Mesmo sendo o Estado com o melhor desempenho na economia durante a pandemia e com previsão de atingir o terceiro melhor Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil neste ano, com um crescimento de 1,4%, o avanço econômico não é sentido por uma parcela carente da população de Mato Grosso do Sul, em razão da concentração de renda.
De acordo com o mestre em Economia, Eugênio da Silva Pavão, a pandemia agravou o cenário de pobreza no País.
“O desemprego cresceu, ocorreu a queda de grupos da classe média para a classe pobre e da classe pobre para a classe miserável, contrários às sugestões da Organização das Nações Unidas [ONU] e na contramão de grande número de países”, esclareceu Pavão.
O economista explicou que “com a política pública de saúde, a vacinação fez retornar parte da atividade econômica, mas com subempregos, empregos informais, e outras políticas que dificultam o retorno do bem-estar social, como a recusa de aposentadorias e das perícias, que dificultam o crescimento do emprego formal”, pontuou.
Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada na sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda média do trabalhador caiu 8,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O rendimento médio real foi estimado em R$ 2.548 no primeiro trimestre deste ano, ante os R$ 2.789 aferidos nos três primeiros meses de 2021.
Ainda de acordo com Pavão, “opções políticas estão no centro desse processo de empobrecimento, em conjunto com a inflação, que empobrece os mais vulneráveis, e o sistema tributário, que é outro fator de concentração de renda, ao ser centralizado em tributos de consumo, como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços [ICMS]”, disse o especialista.
RESULTADO
Com isso, pessoas que se encaixam nessa parcela carente da população se veem obrigadas a trocar seus hábitos de consumo, seja alimentação, seja moradia, como é o caso de Rosana do Amaral, 44 anos, líder da comunidade Lagoa.
Segundo ela, morar em uma favela foi a saída que encontrou para viver com o pouco que ganha com a reciclagem e com os bicos do marido, que é ajudante de obras.
“Veja bem, o salário mínimo hoje em dia não acompanha os gastos que uma família tem para viver. Com o mínimo, não dá para pagar aluguel ou uma parcela de uma casa, água, luz, alimentação e transporte. Meu marido conseguiu agora emprego, e mesmo assim não é muito. Então, viver aqui é o que conseguimos no momento”, relatou.
Rosana contou que, um dia antes de a reportagem do Correio do Estado visitar a comunidade em que vive, precisou queimar restos de fios de eletricidade que seu marido ganhou para poder vender o metal e ter dinheiro para comprar uma mistura e fazer uma refeição.
“Tem dias que pensamos: ‘Que jeito vamos dar hoje?’. Com os fios que eu vendi, consegui comprar um 1 kg de linguiça, aquela de segunda mão, que é mais barata. Falam que a economia está voltando, como? Se estamos vivendo com falta de emprego, nos alimentando como dá?”, desabafou.
O alto custo de alimentos está ligado ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que atingiu a maior marca para um mês de março desde 2015. De acordo com números do IBGE, Campo Grande apresentou 1,73% de alta em comparação com fevereiro.
Também moradora da comunidade Lagoa, Patricia da Silva, 29 anos, relatou à reportagem, emocionada, que são momentos difíceis que tem enfrentado ao lado de seu marido e seus seis filhos.
“Estou desempregada, vivemos com o que conseguimos ganhar com a reciclagem, que não é muito. Não gastamos dinheiro à toa, compramos o essencial, vivemos com arroz e feijão. Não sei quanto tempo faz que não temos um bife na panela”, desabafou.
POBREZA INFANTIL
Atualmente, Campo Grande tem mais de oito mil crianças residindo em favelas. Destas, 70% enfrentam a pobreza monetária extrema, informou a coordenadora da Central Única das Favelas de Campo Grande (Cufa), Letícia Polidorio.
“Esse número já é diferente em 2022, mas, em 2021, atendemos oito mil crianças pela Cufa e posso dizer que 70% vivem em extrema pobreza, com insegurança alimentar. Em muitos casos, não há nenhum tipo de saneamento básico ou moradia segura”, esclareceu.
Na definição do Banco Mundial, pobreza extrema significa viver com menos de US$ 1,90 por dia, e pobreza monetária, com menos de US$ 5,50.
No Brasil, a referência usada é de R$ 492 por mês como limite para a pobreza monetária e R$ 170 para a pobreza extrema.
Um estudo feito pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com dados de 2020 e 2021, aponta que a pandemia de Covid-19 foi um agravante no cenário nacional, que conta com 39% das crianças e dos adolescentes brasileiros vivendo em pobreza monetária e 10%, em pobreza extrema.
SAIBA
Algumas famílias da comunidade Lagoa estão precisando de alimentos básicos, como arroz, feijão, leite, entre outros. Quem quiser ajudar as famílias pode entrar em contato por meio do telefone (67) 99142-4564 e falar com a Rosana.