Nos últimos seis meses, as forças de segurança federais que atuam na faixa de fronteira do Brasil com a Bolívia em Mato Grosso do Sul realizaram quatro apreensões de produtos químicos que sinalizam uma estruturação grande do crime organizado na produção de cocaína na região de Corumbá.
Entre essas ações, a mais recente, realizada nesta segunda-feira e divulgada ontem por Polícia Federal (PF) e Receita Federal, culminou na apreensão da maior quantidade de acetato de etila já feita em território brasileiro.
Distribuídos em cinco caminhões, barris com o produto químico estavam sendo preparados para atravessar a faixa de fronteira entre Corumbá e Puerto Quijarro.
Foram encontrados nessa grande apreensão 130 mil quilos de acetato de etila, que têm valor no mercado ilegal de R$ 1 milhão e permitem que traficantes possam produzir até 10 toneladas de cloridrato de cocaína com alto grau de pureza.
A identificação desse carregamento descortinou um esquema milionário que transita regularmente pelas estradas de Mato Grosso do Sul, usando principalmente a BR-262.
A carga apreendida foi comprada em São Paulo e não era produto de roubo ou furto, porém, não havia documentação regular para o transporte para a região de fronteira. Por conta dessa situação, um despachante de carga lotado na Capital do Pantanal acabou preso. O nome dele não foi divulgado.
Para a Polícia Federal em Corumbá, a investigação sobre essa indústria da cocaína na fronteira ainda tem muitas repercussões. Por conta dos futuros desdobramentos, oficialmente, a PF não divulga mais detalhes sobre o inquérito instaurado.
“A carga apreendida, avaliada no mercado lícito em mais de R$ 1 milhão, seria repassada a traficantes de drogas por pelo menos o triplo desse valor. Chama atenção, porém, o potencial lesivo, quando se mensura a quantidade de cocaína que seria produzida com os insumos apreendidos: pelo menos 10 toneladas de cloridrato de cocaína com alto grau de pureza", aponta nota da PF, divulgada por conta da apreensão do acetato de etila.
"A Polícia Federal e a Receita Federal do Brasil vêm realizando um importante trabalho nas fronteiras com os países produtores de cocaína, objetivando dificultar a produção do entorpecente que posteriormente transitaria pelo território nacional”, informam.
A reportagem do Correio do Estado apurou em Corumbá que essa apreensão mais recente foi realizada na região do Porto Seco, caminho que liga a BR-262 à Bolívia, depois que Polícia Federal e Receita Federal conseguiram monitorar o carregamento por meio de trabalho de inteligência e outras ocorrências que já tinham sido registradas na cidade.
Houve apreensões de produtos químicos em abril, julho e agosto também.
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CAMINHO
A carga de acetato de etila tinha saído de São Paulo em cinco caminhões acondicionada em barris e, durante o trajeto de mais de 1,4 mil quilômetros até Corumbá, não houve barreiras ou abordagem aos veículos, conforme averiguado. A carga não entrou efetivamente na cidade, pegando rumo para a Bolívia a partir do Anel Viário.
Os veículos da PF e da Receita Federal realizavam ronda nas proximidades do Porto Seco da Agesa e fizeram a abordagem na tarde de segunda-feira. Como a investigação corre em segredo, não foram divulgados detalhes de como a carga foi apresentada no posto fiscal em Três Lagoas para entrar em Mato Grosso do Sul.
O dono desse carregamento ainda está sendo identificado nas apurações da Polícia Federal. O que foi possível averiguar é que a organização criminosa envolvida no transporte e na venda dos produtos químicos tem brasileiros e bolivianos envolvidos.
Porém, a comercialização não estaria diretamente vinculada a facções que atuam em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essas vendas poderiam ocorrer, mas a partir de negociações individuais.
Conforme a Polícia Federal, o uso do acetato de etila e outros produtos químicos proporciona uma produção mais sofisticada de cocaína. Com a utilização dessas técnicas industriais, que exigem o envolvimento de especialistas, os traficantes conseguem usar menos folhas de coca para a produção de uma mesma quantidade, chegando a dobrar o rendimento em alguns casos.
A cocaína chega a custar, na região de fronteira, R$ 25 mil o quilo. O valor só aumenta a partir do transporte do entorpecente para outros estados brasileiros ou exterior.