Com temperaturas extremas e um volume de chuvas cada vez menor, Mato Grosso do Sul pode ter períodos de estiagem ainda mais impactantes, conforme análise de pesquisadores do Estado, que estimam um mês a mais de seca e crescimento de até 6ºC na temperatura.
A informação vai ao encontro com o Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o aquecimento global, divulgado nesta semana, que alertou sobre o impacto das consequências da ação humana na natureza, considerados agora irreversíveis.
O físico e doutor em meteorologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pesquisador do Laboratório de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Vinícius Capistrano ressalta que o tempo seco duradouro vai impactar o Estado economicamente, diante da dependência da agricultura como atividade principal.
“Até o fim do século, as primeiras chuvas, que hoje caem em setembro, podem aparecer só no fim de outubro, por exemplo”, pontua. Segundo ele, isso equivale a dizer que “nós teríamos não só um prejuízo no bolso, mas também na própria saúde das pessoas”, ressalta.
Segundo ele, as chuvas serão menos frequentes e quando caírem serão cada vez mais fortes. “Espera-se um aumento de até 20% nessas precipitações mais intensas. Ou seja, a chuva que haverá será menor, mas em forma de temporais, que podem levar a alagamentos e outros problemas urbanos”, diz o doutor em meteorologia.
Capistrano ressalta ainda que o aumento pode ser maior ou menor do que a média global dependendo do lugar em questão.
Nos oceanos, por exemplo, a grande quantidade de água existente consegue absorver uma parte desse calor, mas na área onde Mato Grosso do Sul está localizado é possível que o calor aumente de 5°C a 6°C.
Relatório
Ele explica ainda que o documento da ONU compila uma série de estudos sobre as mudanças climáticas elaborados por cientistas de todo o mundo.
“O levantamento sempre tenta fazer uma ponte entre ciência, imprensa e opinião pública para favorecer tomadas de decisões. Nos relatórios anteriores, eles estavam bem mais conservadores, mas chegou um momento em que os governantes precisam de um respaldo científico que seja elaborado de forma mais clara para tomar as decisões de maneira mais assertiva”, explica Capistrano.
Contudo, esse relatório só tem o poder de informar, mas a ação está nas mãos dos governantes e da população.
“Uma coisa que se confunde muito é chamar essas mudanças de aquecimento global. Na verdade, não é só a temperatura que muda. Há alterações, entre outras variáveis climáticas, nos regimes de chuva", pontua.
"Contudo, temperaturas extremas poderão ser mais frequentes, ou seja, em certos períodos os termômetros podem registrar dias ainda mais quentes enquanto outros sofrem com frentes frias, menos frequentes, mas mais extremas”, completa.
Segundo ele, é preciso cooperação internacional para que os efeitos negativos sejam os menores possíveis. “Nós temos dois cenários. Um otimista, que a gente consegue manter um aquecimento menor, já que convém destacar que não é possível cessá-lo de uma hora para outra, mas de maneira gradativa”, diz Capistrano.
A outra hipótese diz o que acontecerá caso não haja reações por parte das sociedades. “Nesse caso, teríamos até 15% a menos de chuvas na região Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso do Sul, entre outros efeitos”, diz o doutor em meteorologia.
O texto diz que, no pior cenário previsto, o número de dias por ano com temperaturas máximas superiores a 35°C aumentaria em até mais de 150 dias até o fim do século 21 na Amazônia.
O aquecimento global é o processo de mudança da temperatura média da atmosfera, por conta do acúmulo de gases que resultam no efeito estufa.
Segundo o professor, uma saída para diminuir as causas do aquecimento é incentivar o uso de energia limpa e reduzir a emissão de carbono na atmosfera.
Infelizmente, o que temos visto no Brasil é justamente o contrário, como no projeto que prevê a taxação de energia solar, inviabilizando o uso dos painéis fotovoltaicos para muitas pessoas e empresas.
“O carbono é o principal produto da queima de combustíveis fósseis. Ele provoca o chamado efeito estufa ao se acumular na atmosfera e acaba servindo como um cobertor, retendo o calor da superfície terrestre”, afirma Capistrano.
De acordo com o doutor em meteorologia da UFMS, a emissão atualmente é 50% maior em comparação ao período pré-industrial. “Situação semelhante se repetiu há dois milhões de anos e conseguimos, pela ação humana, tê-la em 170 anos”, comenta.
Caso a emissão de carbono fosse zerada, seria possível chegar até 2099 com as temperaturas médias do planeta aumentando em 1,5°C. “O aquecimento está posto e vai acontecer. Embora ainda tenha efeitos sobre o nosso dia a dia, é menos perverso caso mantenhamos a situação da forma como está atualmente”, acredita.
Para o doutor em meteorologia, o ser humano é bastante adaptável e deve sobreviver ao cenário mais catastrófico, mas a natureza não. “Os animais e a flora devem sofrer muito e, com eles, a própria economia. Também devem sentir na pele os efeitos das mudanças climáticas os mais vulneráveis”, pontua.
Como exemplo, o doutor em meteorologia cita a Amazônia. Diante de um cenário de calor extremo e menos chuvas, as árvores da área verde podem não suportar, dando lugar às plantas que conseguem sobreviver nesse ambiente, semelhante àquelas do cerrado. E tudo isso vai interferir na quantidade e na qualidade do ar.
Fenômenos
Além de o aquecimento global, fenômenos naturais como La Niña e El Niño também podem regular o clima, sendo que o primeiro é responsável pelo resfriamento e o segundo auxilia no aquecimento.
“La Niña e El Niño são fenômenos naturais que estão relacionados ao resfriamento e ao aquecimento do oceano pacífico central. Os fenômenos são medidos nessa região porque têm um impacto maior na atmosfera", pontua.
"Quando está em situação de El Niño significa que o oceano pacífico está mais quente e geralmente impacta no clima global e a tendência é de elevar a temperatura. Traz seca para a região Norte e Nordeste e chuva para a região Sul”, completa.
Já o La Niña, que ocorre durante o inverno, facilita a entrada de frentes frias. “Agora, a situação está neutra, com tendência de voltar para as condições de La Niña no Brasil”, explica o meteorologista Marcelo Schneider, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Pantanal
Sem chuvas significativas há mais de 50 dias no Estado, Capistrano ressalta que em relação ao Pantanal, o que deve se ter em conta é que a seca nos rios são decorrência de poucas chuvas também na região central e sul do Estado de Mato Grosso.
“Estas regiões [central e sul de Mato Grosso] não possuem influência estatisticamente significativa de fenômenos de El Niño e La Niña. As chuvas na região do sul de Mato Grosso estão entre os principais contribuintes para a água que chega no Pantanal”, pontua.
Pelo segundo ano consecutivo, a cheia do Rio Paraguai não ocorreu e não há sinais de melhora significativa nos níveis de água. Por conta disso, para que a situação se normalize, é necessária uma chuva recorde, de 860 mm ou precipitação 50% além da média dos primeiros sete meses do ano para a volta da normalidade. (Colaborou Izabela Cavalcanti).