A última pesquisa sobre a evolução do assoreamento no Lago do Amor deu um prazo de 15 anos para que a reserva fique totalmente seca. No entanto, mesmo com a data prevista, nenhuma ação foi colocada em prática pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) para retardar o processo de degradação do local, que também sofre com o acúmulo de lixo.
De acordo com os dados divulgados em 2019 pelo grupo de pesquisa Hidrologia, Erosão e Sedimentos (Heros), da UFMS, o Lago do Amor terá seu fim em 2036. Considerado um dos cartões-postais de Campo Grande, o reservatório também tem grande importância para a drenagem e a prevenção de enchentes da região.
“O lago está em processo de assoreamento, perdendo área, volume e profundidade ano a ano. E mantendo a situação de deposição atual, o assoreamento total será em 2036”, pontua Maria Eduarda Ferreira, uma das pesquisadoras do Heros.
Ela explica que o processo de assoreamento é natural, mas o que chama atenção no caso do Lago do Amor é a rapidez com que o acúmulo de sedimentos é observado.
“O processo de assoreamento é natural, ocorre em todos os reservatórios, no entanto, o aceleramento do assoreamento está associado ao uso, à ocupação e às intervenções nos cursos hídricos, como a redução da APP [Área de Preservação Permanente] e as obras de canalização e de recebimento da rede de drenagem”, explica Maria Eduarda.
Os dados indicam a diminuição de área e volume ao longo dos anos. A última medição, que foi realizada ainda em 2018, mostrou que o lago perdeu cerca de 37% de volume, se comparado com o primeiro levantamento realizado, em 2008.
Quanto à área, a redução observada foi de 39% do espelho-d’água, tornando evidente a formação dos bancos de areia.
Além da urbanização, um dos fatores que podem ter acelerado esse processo foi a seca significativa registrada em Mato Grosso do Sul nos últimos anos.
“Quando temos períodos intensos de seca, o solo fica mais exposto, e quando a chuva começa, o solo sente mais o impacto da chuva, sendo mais facilmente erodido pelo escoamento superficial”, esclarece Maria Eduarda.
O tempo de vida útil do lago foi calculado a partir de 2008, e os pesquisadores utilizaram regressão de equações lineares, obtidas por meio da evolução temporal de volume de área. Os dados colhidos na época apontaram o prazo de 15 anos.
“É triste ver essa situação acontecendo. Eu convivo com o lago diariamente desde de 2012, ano em que eu entrei na universidade. Agora, vendo ele desaparecer, fica um sentimento de que a cidade vai perder um lugar lindo para apreciar a natureza”, lamenta Maria Eduarda.
Após a matéria ser publicada pelo Correio do Estado, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul enviou uma nota afirmando que "desde o início da atual gestão, novembro de 2016, a UFMS tem realizado várias reuniões com Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal e Prefeitura de Campo Grande para a realização das ações visando o Projeto de Desassoreamento do Lago do Amor".
"No contexto de gestão ambiental, a UFMS, juntamente com os parceiros, está desenvolvendo dois grandes projetos estratégicos e sustentáveis em Campo Grande: (1) Projeto do Plano Desassoreamento do Lago do Amor, que envolve vários estudos e projetos base-referência; e (2) Projeto do Plano de Manejo da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) “Reserva Ecológica da UFMS".
*Matéria editada no dia 27 de maio, às 10h da manhã para acréscimo de informações.
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Urbanização
O estudo conclui que o assoreamento no Lago do Amor é resultado da urbanização sem planejamento ambiental nos lagos urbanos.
Maria Eduarda sugere a retirada do sedimento depositado no lago, mas conclui afirmando que a solução não é a mais viável.
“A maneira de amenizar o processo de assoreamento seria retirando o sedimento que está depositado no lago. Porém, isso gera outro problema, que é onde colocar todo esse sedimento, e também qual o seu nível de contaminação. Há também a questão do custo de retirar todo o resíduo depositado. Não seria uma solução viável, no meu ponto de vista”, frisa.
O trabalho conclui, portanto, que não houve consideração das práticas de conservação do solo e que a adoção de medidas técnicas preventivas, além de orientação à população quanto às práticas de preservação, pode reduzir os impactos causados pelo processo de urbanização.
Em 2019, foi feito o último levantamento batimétrico no Lago do Amor, “mas tivemos problemas nos dados e infelizmente, por causa da pandemia, nós não realizamos mais os levantamentos batimétricos do lago”.
Até o fechamento da reportagem, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, responsável pela conservação do reservatório, não se posicionou quanto às medidas de preservação do Lago do Amor.