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Sem programas habitacionais, favelas surgem, avalia especialista

Atualmente, Campo Grande tem 38 ocupações irregulares que são classificadas como favelas

Gabrielle Tavares

26/10/2021 - 08h30

Após o número de favelas dobrar nos últimos 10 anos em Campo Grande, especialista em urbanismo ouvida pelo Correio do Estado avalia que o aumento se deve à desigualdade social e à falta de projetos habitacionais. Atualmente, a Capital conta com 38 ocupações distribuídas nas sete regiões.

A favelização é o processo de surgimento e crescimento do número de favelas em uma dada cidade ou local, tratando-se de um problema social.

Pois tais moradias resultam na formação de casas sem planejamento mínimo, resultantes de invasões e ocupações irregulares, conforme explica a arquiteta, urbanista e professora da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), Katia Didone Macuglia.  

A especialista reitera que as favelas surgem pela junção de famílias de baixa renda que encontram um espaço para tentarem sobreviver, mas que não têm condição de ter edificações seguras.  

“Analisando a diferença de renda no ambiente urbano, a desigualdade é muito grande, e isto gera diversos problemas sociais. Com isso, muitas famílias moram em um local de aluguel e, em razão da crise, da reformulação urbana e falta de renda, não conseguem se manter e quitar suas despesas. [Por isso,] Muitos deixam essa realidade e vão para as favelas”, avaliou.

De acordo com dados da pesquisa “Aglomerados Subnormais: Classificação Preliminar e Informações de Saúde para o Enfrentamento à Covid-19”, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada em maio do ano passado, Mato Grosso do Sul tem 54 aglomerados subnormais (as chamadas favelas).

Distribuídos em sete municípios, com 6.766 moradias.

Dos 908 mil domicílios no Estado, 6.766 estão localizados em favelas – uma proporção de 0,74% residências em aglomerados subnormais em Mato Grosso do Sul, conforme o levantamento.

A coordenadora da Central Única das Favelas (Cufa) de Mato Grosso do Sul, Lívia Lopes, reitera que a entidade procura atender toda a demanda de solicitações, como alimentos, remédios e demais assistências, mas nem sempre é possível, em razão do aumento de famílias em situação de vulnerabilidade extrema nas comunidades espalhadas pelo Estado. 

Segundo a Cufa, o número de ocupações é um pouco maior, 56 neste ano, mas o número pode ser ainda maior.

“As ocupações estão em expansão. Antes, tínhamos um pedaço de terra, hoje, são diversos bairros ocupados, e isso se deve à falta de emprego e à perda de renda, que na última década aumentaram muito". 

"Vemos muitas famílias em barracos aglomerados em bairros carentes da cidade, o que antes não era visível, mas hoje é possível ver as pessoas em barracos em diversas regiões da Capital”, disse.

Katia Didone ressalta ser necessário criar políticas mais efetivas de habitação e que os recursos precisam chegar de fato para as pessoas de baixa renda. 

Ela reitera que Campo Grande possui muitas favelas em áreas periféricas, mesmo com a cidade tendo diversos vazios urbanos.  

“Precisamos de políticas mais efetivas e eficientes para oportunizar moradias para famílias de baixa renda. Já tivemos vários programas que conseguiram levar moradia, mas o volume é muito expressivo e não consegue atender a todos. Temos lotes de vazios urbanos que não estão sendo ocupados". 

"Precisamos de projetos voltados para a habitação de interesse urbano, para dar oportunidades para essas famílias que hoje vivem em favelas”, alegou.  

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ESPERANÇA

Rosana do Amaral, 43 anos, mora na comunidade Lagoas, localizada no Bairro Colorado, e trabalha recolhendo materiais recicláveis na região com seu marido. 

Ela relata que a pandemia do coronavírus agravou mais a fome e a necessidade da comunidade, período em que muitos moradores perderam suas fontes de renda, mas ainda mantêm o sonho de conquistar a casa própria e sair da favela.  

“A gente quer melhorar, queríamos que alguém olhasse para a gente, ninguém quer essa vida, é muito difícil. Na época da política aparecem muitas pessoas com mil promessas, aí, depois que passa, ficamos esquecidos. Aqui a gente se sente abandonado e a gente precisa muito de ajuda, a maioria das famílias que moram aqui mexe com reciclagem”, disse.  

Na comunidade Lagoas moram mais de 30 famílias e 50 crianças há mais de 10 anos. Rosana não recebe nenhum tipo de ajuda ou assistência, pois não possui comprovante de residência e vive apenas de doações de terceiros e do seu trabalho com reciclagem. Atualmente, muitas famílias da comunidade vivem de doações.  

“Aqui, para marcar um médico é difícil, não temos comprovante de residência e, por isso, não conseguimos agendar consulta no posto de saúde ou nos cadastrar em benefícios. Nada é fácil, tudo é muito complicado. Eu recolho muita reciclagem com meu esposo, e o que a gente consegue vamos colocando na casa, quando chegamos não tinha nada”, afirmou.  

A coordenadora da Cufa no Estado aponta que, para melhorar a realidade das milhares de famílias que vivem nas comunidades, é fundamental oferecer oportunidades de emprego e melhor infraestrutura.  

“As pessoas precisam de capacitação, cursos e aprimoramento. Não existe empatia por parte de muitas empresas para oferecer oportunidade de trabalho para pessoas da comunidade. É muito difícil dar chance para pessoas da favela, eles geralmente conseguem oportunidade em canteiro de obras”.  

Lívia reitera que nas 38 favelas da Capital, onde estão distribuídas 4.516 moradias, as famílias não têm opção de lazer, educação ou saúde. 

“As comunidades têm muitas crianças, mas nenhuma opção de lazer próximo, seja uma praça ou um campo. Para ir à escola, as crianças têm que andar muitos quilômetros. As pessoas da favela são invisíveis para uma parte da sociedade”, avaliou.

RECURSO  

Caiu para menos da metade o número de casas entregues nos últimos 10 anos com recursos do governo federal em Campo Grande, conforme reportagem do Correio do Estado publicada no dia 7, com dados da Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários (Amhasf).  

O diretor de Administração e Finanças da Amhasf, Cláudio Marques Costa Júnior, destaca que a falta de repasse para novos projetos de habitação contribui para o aumento da favelização na Capital.  

“Queremos alcançar mais pessoas, mas estamos reféns da falta de recursos. Sem programas e recursos, fica impossível dar alternativas para essas famílias, é uma situação muito delicada, mas estamos estudando a melhor forma de atender a todos”, alegou.

Entre 2011 e 2013, foram entregues 3.718 unidades habitacionais na Capital, contra 1.750 no período de 2019 a 2021, uma redução de 52% da oferta de novas moradias.

Em Campo Grande, aproximadamente 42 mil famílias aguardam na fila de espera por uma casa por meio de programas de habitação. 

Costa Júnior reitera que, para mudar essa realidade, está sendo desenvolvido um levantamento sobre as famílias que vivem em comunidades na Capital para ações de melhorias e frentes de trabalho. 

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