Campo Grande tem, de acordo com a concessionária de abastecimento Águas Guariroba, uma cobertura de acesso à água tratada de 99,8%, mas essa conta não leva em consideração algumas pessoas que, para a prefeitura, são “invisíveis”.
Moradores de ocupações, favelas ou comunidades, qualquer um desses termos tem como resultado a mesma exclusão, a falta de saneamento básico, que faz com que muitos encontrem alternativas para seguir sobrevivendo, como o uso de água da chuva, de rios, lagos ou até de descartes.
Campo Grande conta com pelo menos 39 favelas, onde moram cerca de 5 mil pessoas, uma delas, a Lagoa, tem cerca de 30 famílias que vivem à margem da sociedade há mais de 10 anos, em um corredor próximo à Rua Sebastião Ferreira, no Jardim Colorado.
A comunidade não tem acesso à energia elétrica, saneamento básico ou coleta de lixo. Os moradores já se “acostumaram” com o mau cheiro do esgoto a céu aberto e com o gosto da água que utilizam.
Na comunidade Lagoa, entre as 30 famílias, apenas quatro têm poço, enquanto as demais precisam armazenar água da chuva para consumo, higiene, limpeza e demais necessidades.
Caixas-d’água sujas, garrafas e baldes são utilizados para armazenar a água da chuva. Para não depender apenas das precipitações, as famílias da comunidade, que fica localizada ao lado de uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Águas Guariroba, utilizam a água de escoamento de drenagem para beber, cozinhar e tomar banho.
Na casa da catadora de reciclagem Tuhany dos Santos, 24 anos, todos costumam adoecer por conta da água. O pequeno Wendal dos Santos, 2 anos, precisou ser hospitalizado após apresentar febre e diarreia.
Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) das Moreninhas, ele foi diagnosticado com rotavírus. Mesmo após ser medicado e voltar para casa, os sintomas persistiram e ele foi encaminhado para o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul.
Após exames, os médicos descobriram que Wendal estava com uma doença intestinal causada por vermes. A criança tinha mais de 37 parasitas de pequeno e grande porte em sua barriga, e os especialistas diagnosticaram que a água que a família consumia foi o motivo da infecção.
A mãe relata que os médicos cogitaram fazer uma cirurgia em Wendal para extrair os parasitas, mas ficaram apreensivos pela quantidade de vermes que tinha na criança.
“Colocaram sonda no nariz do meu filho, que ajudou a soltar a bola de verme que formou na barriga dele. A enfermeira que perguntou como era a água daqui. Saiu mais de 37 vermes da barriga. O médico falou que nunca tinha visto tanto verme em uma criança”.
Thuany mora em um dos barracos da comunidade Lagoa há 4 anos, com dois filhos e o marido. Ela não tem saneamento básico, pois o seu barraco não é regularizado. De acordo com a concessionária Águas Guariroba, a disponibilização dos serviços segue os critérios de regularização de imóvel exigidos pela Prefeitura de Campo Grande.
“Já tentei sair daqui, mas nunca consegui. Todos os meus filhos nasceram aqui. Hoje tudo está tão caro, mas ninguém espera continuar nesse lugar para sempre”, disse.
“INVISÍVEIS”
Os moradores da comunidade Lagoa relatam que é comum crianças e adultos terem dor na barriga, febre e mal-estar em decorrência da falta de saneamento básico e acesso à água tratada. Eva Marina, 62 anos, mora no local há quatro anos e diz que a água da chuva é usada para beber, cozinhar e tomar banho.
“Não tem para onde correr, eu não tenho outra escolha, vou morrer de sede? Eu sinto muita dor no estômago, tomo remédio, mas nem sempre resolve”, disse.
A realidade da comunidade é apenas um caso entre tantos que não têm acesso à água tratada, o que coloca em xeque o cumprimento da resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), assinada em 28 de julho de 2010.
Há mais de dez anos, o órgão declarou o acesso à água limpa e segura e ao saneamento básico como direito humano fundamental da sociedade.
As ocorrências na comunidade são consideradas “normais” para as famílias que residem no local. A catadora de reciclagem Rosana Amaral, 42 anos, ressalta que vários tiveram problemas de saúde em razão da condição da água.
“A água que usamos é da chuva ou das tubulações, enchemos garrafas, baldes e usamos, não tem como ferver, o gás está muito caro. Ontem [dia depois da entrevista] a água estava fedendo carniça, mas não tem o que fazer”, relatou.
Rosana reitera que quando chegou à comunidade não imaginava que, mais de cinco anos depois, a situação ainda seria a mesma. “Comecei a utilizar essa água achando que seria provisório. Estou nessa há cinco anos. Até o café fica com gosto forte”.
Para piorar, como as famílias do Lagoa não têm comprovante de residência, isso impossibilita o atendimento na Unidade de Saúde da Família (USF) Parque do Sol, a mais próxima do local.
Rosana, por exemplo, não tem o cartão do Sistema Único de Saúde (SUS) e aguarda a ida de uma agente de saúde até o seu barraco para comprovar onde ela mora e autorizar o atendimento médico.
Conforme a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), como as ocupações ficam em áreas descobertas e não são cadastradas, há esse tipo de situação. Entretanto, o atendimento pode ser feito em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), já que nas USFs há a exigência de o paciente ser da área desse posto, e como não há comprovação o atendimento fica comprometido.
Segundo moradores, eles nem costumam procurar o posto de saúde por já saberem disso. O pequeno Wendal, conforme sua mãe, só conseguiu atendimento por conta do estado crítico de saúde.
RESISTÊNCIA
Longe da favela, mas também vivendo sem água tratada, encontramos dona Petronilha Pereira da Silva, 69 anos, que mora às margens da Lagoa Itatiaia, um cartão-postal da Capital, mas que serve de sobrevivência para a idosa.
Petronilha mora em uma casa simples, atulhada de materiais recicláveis, sua fonte de renda. A simplicidade também está no modo de vida, a idosa contou que desde que adquiriu a casa, em 1977, mandou fazer um poço no local, que existe até hoje.
“Esse poço eu furei assim que comprei o terreno, nem casa tinha. Ele dá água boa. Então nunca precisei de água encanada, tive por uns 2 meses e mandei tirar, vinha muito caro e eu não gosto de conta”, contou, sentada na varanda de casa.
Apesar de manter o poço, nos meses de estiagem severa a água seca e, sem ter telefone, ela depende de “encontrar o moço do poço” para pedir que se cave mais fundo, até encontrar água novamente.
Este ano aconteceu isso e a opção da idosa, que também conta com doação de pessoas que ela chama de “freguesas”, foi recorrer às águas turvas da Lagoa Itatiaia ou mesmo da pouca chuva do período. Na beira da lagoa, ela pega a água e leva até o carrinho, onde estão galões de tinta.
“Beber eu bebo água que as minhas freguesas me dão, mas eu pego água da lagoa para molhar as plantas e tomar banho, porque é impossível ficar sem. Eu fervo e, depois que esfria, eu uso”, relata.
“Hoje em dia não se pode ter muita coisa, por isso eu vivo desse jeito, só pago a conta de luz porque não tem jeito, mas Deus deixa a água para a gente usar de graça”, completou Petronilha, que ainda disse ser saudável, só com o “nervo ciático atacado”.
Quando o poço está ativo, ela conta que coa a água com um paninho. Sem ter nem copo, Petronilha bebe água em uma lata de alumínio, que, como muitas coisas em sua casa, também é reutilizada.
Perguntada sobre a possibilidade de aderir ao programa da tarifa social da água, ela repetiu que “não gosta de conta”. “Sem água eu não morro, porque Deus dá”.
De acordo com a Águas Guariroba, em Campo Grande, há 432.063 ligações de água e 275.289 de esgoto (o que representa 82,6%).
Para solicitar a tarifa social, o morador precisa comprovar ser carente, “mediante comprovação do cumprimento dos requisitos legais e regulamentares”, e não pode estar inadimplente na concessionária.
CUIDADOS
Conforme o levantamento realizado pelo Instituto Trata Brasil, divulgado em outubro deste ano, a falta de saneamento básico foi responsável pela internação de 6.319 pessoas em Mato Grosso do Sul em 2019.
De acordo com a gastroenterologista Luciana Greghi Garcia, a falta de acesso à água tratada causa sérios problemas à saúde, visto que a água pode causar a proliferação de doenças infectocontagiosas.
“Alguns organismos transmissores de doenças se desenvolvem na água, fazendo desta um criadouro. Como o ciclo de vida desses vetores envolve a água, diversas doenças se desenvolvem por ter relação com recursos hídricos. Com isso, diversos vírus e bactérias causadores de doenças infectocontagiosas são relacionados à água contaminada e à falta de saneamento básico”, apontou.
TRATAMENTO
Segundo a gerente técnica do Laboratório de Monitoramento da Qualidade da Água da concessionária, Vera Lúcia Nunes Batista Sandin, para que o bem seja disponibilizado para a população é feita uma série de processos de tratamento e monitoramento pela Águas para garantir a qualidade.
Já a água utilizada pelos moradores que têm poços domésticos não tem o mesmo controle. “Aquele particular não faz o acompanhamento daquele poço, então ele pode estar ingerindo uma água com contaminantes. Só ferver nem sempre adianta. A água ser bonita não quer dizer que ela é potável”.