi uma das vítimas que entrou para a triste estatística. Em abril do ano passado, a jovem foi morta pelo ex-companheiro, que não aceitou o fim do relacionamento. “Já fazia dois anos que ela não queria mais ele. No último Ano-Novo em que ela estava viva, eles foram para a praia para tentar resgatar o casamento. Na noite de Ano-Novo ela me ligou chorando e falou que ele estuprou ela e ainda a deixou trancada em casa, enquanto foi para a festa sozinho”, conta.
Roberta conta que a filha conheceu o ex-marido quando ainda tinha 13 anos, e ele, 18 anos. Na época ainda tentou ajuda com o Conselho Tutelar, mas afirma que foi em vão. “Eu procurei a delegacia, o Conselho Tutelar, mas não consegui resultado. Eu fico com muita raiva só de lembrar quando a conselheira disse que não poderia fazer nada porque era perda de tempo”.
A jovem foi mais uma a ter o sonho interrompido. Ela fazia curso para ser esteticista e, segundo a mãe, tinha jeito para a profissão.
“O sonho dela era concluir a faculdade, porque ela demorou para voltar aos estudos. A pessoa [ex-companheiro] colocava na cabeça dela que estudo não servia para nada, que não tinha que estudar, ele era contra ela estudar. Então, quando ela tomou a decisão, ela falou que ia estudar e realizar o sonho de ser esteticista. Desde pequena ela tinha o dom de fazer massagem, por mais que eu chegasse estressada do trabalho, ela fazia massagem no meu pé”, lembra.
Emocionada, a mãe fala da filha com carinho. “Eu queria ser corajosa como ela, porque eu sinto que não estou sendo. Minha filha não tinha medo de nada, e a força que ela tinha para dar continuidade à vida mesmo depois das agressões é o que eu não estou conseguindo”.
“A falta dela é muito dolorosa para mim. Está sendo muito difícil, ainda não dá para acreditar que estou sem ela”, conclui.
De acordo com a defensora pública e coordenadora do Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, Thais Dominato, o feminicídio é a continuação da violência contra a mulher. Ela alerta para a necessidade de atenção ao comportamento do parceiro.
“Temos que lembrar sempre que o feminicídio não é um fato isolado, ele é sempre contínuo. É o ápice da violência e pode começar com uma ameaça. Precisamos sempre alertar ao perceber o aumento e a intensidade da violência. Por não ser quase nunca um ato isolado é que dizemos que é uma morte evitável. Existem sinais que não podem ser desprezados. Nenhum tipo de violência deve ser ignorada”, explica.
“Não se deve jamais justificar a violência por ciúmes. Posse e controle não têm nada a ver com o amor, com a paixão. Isso as pessoas confundem”, completa a defensora.