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NATUREZA

Rio Paraguai precisa de chuva recorde para voltar ao normal

São necessários 860 mm ou precipitação 50% além da média dos primeiros sete meses do ano para normalidade

Pelo segundo ano consecutivo, a cheia do Rio Paraguai não ocorreu e não há sinais de melhora significativa nos níveis de água em decorrência da crise hídrica. 

Por conta disso, para que a situação se normalize, é necessária uma chuva recorde, 50% além da média prevista para os primeiros sete meses do ano, conforme explica o professor do Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Vinicius Capistrano.  

O especialista destacou ser essa uma estimativa, levando em consideração a média de chuva ideal para os sete primeiros meses do ano, que pode sofrer alterações. 

“Este é o terceiro ano com a região pantaneira mais seca que o normal. Assim, para voltarmos à normalidade, vai depender de uma recuperação lenta com aumento de chuva moderado ou de uma recuperação mais rápida mediante uma estação chuvosa com volumes de precipitação substancialmente acima da média climatológica”.  

Últimas notícias

As estações de Cáceres (MT), Cuiabá (MT), Porto São Francisco (MS), Ladário (MS), Forte Coimbra (MS) e Porto Murtinho (MS) estão em “zona de atenção”. 

Nelas, o nível do rio atingiu níveis mínimos alarmantes. 

“O deficit de chuva na região do Pantanal desde 2019 foi de aproximadamente -860 milímetros. De um modo objetivo, considerando apenas o componente de precipitação no balanço hídrico, a quantidade de chuva necessária para que a região atinja níveis climatológicos ideais seria de 860 milímetros”, apontou Capistrano.

Na seca do Pantanal em 2020, no dia 17 de julho a régua em Ladário estava em 1,74 metro, ao passo que o histórico para tal dia era de aproximadamente 4,37 metros. 

Em decorrência da persistência da seca, a cota no dia 17 de julho deste ano estava 50 centímetros mais baixa em comparação com o ano passado, sendo de 1,24 metro.  

De acordo com o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), a região hidrográfica do Rio Paraguai possui as estações chuvosa e seca muito bem definidas. Grande parte da precipitação na região ocorre entre outubro e abril. 

A média anual é de 1.368 mm; contudo, em alguns anos pode chover apenas 800 mm, enquanto em outros anos a chuva pode atingir 2.000 mm.  

Capistrano destacou que a situação de 2021 é mais crítica do que a do ano passado e tende a piorar nos próximos meses. 

“A seca no Pantanal no ano passado foi decorrente também do deficit de chuvas na região hidrográfica do Rio Paraguai já no ano anterior [2019]. Além disso, de janeiro deste ano até o dia 22 de julho houve persistência de menos chuva que a média climatológica também", explicou o especialista.  

"Esses fatores fizeram com que a seca deste ano possa ser mais severa que a do ano anterior em termos de precipitação. Assim, a situação deve permanecer, neste futuro próximo, com implicação de redução ainda mais acentuada no nível dos rios da região neste período”, completou.

SOBRE O RIO

O Rio Paraguai atravessa os territórios do Brasil, do Paraguai, da Argentina e da Bolívia, sendo um dos principais rios da Bacia Platina, importante bacia hidrográfica da região sul da América do Sul.  

Na época de inverno e de seca, em julho e agosto, o ideal seria que o rio atingisse a marca dos 4,5 metros. Nos períodos mais abundantes, o nível chega a superar 5 metros próximo de Corumbá. Em 2018, o pico chegou a 5,35 metros.  

Na medição em Ladário, o boletim do dia 13 de julho apontou que a cota estava em 1,34 metro, enquanto na sexta-feira (30) o nível era de 19 centímetros, e a previsão é de que esse nível chegue a -40 centímetros até 16 de outubro. A máxima alcançada neste ano na mediação em Ladário foi em abril, com 1,88 metro.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontou uma “anomalia de precipitação” na região do Pantanal, com deficit de chuva em torno de 40% desde outubro de 2020.  

De acordo com o meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) Cleber Souza, não há chuvas significativas há mais de 30 dias no Estado. Segundo Souza, não há previsão de chuva volumosa e a tendência é que as precipitações só voltem em meados de outubro. 

“A estiagem dos últimos anos está bem rigorosa e não há previsão de regularidade, devemos registrar precipitações mais expressivas em outubro e não sabemos se as chuvas previstas serão suficientes para restabelecer a normalidade na bacia”, apontou o meteorologista.

ALERTA  

De acordo com o último boletim de monitoramento hidrológico, publicado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), o nível de água registrado na região está atingindo os menores valores mínimos já observados para esse período do ano, considerando toda a sua série histórica de dados, que teve início em 1965.

“Com tendência de declínio de seu nível até o mês de outubro, quando normalmente termina o processo de vazante, o Rio Paraguai preocupa em todas as estações monitoradas pelo Serviço Geológico do Brasil”, divulgou o SGB em nota.

Em 2021, o solo reteve menos de 40% da umidade das chuvas de verão. Em algumas regiões de Mato Grosso do Sul, a umidade relativa do ar está abaixo de 10%. 

O calor extremo e as frentes frias com geadas agravaram a estiagem, conforme aponta o documento.  

Desde junho o órgão já havia alertado que o processo de vazante neste ano teve um início antecipado. 

A tendência é que a situação se intensifique neste mês, visto que, historicamente, agosto é o mês mais crítico com relação às condições de tempo seco no Estado.

A falta de chuva na região traz consequências não apenas ambientais, mas também para a navegação no rio, já que nos próximos dias a régua tende a baixar ainda mais, o que pode inviabilizar o uso da hidrovia para transporte de cargas e prejudicar o escoamento de produções, como antecipou o Correio do Estado em matéria publicada no mês passado.

Outros problemas que devem surgir são o abastecimento de água na região, prejuízos para o setor do turismo e aumento de queimadas, temas que serão detalhados em reportagens posteriores.

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