A Mancha Verde conquistou o título do Grupo Especial do Carnaval 2022 em São Paulo após apuração de notas realizada na tarde desta terça-feira (26), no Anhembi.
Com o samba-enredo "Planeta Água", a escola faz referência a Iemanjá, que nas religiões de matrizes africanas é a orixá das águas salgadas.
"Iemanjá! Iê-Iemanjá! / Rainha das ondas, senhora do mar! / Iemanjá! Iê-Iemanjá! / No azul dos teus mistérios eu também quero morar", diz o refrão, fazendo uma saudação a orixá.
A agremiação conquistou seu primeiro título no Grupo Especial no Carnaval de 2019, quando apresentou o samba-enredo "Oxalá, salve a princesa! A saga de uma guerreira negra", onde contou a história da princesa africana Aqualtune, e, por meio dela, discutiu escravidão, intolerância religiosa e direitos humanos.
No último Carnaval, em 2020, a escola esteve perto do título, terminando a apuração como vice-campeã.
Depois de dois anos de espera em razão da pandemia, o tradicional desfile das escolas de samba aconteceu na última sexta (22) e sábado (23), no Sambódromo do Anhembi.
Em meio a lágrimas e muita ansiedade, a alegria voltou a ser sentida pelos integrantes das agremiações.
Na primeira noite dos desfiles, as arquibancadas laterais estavam mais vazias do que em anos anteriores, mas isso não tirou o sorriso do rosto de quem estava no Anhembi.
A noite também foi marcada por atrasos e falhas técnicas.
Os problemas, porém, não diminuíram a empolgação e a emoção de sambistas e foliões pela volta ao sambódromo.
A Acadêmicos do Tatuapé espalhou cheiro de incenso pela avenida. A Mancha Verde animou a torcida, e a Colorado do Brás fez o público cantar alto nas paradinhas.
Se identificando somente como Pitica, uma senhora que compôs uma das alas da Acadêmicos do Tucuruvi, que homenageou a história do samba, afirmou que seu coração estava a mil, instantes antes de colocar os pés na avenida. "Este Carnaval não é somente para celebrar a festa, mas principalmente a vida."
Nesta primeira noite também desfilaram Colorado do Brás, Unidos de Vila Maria e Dragões da Real.
Já na segunda noite, o sambódromo estava bem mais cheio do que na véspera. Os desfiles foram marcados por um tom político, com críticas ao governo federal, e referências religiosas.
A crítica mais explícita à gestão de Jair Bolsonaro (PL) foi feita pela sexta escola a entrar na avenida, a Rosas de Ouro.
O último carro da agremiação mostrou um sósia de Bolsonaro que se "transformou" em um jacaré, referência a um pronunciamento feito por ele sobre a vacinação contra a Covid-19.
Quando uma enfermeira aplicou uma injeção no "presidente", um efeito de fumaça foi feito sobre ele, uma porta secreta girou e um jacaré apareceu.
Parte do público, motivado pelo protesto artístico, aplaudiu e passou a gritar "Fora, Bolsonaro". A Gaviões da Fiel, segunda escola a desfilar, também fez uma crítica ao governo, mas de forma mais velada.
O hair designer Neandro Ferreira, 55, desfilou usando terno e uma faixa semelhante às usadas por presidentes. Ao lado dele, uma componente da escola, de terninho e saia, também usava uma faixa. Ferreira estava em uma ala com integrantes representando militares, armados com fuzis.
O enredo da Gaviões, "Basta", falava da luta contra o racismo, o fascismo e as opressões. Antes do Carnaval, Ferreira disse em entrevista ao site F5 que desfilaria como um "Bolsonaro Gay".
"Vou vir como um Bolsonaro bem gay, bichíssima, dando muita pinta", afirmou. Após a repercussão da entrevista e de acusações de homofobia a Ferreira na internet, a Gaviões disse que o personagem que seria interpretado por Ferreira seria um "governante fascista qualquer".
Nesta segunda noite, os desfiles também foram marcados pelas referências religiosas e de mensagens de combate ao preconceito racial.
A Vai-Vai trouxe o samba-enredo "Sankofa", fazendo referência ao pássaro sagrado africano para ilustrar a necessidade de resgatar suas origens. A Mocidade Alegre abordou questões raciais e homenageou a sambista Clementina de Jesus.
A Águia de Ouro abusou das referências às religiões de matrizes africanas, e a Barroca Zona Sul trouxe um samba-enredo sobre o Zé Pelintra. Nesta noite também desfilou a Império de Casa Verde que contou a história da comunicação.