Quando aceitou o convite do governador Reinaldo Azambuja para assumir a titularidade da Secretaria de Estado de Saúde, Geraldo Resende jamais imaginou que seria o comandante de uma batalha que envolveu toda a humanidade: a guerra contra a pandemia da Covid-19.
A missão inicial seria consolidar a regionalização da saúde, uma proposta de reorganização da assistência hospitalar em todo o Estado.
O coronavírus mudou os planos iniciais. Geraldo vinha de quatro mandatos consecutivos na Câmara Federal e ficou como primeiro suplente na eleição de 2018, mas poderia ter assumido a vaga, caso declinasse do convite do governador, já que a titular Tereza Cristina se licenciou para assumir o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Nesta entrevista, o secretário fala um pouco sobre as ações do governo contra a pandemia, o apoio dos profissionais da saúde, que ele chama de “verdadeiros heróis de guerra”, e um pequeno grupo de pessoas que luta contra a vacina: os negacionistas.
Perfil - Geraldo Resende Pereira
Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), entre 1976 e 1982, com especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), entre 1986 e 1988.
O secretário nasceu em Córrego Dantas, Minas Gerais, em 20 de abril de 1955.
Filho dos pequenos agricultores Hermenegilda Resende Pereira e Mario Batista Pereira.
Em 1991, decidiu ingressar na vida política, concorreu a uma vaga na Câmara Municipal de Dourados e venceu. De lá para cá, foi deputado estadual e federal e está na segunda gestão à frente da Secretaria de Estado de Saúde de MS.
Últimas notícias
CORREIO DO ESTADO – Secretário, Mato Grosso do Sul tem mais de 300 mil doses de vacina em estoque. Mesmo assim, com o passar do tempo, o ritmo das pessoas procurando pelos imunizantes vem caindo, o que o senhor acha que está acontecendo?
Geraldo Resende – A diminuição na procura se dá pela falsa ideia, de alguns, de que a pandemia já acabou, que tudo voltou ao normal e que praticamente não existe mais risco de contaminação, até pelo aumento do público vacinado.
A pessoa pensa: “Eu não me vacinei, mas a maioria das pessoas já está imunizada e eu não corro mais riscos”. Esse modo de pensar, aliado ao comodismo, faz com que muitos relaxem na busca de proteção da própria vida e daqueles com quem convivem.
O negacionismo tem sido um problema sério enfrentado pelo Brasil e que tem dificultado o combate à pandemia da Covid-19. Aqui em Mato Grosso do Sul ainda existe essa resistência em se imunizar?
Existe. Esse é outro fator que levou a uma estagnação nos números da vacinação.
Além do comodismo, da falta de informação sobre a necessidade da segunda dose e também da dose de reforço, o fato de parte da população tratar o assunto como uma questão ideológica é uma das causas que nos impedem de alcançar a imunização completa da população.
Houve muita campanha negativa por parte de algumas lideranças políticas nacionais e regionais, que se aproveitaram do desconhecimento da grande maioria das pessoas que recusam a imunização.
A outra parte, que usa de sua influência política para causar um certo terrorismo contra a vacina, age por pura má-fé. Na verdade, o negacionismo é a maior praga deste século. É aliado do obscurantismo, do coronavírus, da doença e da morte.
O senhor acha que será preciso adotar medidas para levar as pessoas a se vacinarem e, assim, quebrar o ciclo de contaminação pela doença?
Uma campanha publicitária bastante forte e arrojada, pelo Ministério da Saúde, já estaria de bom tamanho.
Porque, embora seja a Pasta responsável pela distribuição dos imunizantes para todo o País, ela mesma não fez, até agora, o mínimo esforço para esclarecer aos brasileiros ainda desconfiados a importância e a necessidade de cada um reforçar a sua imunidade contra o coronavírus.
O governo federal deveria ser o primeiro a colocar todos os seus agentes, principalmente o ministro da Saúde, para falar bem da vacina.
Sobre a Caravana da Saúde, já está fechada a programação com as datas e os municípios onde as ações serão realizadas?
A Caravana da Saúde desta vez terá uma nova formatação: em vez de concentrarmos os serviços em determinados locais, que demandam uma estrutura gigantesca e uma grande aglomeração e deslocamento de pacientes, vamos levar o atendimento o mais próximo possível dos cidadãos, ou seja, em seu próprio município.
Desdobramos a Caravana da Saúde em dois programas distintos – Opera MS e Examina MS –, e estamos finalizando os últimos detalhes relativos às datas e às localidades, que serão anunciadas nos próximos dias.
Mas serão disponibilizadas 67 modalidades de cirurgias eletivas que serão realizadas até outubro de 2022.
Ao todo, estão previstos quase 70 mil procedimentos em cerca de 39 municípios de Mato Grosso do Sul, que demandarão um investimento de R$ 60 milhões.
Temos, hoje, mais de 3 mil pessoas que aguardam na fila de espera por exames como ressonância magnética, tomografia computadorizada, colonoscopia, endoscopia e ultrassonografia.
O aumento dessa lista é resultado, em grande parte, da pandemia, que em muitos casos monopolizou os atendimentos em hospitais, clínicas, consultórios, laboratórios e outras unidades de saúde.
Com a redução dos casos de Covid-19 em que é necessário internação, não é mais comum ver as unidades de atendimento e os hospitais que atendem pelo SUS superlotados. Isso já seria reflexo da política de regionalização da saúde implantada pelo governo do Estado?
Mesmo durante a pandemia, temos procurado avançar na reestruturação da assistência hospitalar em nosso Estado.
Claro que em uma velocidade muito menor do que a que gostaríamos e que acreditávamos que aconteceria quando assumimos a Secretaria de Estado Saúde, em 2019.
Aliás, a regionalização da saúde foi a principal demanda que o governador Reinaldo Azambuja me apresentou quando assumi, garantindo todas as condições para que ela pudesse avançar.
Mas, até mesmo por causa da pandemia, conseguimos fazer parcerias muito boas com diversos municípios, levando equipamentos que antes os hospitais dessas localidades não dispunham.
Com o arrefecimento da Covid-19, essas estruturas começam a atender às demandas da saúde em geral, o que vem possibilitando que pacientes deixem de ser transportados para a capital e sejam atendidos em suas próprias cidades.
E o projeto Bem Nascer, como ele será executado?
Esse programa tem a primeira-dama estadual, dona Fátima Azambuja, como madrinha e conta com o engajamento de prefeitas, primeiras-damas municipais, bem como de toda a sociedade.
Ele foi idealizado com o propósito de reduzirmos, em Mato Grosso do Sul, a taxa de mortalidade materna para menos de 35 por 100 mil nascidos vivos, bem como da mortalidade infantil para um único dígito, até 2030.
Para tanto, o governo do Estado está investindo cerca de R$ 15 milhões. Deste total, R$ 11,6 milhões foram destinados à compra de aparelhos de ultrassonografia, que foram entregues na manhã desta sexta-feira (19) a 75 municípios sul-mato-grossenses.
Outra parte dos recursos será destinada à melhoria de estruturas físicas de atendimento à mulher nas 79 cidades do Estado.
O senhor optou por abrir mão da atividade como deputado federal para assumir a Secretaria de Estado de Saúde e de cara enfrentou a maior pandemia que o mundo já viveu. Em algum momento se arrependeu de ter feito essa escolha?
Eu sou um otimista inveterado. No fim de 2018, tínhamos enfrentado uma campanha eleitoral, da qual saí como primeiro suplente da minha coligação, após quatro mandatos consecutivos como deputado federal.
Poderia ter assumido a vaga, uma vez que a titular, Tereza Cristina, aceitou o convite para ser ministra da Agricultura e Pecuária. No entanto, recebi o honroso convite do governador Reinaldo Azambuja, que me apresentou um desafio: consolidar o processo de regionalização da saúde que tínhamos começado lá atrás, nos idos dos anos dois mil, e que depois não avançou como deveria.
Então, além de otimista, gosto muito de desafios e resolvi aceitar essa missão. Assumindo a secretaria, montamos uma equipe muito boa, com a missão de reorganizar a assistência hospitalar e ajudar os municípios a fazerem a sua missão principal no SUS, que é a saúde básica.
A pandemia nos tirou desse foco inicial, mas rapidamente nos readaptamos à nova realidade e encaramos de frente o comando da batalha, sem nenhuma trégua, trabalhando por vários meses seguidos até altas horas da noite nos dias da semana, aos sábados, domingos e feriados.
Tivemos e estamos tendo muita proteção divina, o que nos deu força, ânimo e coragem.
Também tivemos milhares de profissionais da área da saúde, tanto de âmbito estadual quanto dos municípios, prefeitos e prefeitas, secretários e secretárias municipais de saúde, verdadeiros heróis e heroínas, que formaram um grande exército nessa guerra que, graças ao bom Deus, estamos vencendo.
Portanto, em nenhum momento, mas nem por um segundo sequer, me passou pela cabeça qualquer tipo de arrependimento.
Já entramos na esfera política e estamos entrando no ano eleitoral, quais são os seus planos? Acredita que o fato de o trabalho da Secretaria de Estado de Saúde ser destaque nacional durante toda a pandemia pode lhe render dividendos políticos?
Conforme disse anteriormente, o que me fez aceitar a tarefa de trabalhar com o governador Reinaldo e toda a sua equipe foi a possibilidade de fazer um trabalho que pudesse dar uma saúde de melhor qualidade, mais próxima de onde vivem os cidadãos sul-mato-grossenses, ou seja, nos municípios do Estado.
O governador me deu algumas tarefas e assumiu o compromisso de dar todo o suporte para a realização desse trabalho. Portanto, não assumi a pasta da saúde com o objetivo de ter ganhos políticos.
No entanto, não resta dúvida de que o trabalho que fizemos, com o apoio de toda a equipe do governo, nos deu visibilidade, até porque foi positivo e ganhou destaque em âmbito nacional.
Vou continuar dedicando todas as minhas energias com o objetivo de cumprir as tarefas que me foram delegadas e, no ano que vem, partir em busca de uma nova missão.
Melhor se esse desempenho na Secretaria de Estado de Saúde tiver como resultado o reconhecimento da população e a vontade de me fazer novamente seu representante em outras áreas de atuação política.