Cobrando, em média, US$ 250 (em torno de R$ 1.290) por haitiano que decidisse atravessar a fronteira do Brasil com a Bolívia, coiotes atuando em Corumbá estavam rentabilizando uma indústria ilegal de grandes cifras e que pode ter atingido lucro milionário.
O esquema foi monitorado pela Polícia Federal (PF) e desmontado nesta terça-feira, após deflagração de operação.
Os principais suspeitos do crime de imigração ilegal, que não tiveram os nomes divulgados, foram presos com R$ 3.342 e US$ 1.165 (cerca de R$ 6 mil). Além do dinheiro, policiais federais apreenderam documentos e celulares.
Todo esse material servirá para a investigação continuar e indicará qual é o tamanho desse esquema e as ramificações que podem existir, inclusive, a ligação com mais pessoas que atuam fora de Corumbá.
Entre os presos estão um brasileiro, que utilizava o próprio carro para fazer o transporte dos estrangeiros com residência fixa no Brasil, e três haitianos, que seriam a ponte para negociar com os compatriotas e atuar em conjunto com o corumbaense. Todos moravam na Capital do Pantanal.
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Migração
A situação de imigração dos haitianos foi revelada pelo Correio do Estado em 24 de julho. Desde janeiro, esse fluxo migratório começou a ser notado, com média de entre 40 e 60 pessoas chegando na fronteira do Brasil com a Bolívia.
Ao longo dos meses, esse número só aumentou. Quando houve a primeira divulgação desse fato em âmbito estadual pelo jornal, em julho, a Gerência de Proteção Especial da prefeitura de Corumbá estimava que havia uma média de 100 haitianos desembarcando na rodoviária local por dia. Em agosto, o volume passou a ser notado, e a média estava em 150 haitianos/dia.
Essas pessoas vêm de diferentes estados, principalmente Mato Grosso, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, e tentam atravessar pela Bolívia para chegar a Chile, México ou Estados Unidos. Nesses países os migrantes têm expectativa de melhores rendimentos, ante a crise financeira que o Brasil enfrenta.
A investigação da Polícia Federal levou em conta justamente esse crescente número de pessoas desembarcando em Corumbá todos os dias nos últimos oito meses, aliada ao fato de que os haitianos têm restrições para atravessar o território boliviano.
O governo do país vizinho exige visto para essa população, e a documentação não estava sendo solicitada no Consulado da Bolívia, que fica em Corumbá.
Apesar de ainda não haver números fechados, a PF na Capital do Pantanal estima que os coiotes estavam tendo lucro alto com a negociação ilegal.
Com base nos valores até agora apurados, o esquema de atravessar haitianos pela Bolívia até Chile ou Peru seria um negócio que poderia ter rendido para os coiotes mais de R$ 10 milhões, em estimativa extraoficial, somente entre janeiro e agosto deste ano.
O cálculo foi feito com base na cobrança de US$ 250 por pessoa, com média de 40 haitianos que chegam à cidade e acabam aceitando a negociação.
“O intuito é combater esses coiotes, que exploram esses haitianos com o fim de obter vantagens econômicas abusivas. Eles usavam a fronteira do Brasil com a Bolívia, que é bem perene e tem vários caminhos, o que deixa difícil a fiscalização, e acabam conseguindo entrar no país vizinho de forma ilegal", explica o delegado Lucas Carreira, chefe da Delegacia de Polícia Federal em Corumbá.
"Mediante esses coiotes, os haitianos também compravam as passagens para seguir a viagem deles. É uma indústria ilegal que gera bastante dinheiro”, completou.
Legais
A presença de haitianos em Corumbá não se trata de questão ilegal, pois eles têm autorização de residência no Brasil. O País foi um dos principais destinos da população do Haiti a partir de 2010. Relatório do Observatório das Migrações Internacionais de 2020 aponta que a população daquele país no Brasil é de 54.182 pessoas.
OPERAÇÃO
A operação que culminou na prisão de quatro suspeitos de praticar a imigração ilegal foi denominada Fo M’Ale, que em creole, idioma falado no Haiti, significa “preciso ir embora” (em tradução livre). Inicialmente, a PF estava com um mandado de prisão para ser cumprido contra o suspeito brasileiro e outros quatro de busca e apreensão.
Todos foram expedidos pela 1ª Vara Federal de Corumbá. No atual estágio da investigação, os homens presos podem responder pelos crimes de promoção de migração ilegal e organização criminosa (art. 223-A e art. 288, ambos do Código Penal).
Como a investigação agora prossegue com mais elementos, outros fatores podem ser acrescidos nesse inquérito.
Travessia
Um dos caminhos que os coiotes escolhiam para fazer famílias inteiras, com crianças e, algumas vezes, mulheres grávidas, atravessarem e entrarem em território boliviano é conhecido como Trilha do Gaúcho.
A cerca de 500 metros do Posto Esdras, do lado brasileiro, e do controle de fronteira da Bolívia, essa trilha permite que as pessoas cortem caminho e passem por trás da área, que tem presença policial.
Há uma mata nessa região, que é comandada pelo Exército Brasileiro. O trajeto entre Corumbá e a trilha tem cerca de 12 quilômetros e custa algo em torno de R$ 50 a viagem, em valor dividido para quatro a cinco pessoas.
“Nos períodos da manhã e da noite, estes despachantes buscavam meios de atravessar os imigrantes, entre eles diversas crianças e mulheres grávidas, sempre exigindo vantagem econômica para tal fim", descreve a Polícia Federal, em nota, sobre como era a operacionalização da travessia.
"Já dentro da trilha, os estrangeiros eram auxiliados por ‘carregadores’ de nacionalidade boliviana, que tinham a função de mostrar o percurso correto até o território do país vizinho, além de prestar apoio no transporte das malas dos haitianos”, completou.