Semelhante à campanha de vacinação contra a influenza, especialistas acreditam que a imunização contra a Covid-19 será necessária todos os anos. Para a infectologista e pesquisadora Ana Lúcia Lyrio, a dose de reforço para todos os imunizantes contra o coronavírus aprovados no País deve acontecer em razão do surgimento de novas variantes.
“Com certeza terá de ter reforço, e, provavelmente, anual. É o que acreditamos. Como vão surgindo diversas variantes, mudanças que ocorrem [na mutação do vírus], teremos de reforçar a vacina com frequência para que ela consiga combater as novas cepas”, salientou.
De acordo com o mapa genômico da Secretaria de Estado de Saúde (SES) feito em 43 cidades e atualizado na quarta-feira, 13 variantes de coronavírus já estão presentes em Mato Grosso do Sul.
A linhagem brasileira B.1.1.28 predomina em 32,4% dos casos de contágio de Covid-19 em MS. Empatadas em segundo lugar, as cepas B.1.1.33 e P.1, descoberta em Manaus (AM), estão presentes em 21,6% dos casos de coronavírus, cada.
Responsável por coordenar os estudos clínicos com a Coronavac em Mato Grosso do Sul, Lyrio citou que, apesar de a pesquisa do grupo Vebra Covid-19 indicar que quanto maior a idade, menor a eficácia da vacina sino-brasileira, por ora, não há nenhuma programação para que ocorra um reforço na imunização de quem já recebeu as duas doses do Instituto Butantan em parceria com a Sinovac.
Conforme o Correio do Estado noticiou ontem, a pesquisa mostrou que após 14 dias da segunda dose, a efetividade da Coronavac foi de 28% entre pessoas acima de 80 anos.
Questionado sobre a possibilidade da campanha de vacinação contra o coronavírus ser anual, como a campanha contra a influenza, o infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Julio Croda ponderou que são necessários mais estudos para definir até quanto tempo os imunobiológicos aprovados vão garantir imunidade para a doença.
“Pode ser que seja anual ou a cada dois anos”, salientou.
Durante depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que “tudo indica” que a vacina contra o coronavírus precisa ser aplicada em duas doses, todos os anos.
“Na minha percepção, como cientista, como médico, tudo indica que haverá necessidade de doses anuais, de reforço, como é a da vacina da gripe, dado que essa infecção tem a possibilidade de se tornar endêmica, tudo indica que isso vai acontecer. Algumas companhias já estão trabalhando na possibilidade dessa terceira dose, inclusive o Butantan, que desenvolve estudos para ter o reforço vacinal pelo menos uma vez ao ano”, disse Covas.
O diretor salientou que, esse reforço anual seria necessário para todas as vacinas em uso no País – Pfizer, Coronavac e Astrazeneca. “Tudo indica que seria essa periodicidade, a não ser que a gente tenha mudanças nas próprias vacinas”, relatou.
Covas ponderou que a necessidade de aplicações periódicas dos imunobiológicos contra a Covid-19 são necessários em razão do surgimento de novas variantes, além do tempo de duração da imunização.
CONTRAPONTO
Para o infectologista e pesquisador da Fiocruz Rivaldo Venâncio, pela falta de estudos, ainda é muito cedo para chegar em um consenso se a vacina contra a Covid-19 será administrada anualmente.
“O primeiro desafio é ampliar o porcentual de vacinados no menor espaço de tempo possível. Para isso, teríamos de ter doses em maior quantidade, e não temos perspectiva além do disponibilizado no momento”, ponderou.
De acordo com Venâncio, monitorar a real resposta da vacinação nos grupos prioritários, em especial, nos idosos, é fundamental para definir quando uma dose de reforço deverá ser aplicada ou se isso, de fato, deve ocorrer.
“Não temos respostas se devemos neste momento, ofertar uma terceira dose para quem já recebeu as outras duas ou continuar com a aplicação das vacinas na população em geral, para, só depois, pensarmos em uma ‘revacinação’”, disse.
Em relação ao abandono do uso de máscaras, o pesquisador foi enfático ao afirmar que essa ainda é uma realidade distante dos brasileiros.
Rivaldo frisou que com o perfil epidemiológico da Covid-19 no País – altas taxas de ocupação de leitos, 99% só em MS, e crescimento no número de mortes–, por ora, não há possibilidade de pensar em uma retomada de padrão de comportamento sem o uso do EPI, como era antes da pandemia.
TECNOLOGIA
Ao Correio do Estado, o Instituto Butantan relatou que uma nova fábrica está sendo montada para viabilizar, a partir de dezembro, a produção integral das primeiras doses de Coronavac sem necessidade de importação de matéria-prima. A fábrica está sendo viabilizada com recursos exclusivos da iniciativa privada, mediante doações que já superam R$ 190 milhões.
As obras devem ser concluídas em setembro e o local terá capacidade para fabricar outras 100 milhões de doses por ano. Hoje, o Butantan processa e envasa o Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), proveniente da Sinovac, parceira de desenvolvimento com sede na China.
O Instituto Butantan já entregou ao Ministério da Saúde 47,2 milhões de doses da vacina contra o novo coronavírus. O compromisso do Butantan é entregar até setembro um total de 100 milhões de doses do imunizante.
Conforme a Fiocruz, a assinatura do contrato de transferência de tecnologias da vacina Oxford/Astrazeneca está prevista para acontecer na terça-feira (1°). A previsão inicial era de que esse documento fosse assinado ainda em 2020.
Com esse acordo, a Fiocruz terá acesso ao passo a passo da farmacêutica no processo de produção IFA. Esse avanço dará autonomia para o Brasil desenvolver todas as etapas da vacina de forma nacional.
A Fundação deve pedir ainda, prorrogação na importação do IFA, enquanto a tecnologia do IFA não é disponibilizada.
O contrato atual prevê repasses até junho, o que deve possibilitar a produção de doses da Astrazeneca até julho. A previsão é de que, a vacina Astrazeneca 100% nacional seja entregue ao PNI em outubro.