A população de jacarés no Pantanal está sofrendo uma grave ameaça por conta das condições que o bioma enfrenta nos dois últimos anos.
A estiagem mais severa causou grande impacto nesses répteis, que dependem da água para sobreviver.
Eles são animais de sangue frio e necessitam de sol e de água para conseguirem regular sua temperatura corporal.
Além disso, é no meio aquático que eles têm maior mobilidade, conseguem caçar e se refugiam melhor das presas.
Esse ambiente acabou sendo reduzido entre 2020 e 2021, e há estudos que apontam para um risco de mortalidade desses animais no Pantanal, tanto em áreas de Mato Grosso do Sul como em Mato Grosso.
Situações que levantaram o alerta sobre a condição dos jacarés que vivem no Pantanal, da espécie Caiman yacare, ocorreram após a localização de centenas deles em pequenos açudes.
Os jacarés passaram a invadir esses locais, criados em fazendas para que o gado possa beber água, e foram se acumulando.
Um dos primeiros registros desse tipo ocorreu em novembro do ano passado. Na fazenda Palmeirinha, que fica na Nhecolândia, em Corumbá, centenas de jacarés, de diferentes tamanhos, estavam todos amontoados em açudes.
Alguns desses animais até tentaram atacar bezerros, mas estavam fracos e fora da água não possuíam a mesma agilidade para caçar.
Neste ano, no começo de outubro, houve outra situação semelhante ao ocorrido na Fazenda Palmeirinha.
Em um corixo praticamente seco perto do Rio Pixaim, em Poconé (MT), centenas de animais foram encontrados e apresentavam sinais de fraqueza.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) chegou a montar uma operação na região para tentar transportar alguns desses jacarés para outras áreas.
Nessa localidade, estima-se que 600 jacarés compartilhavam uma área que não comportava esse total de população. Os répteis estavam desnutridos e o calor excessivo estava atrapalhando a sobrevida deles.
Esses dois registros pontuais servem para ilustrar um pouco dos impactos que a atual estiagem está causando nessa espécie, que já foi ameaçada no Pantanal por conta da caça, principalmente na década de 1980 e no início dos anos 1990.
A Embrapa Pantanal tem estudo para monitorar a população e as condições que possam causar riscos. Conforme o órgão federal, o momento é de alerta para garantir uma melhor preservação.
Sobre a área alagável, o Mapbiomas já identificou que Mato Grosso do Sul perdeu 780 mil hectares de água entre 1985 e 2020, e a maior parte dessa redução de área está no Pantanal.
“A ameaça é a falta/escassez hídrica que diminui drasticamente seus ambientes e, assim, causa morte de indivíduos. O Pantanal abriga uma população vigorosa em anos de oferta de ambientes, em torno de 3 milhões de indivíduos, dados da Embrapa. Mas nesses últimos três anos a seca severa tem causado mortes de indivíduos”, reconhece a pesquisadora Zilca Maria da Silva Campos.
A engenheira florestal, doutora em Ecologia, é pesquisadora da Embrapa desde 1989 e especializada em manejo da vida silvestre, atuando principalmente com jacarés do Pantanal.
RESISTENTES
Os jacarés são reconhecidos por serem muito resistentes. Eles conseguem passar meses sem comer e gastam a energia acumulada em período de fartura.
Por isso, conseguem adaptar-se aos períodos de cheia e de seca do bioma. Seu sistema circulatório é capaz de concentrar a circulação de sangue apenas para o coração e o cérebro em períodos mais agudos para sua sobrevivência.
Essa forte estrutura atualmente está sendo desafiada pela estiagem prolongada, praticamente sem períodos de cheia desde meados de 2019 até este ano.
Sem um ambiente aquático mais favorável, os jacarés pantaneiros dependem de mais tempo para se manterem vivos, e sua reprodução fica prejudicada.
O período de reprodução é em fevereiro. “Os indivíduos não têm tempo de se recuperarem da seca e, assim, não reproduzem. Não tem alimento, e a mortalidade de adultos e de jovens é alta em todo o Pantanal. Outro fator gritante são os incêndios florestais, que matam os indivíduos e destroem suas matas”, detalha Campos.
Os sinais de perigo para a vida desses répteis resultaram no início de uma pesquisa para avaliar como as populações estão enfrentando a seca e identificar como está o declínio deles entre julho e outubro de 2021.
A Embrapa está em atuação de campo para fazer essa avaliação, que só deve ser concluída entre o fim deste ano e o começo de 2022.
“As mortalidades estão no nível de fazendas. Por isso estamos recomendando que não haja interferência nas populações, não ocorra a coleta de ovos e nem de filhotes. A espécie vai resistir a esse período de seca extrema desde que atuem nas causas dessa seca”, opina a pesquisadora.
Avaliações mais recentes identificaram que mesmo quando os jacarés encontram açudes e corixos para se abrigarem, os mesmos estão com muita lama. Esses hábitats não conseguem resfriar as altas temperaturas registradas neste ano – houve períodos de mais de 41º C no Pantanal em setembro.
Na pesquisa que está sendo realizada, a Embrapa está contatando propriedades rurais e verificando a possibilidade de perfuração de poços para que os açudes sejam cheios. O trabalho também está avaliando a repercussão das recentes chuvas de outubro e do início de novembro.
SECA E VOLTA DE CHUVA
A atual estiagem é considerada uma das cinco piores que o bioma já registrou. A situação foi diagnosticada durante reunião da Sala de Crise do Pantanal, que tem integrantes do Serviço Geológico do Brasil, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), do Grupo de Previsão de Tempo do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
A pior seca já enfrentada em mais de um século ocorreu entre 1963 e 1972, e em 1964 houve registro do mais baixo nível do Rio Paraguai.
Desta vez, a seca precisou de apenas um ano para quase atingir a marca histórica de -61 centímetros na régua de Ladário. O nível alcançou -59 centímetros.
Com as chuvas de outubro e de novembro, o nível do rio começou a subir e a régua em Ladário, da Marinha, registrou -17 centímetros em 15 de novembro, o que representa 2,19 metros abaixo do nível da régua.
Em Cáceres (MT), de onde a água desce para Corumbá, o nível está em 94 centímetros (positivos), 1,08 metro abaixo do nível.