Expulso da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, em março de 2018, por tráfico de droga, sentença aplicada em 1996, 22 anos atrás, o ex-oficial, tido na Europa como um dos maiores traficantes do planeta, agora é investigado por um atestado de óbito, que teria sido fraudado.
A apuração corre na Espanha, e o foco da investigação é o médico esteticista Pedro Martín Martos, acusado de ter assinado o documento da "morte" do ex-major.
O assunto foi publicado nesta segunda-feira (24) pelo portal UOL.
O colunista do site, Josmar Jozinho, diz que os dados do médico constam em um processo de mais de 6 mil páginas que tramita na Justiça da Espanha sobre tráfico internacional de drogas, envolvendo o Major Carvalho, chamado na Europa de "Escobar brasileiro" e apontado como um dos maiores narcotraficantes do mundo.
O UOL teve acesso à declaração de óbito.
O esteticista assinou o atestado da morte de Paul Wouter, um dos nomes falsos usados pelo Major Carvalho.
O ex-oficial ingressou na PM de MS no fim dos anos 1980 como comandante do batalhão militar de Amambai, área de fronteira de MS com o Paraguai.
Já ali, por volta de 1990, o ex-major já envolvera em atos ilícititos, o contrabando de pneus um deles.
O nome de um suposto amigo do "Escobar brasileiro", identificado como Francisco Jesus Pascual Montero, aparece no documento.
Segundo as autoridades espanholas, informou o UOL, Montero figura como testemunha no atestado de óbito e declarou que foi a última pessoa a ter visto Paul Wouter ainda vivo.
O suposto amigo do Major Carvalho também é alvo de investigação da Polícia Judiciária espanhola.
No atestado de óbito é mencionado que Paul Wouter seria um cidadão do Suriname, nascido em 16 de dezembro de 1965 e com endereço domiciliar em San Juan Bosco, em Marbella, Málaga.
O documento diz ainda que a morte ocorreu às 10h50 de 29 de agosto de 2020. Não citado, contudo, o motivo da eventual morte do ex-major.
Há informações de que o corpo foi cremado em Marbella, território espanhol.
Para as autoridades de lá, o Major Carvalho está vivo, falsificou documentos e passaportes com o nome de Paul Wouter e forjou a morte dessa pessoa.
Ele fez isso porque, segundo o UOL, foi preso com o nome falso de Paul Wouter em agosto de 2018, na Galícia, por tráfico internacional de drogas.
A quadrilha liderada por ele foi flagrada com 1,7 tonelada de cocaína escondida em uma embarcação
Paul Wouter foi condenado a 13 anos de prisão e saiu em liberdade após pagar uma multa de R$ 340 milhões.
Ele forjou a própria morte para se livrar de vez da condenação em território espanhol.
A Justiça espanhola considerou verdadeiro o atestado de óbito e o declarou como morto.
Mas a PF brasileira descobriu a farsa e avisou as autoridades daquele país. UOL tentou ouvir o médico suspeito, mas não conseguiu.
A coluna entrou em contato com o médico, por e-mail, para saber a versão dele sobre o caso. A resposta dele será publicada assim que houver um retorno.
O site da clínica afirma que Martos tem doutorado nas universidades de Granada e Málaga, master em Medicina Estética pela Universidade de Córdoba e formação também em Medicina Estética em Fortaleza, no Brasil
As autoridades espanholas investigam se o médico, quando estudou no Brasil, conhecia ou tinha amizade com o Major Carvalho
A Polícia Federal apurou que o "Escobar brasileiro" movimentou R$ 2,25 bilhões entre os anos de 2018 e 2020, tentando exportar 45 toneladas de cocaína à Europa.
No Brasil, o porto de Paranaguá (PR) era o preferido da quadrilha do Major Carvalho para as remessas de drogas ao Velho Continente.
No território europeu, os integrantes do bando escolheram com maior frequência o porto de Antuérpia, na Bélgica, e depois o de Roterdã, na Holanda
Ainda de acordo com a PF, para lavar o dinheiro arrecadado com o tráfico de cocaína, o "Escobar brasileiro" fretou até um Boeing F-400, de 400 toneladas, para importar da China 10 milhões de máscaras de proteção contra a covid-19 para o Brasil.
O cargueiro pousou no aeroporto der Florianópolis em 11 de junho de 2020
A PF apurou ainda que o Major Carvalho tentou importar 36 milhões de máscaras para o governo de São Paulo, por R$ 104,4 milhões, mas o negócio não deu certo porque houve atraso na entrega do material e a nota de empenho foi cancelada.