A vacinação em massa nos 13 municípios de fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai e a Bolívia deve beneficiar Campo Grande com quatro pontos porcentuais a mais de imunizantes contra o coronavírus nas próximas remessas.
De acordo com a secretária adjunta de Estado de Saúde, Crhistinne Maymone, a divisão do rateio atual de 33% de cada lote destinado à Capital passará para 37,25%.
Com 906 mil moradores, Campo Grande representa 32% da população de todo o Estado, que tem 2.809.394 habitantes.
Em relação às vacinas recebidas, das 1.720.310 doses já entregues a MS, a Capital ficou com 33%, cerca de 574,9 mil, de acordo com o balanço realizado pelo jornal Correio do Estado com dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Conforme o secretário de Estado de Saúde, Geraldo Resende, essa nova divisão deve beneficiar cada um dos 66 municípios que devem compor a nova forma de distribuição das doses. “Isso vai acontecer porque essas 13 cidades que vão aplicar as 150 mil doses da Janssen deixarão de receber novas vacinas nas próximas remessas”, explicou.
O envio para a fronteira é referente aos 5% das 3 milhões de doses da Janssen que desembarcaram entre sexta-feira (25) e sábado (26) no País. Produzido pelo grupo Johnson & Johnson, esse imunobiológico de dose única tem eficácia de 85% para casos graves de Covid-19, proteção completa contra hospitalização e morte pela doença.
Para o secretário municipal de Saúde de Campo Grande, José Mauro de Castro Filho, na próxima remessa desta semana, estimada em 40 mil vacinas para o Estado, a Capital deve ser beneficiada com cerca de 10 mil a 11 mil imunizantes.
Para que o acréscimo de 5% das doses ocorra, Filho explicou que o Ministério da Saúde precisa emitir uma nova nota técnica confirmando a divisão.
Referentes à primeira etapa de vacinação, 375.259 moradores de Campo Grande já receberam a primeira dose e 164.578 receberam as duas doses. O município ainda tem um índice de 41,42% da população vacinada e 18,16% imunizada.
DISPUTA
Em clima de “ruptura”, o prefeito de Campo Grande, Marcos Trad (PSD), declarou nesta segunda-feira (28) que acha injusto os municípios de fronteira receberem as 150 mil doses da Janssen, mesmo que a vacinação em massa seja viabilizada para um estudo.
“Olha, eu não acho este o momento mais adequado para buscar uma pesquisa com doses faltando em todo o Brasil. Estamos com 77 pontos de vacinação fechados [por falta de vacinas]”, disse.
Trad declarou que não é contra as cidades do interior receberem as vacinas, mas acredita ser mais justo haver uma distribuição equivalente ao porcentual populacional, como estava sendo feito desde o início da campanha de imunização.
Em tom crítico, o prefeito da Capital afirmou ainda que, diferentemente de Ponta Porã, uma das cidades que serão beneficiadas com as doses da Janssen, a Capital não pede comprovante de residência no momento da vacinação.
“Campo Grande vacina todos os sul-mato-grossenses, residentes ou não aqui. Quem pede comprovante de residência é Ponta Porã. O prefeito de lá [Hélio Peluffo], eu vi uma reportagem falando que ‘o Marquinhos está sendo egoísta porque essas 150 mil doses não vão ficar na Capital’. De maneira alguma, egoísta é quem coloca como condição essencial o domicílio da pessoa”, disse Trad.
De acordo com José Mauro Filho, o tratamento dado pelo Ministério da Saúde a Manaus (AM) durante o colapso no sistema de saúde de lá não foi considerado para proporcionar mais doses a Campo Grande, que é líder na ocupação de vagas em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).
“Eu acredito que os grandes centros do Estado, como Campo Grande, Dourados e Três Lagoas, que são sedes de macrorregiões e acolhem todos os pacientes, não receberam esse quantitativo de vacinas. Creio que estrategicamente no combate à doença a gente poderia utilizar [as vacinas da Janssen] de outra forma, por exemplo, baixando em torno de dez anos a faixa etária de todas essas cidades”, ressaltou o secretário.
O governador do Estado, Reinaldo Azambuja, salientou que, assim como ele defende MS, Marcos Trad está defendendo a Capital. “O problema é que você não consegue doses extras se não houver uma lógica. Por isso que os 13 municípios de fronteira vão receber as doses”, frisou.
A reportagem procurou o prefeito de Ponta Porã, Hélio Peluffo, para comentar sobre o a fala de Marcos Trad. Mas até o fechamento desta edição não obteve resposta.
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FRONTEIRA
O repasse de doses extras ao Estado faz parte de estudo do Vaccine Effectiveness in Brazil Against Covid-19 (Vebra Covid-19). Conforme Crhistinne Maymone, as doses extras para a pesquisa, além de serem um privilégio, darão celeridade ao processo de imunização em todo o Estado.
Liderada pelo infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Julio Croda, a pesquisa analisará o impacto da vacinação em massa em pessoas entre 18 e 50 anos nas 13 cidades de fronteira do Estado, após 14 dias de dose única da Janssen.
Azambuja estimou que, se o Ministério da Saúde cumprir todas as etapas previstas para as entregas das doses contra a Covid-19, será possível vacinar todos os sul-mato-grossenses com mais de 18 anos até o fim de agosto.
Com o novo lote, será possível alcançar o patamar de 44% da população vacinada com a primeira dose nos próximos dias.
Como a Janssen possui dose única, o salto de imunizados será de 6%, ou seja, 21% da população estará completamente protegida contra as formas graves da Covid-19 nas próximas semanas, uma vez que a estimativa é aplicar as doses em 14 dias. (Com Naiara Camargo)