Com o sistema de saúde público e privado em colapso, altos índices de internação por coronavírus e 292 pacientes à espera de leitos clínicos e de unidades de terapia intensiva (UTIs) ontem, Mato Grosso do Sul vive o pior momento já visto na pandemia.
Para o infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Julio Croda, os próximos dias de feriado prolongado serão de “tragédia”.
“Tanto o gestor de Campo Grande Marcos Trad, maior cidade do Estado, quanto o governador Reinaldo Azambuja não querem seguir a recomendação técnico-científica de lockdown estadual”, reiterou o pesquisador. Conforme Croda, apenas Dourados restringir a mobilidade urbana a serviços essenciais não resolve o problema de contágio e mortes por Covid-19 em MS.
De acordo com o secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, não existe a possibilidade de abrir mais leitos em Mato Grosso do Sul por falta de estrutura física e recursos humanos.
“O único caminho para controlar a pandemia é com a colaboração da população que ainda insiste em descumprir o que recomendamos há um ano e meio”, ressaltou.
“Sem diminuir o contato entre as pessoas, teremos uma tragédia dia após dia, com o aumento do número de pacientes que aguardam por uma vaga hospitalar”, frisou o infectologista.
Na Unidade de Pronto Atendimento Coronel Antonino, em Campo Grande, a secretária Marilza Silva, 43 anos, permanece há cinco dias lutando por uma transferência hospitalar para o marido, positivo para Covid-19 desde 25 de maio. Apreensiva, Silva afirmou ao Correio do Estado que, por possuir comorbidades, o quadro do esposo só se agrava.
“Ele tem pressão alta e já teve dois AVCs (acidente vascular cerebral). Depois de ficar quatro dias sem os remédios de hipertensão e anticoagulantes, ele voltou a ser medicado na UPA ontem. Mas ainda não conseguimos uma vaga no hospital”, disse.
Marilza relatou ainda, que já entrou com o pedido judicial junto à Defensoria Pública para garantir a transferência hospitalar. Para a secretária, a unidade de saúde opera de forma caótica, sem prestar informações às famílias, além de não ter profissionais suficientes.
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Gravidade
Neste mês, com apenas três dias, os números da pandemia são alarmantes. De terça-feira até ontem, 6.598 pessoas foram contaminadas pela Covid-19. Em apenas 72 horas, 50 sul-mato-grossenses morreram em decorrência da doença.
O número de mortes publicado nos últimos três boletins epidemiológicos (161) também considera falecimentos ocorridos no mês de maio.
Nos hospitais, 1.337 pessoas permanecem internadas, sendo 797 em leitos clínicos e 540 em UTI. Em situação mais grave, a fila de espera por uma vaga hospitalar é de 182 pacientes na macrorregião de Campo Grande, sendo 162 só da própria Capital. Na macrorregião de Dourados, 63 pacientes aguardam por um leito.
Na Central de Regulação do Estado (Core), 40 pacientes esperam por uma transferência hospitalar.
Em relação ao comprometimento de leitos, a situação mais grave é refletida na macrorregião de Campo Grande com 100% da taxa de ocupação, mesma situação de Corumbá. Em Dourados, o índice de ocupação é de 97% e 99% em Três Lagoas.
Para a infectologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Ana Lúcia Lyrio, a curto prazo, apenas as medidas de biossegurança podem diminuir o contágio pelo coronavírus.
“Nossa vacinação está lenta, não temos possibilidade de abertura de novos leitos, a única forma de controlar a contaminação é fazendo aquilo que estamos orientando há cerca de um ano e meio, usar máscara, manter o distanciamento social e sair apenas quando necessário, essas ações salvam vidas”, disse.