Com a vinda dos paraguaios para Mato Grosso do Sul e, neste contexto específico, para Campo Grande, a cidade ganhou com a inserção de aspectos importantes na cultura como hoje a conhecemos. Desse país podemos citar algumas fortes influências em nossas vidas, como o tereré, a sopa paraguaia, a chipa e o chamamé.
É comum andar pela cidade e encontrar diversas rodas de tereré, ou mesmo um solitário com sua cuia na mão. O consumo dessa bebida tradicional na cidade partiu dos paraguaios e integrou-se à rotina dos campo-grandenses.
“A gente tem uma identidade comum, que é a erva-mate, que vai ao norte da Argentina, Uruguai, Rio Grande do Sul, oeste do Paraná, [além do Paraguai e de Mato Grosso do Sul]”, conta o diretor cultural da Colônia Paraguaia de Campo Grande, Ricardo Cafure. Nos dois primeiros países, a bebida é consumida quente, o famoso chimarrão, assim como no Rio Grande do Sul.
Já no Paraguai, em Mato Grosso do Sul e em parte do Paraná, ela é servida na sua versão gelada, o tereré.
“A grande influência que eu vejo, além da sopa paraguaia e da chipa, é a do tereré, que é algo secular, uma economia muito forte nesta região, e essa influência vem principalmente por essa questão econômica. Éramos um dos maiores exportadores do mundo da erva, mandávamos para todo lugar, então, acho que o tereré talvez seja o mais forte dessa influência entre a região do Paraguai e a nossa região aqui”, declarou o historiador Roberto Figueiredo.
A região produtora da erva ficava ao sul de Mato Grosso do Sul, de Ponta Porã até perto de Dourados. “É claro que, a partir do momento em que temos Campo Grande como o centro político, todas essas influências vêm para cá, Campo Grande se torna um grande centro econômico, e quando ela se torna a Capital do Estado ela atrai todas essas raízes”, completa Figueiredo.
“Acredito que a influência da cultura paraguaia é muito forte. Hoje, acho que o campo-grandense toma tereré mais do que o paraguaio”, brinca o diretor cultural da Colônia Paraguaia.
CHIPA
Em Campo Grande, talvez até mais do que em muitas cidades de Mato Grosso do Sul, o consumo de chipa é algo corriqueiro, tanto que é possível encontrá-la quase que em toda esquina.
A delícia da culinária paraguaia adentrou pela fronteira e chegou até a Capital, onde virou tradição. Por ter baixo custo – já chegou a ser vendida a R$ 1,00 –, é amplamente consumida em qualquer horário do dia.
“Por causa da fronteira, a gente acaba pegando os costumes, é igual o tereré, é uma coisa que faz parte do Paraguai e virou patrimônio aqui”, diz a filha e neta de paraguaios Petrona Paula Gimenez Romeiro, que frequentemente visita seus familiares do outro lado da fronteira.
“A gente comemora o Dia do Povo Paraguaio no dia 14 de maio, é uma lei estadual, e aqui a gente sempre faz comemoração convidando as autoridades. Em uma oportunidade, veio a secretária de Turismo. Ela contou que leva, quando viaja para fora, para outros estados, outros países, para demonstrar a culinária sul-mato-grossense, a sopa e a chipa”, contou Cafure.
A receita da chipa que é difundida em Campo Grande não é exatamente a mesma que é consumida no país vizinho, segundo a descendente de paraguaios. “[A que temos aqui é uma] imitação da chipa, porque a chipa original é diferente”, afirma.
Petrona conta que, no Paraguai, a comida também leva um ingrediente diferente, a erva-doce, e que costuma ser feita no fogão a lenha porque, segundo ela, quando se faz no fogão a gás ela fica mais dura.
“A gente coloca o polvilho e os ovos e sova, depois acrescentamos a erva-doce, que ajuda a tirar o cheiro do ovo, e a margarina. Sovamos bastante, até ficar bem misturado e sem cheiro de ovo, só aí colocamos o queijo e o sal. E então colocamos para assar no fogão a lenha. Em 15 minutos fica pronto. Se não for no fogão a lenha, o forno tem que estar muito quente, senão fica dura”, explica Petrona.
A iguaria é parecida com o pão de queijo mineiro, mas a paraguaia decreta: “A chipa veio primeiro, daí veio o pão de queijo. Eu, particularmente, gosto mais da chipa, sou suspeita para falar”, brinca a aposentada, que já foi cabeleireira e diz que ama cozinhar.
SOPA PARAGUAIA
Também muito consumida em Campo Grande, a sopa paraguaia, que todos aqui sabem que não é uma sopa, mas, sim, uma torta de milho com queijo, é outra iguaria da culinária paraguaia que foi integrada na Capital como uma comida típica.
No Paraguai, segundo Petrona, a sopa paraguaia é consumida em datas comemorativas.
“É uma comida que se faz no fim do ano, no Natal, aniversário, quaresma, sempre em uma data importante, também acompanha churrasco. Quando tem visita, quase todo domingo, eu faço, só não faço se não tem ninguém”, conta a descendente.
A aposentada conta que aprendeu a receita com a mãe, que era filha de um paraguaio com uma brasileira. Como muitos paraguaios radicados em Campo Grande, a família dela veio de Porto Murtinho, onde há a maior colônia paraguaia do Estado.
“Minha mãe que me passou essa receita, nasci e me criei com isso aqui. Aprendi de criança, desde que me entendo por gente minha mãe fazia isso”, contou a aposentada.
Na receita paraguaia, no entanto, vai um tipo de milho não encontrado em Campo Grande, o milho saboró, por isso, Petrona conta que essa alteração já é necessária para se fazer a receita na cidade.
Sopa paraguaia
Ingredientes
- 6 espigas de milho saboró (ou milho verde);
- 1 litro de leite;
- 2 ovos;
- 3 cebolas grandes picadas;
- 250 g de milharina;
- 300 g de queijo curado ralado;
- 300 ml de óleo;
- sal a gosto.
“Primeiro, eu corto a cebola bem fina em fatias e frito com óleo. Enquanto ela frita, eu corto o milho [os dentes com uma faca] e coloco no liquidificador para bater com o ovo, tem gente que também rala o milho. Eu bato, mas deixo uns pedaços de milho. Depois que a cebola estiver frita, desligue o fogo, deixe esfriar um pouco e coloque o milho batido com o leite, o sal, o ovo e a milharina, até dar o ponto, e o queijo ralado”, explica Petrona.
Parte do queijo pode ser reservada para polvilhar por cima da sopa. No forno, a sopa assa por cerca de 30 minutos, ou até estiver cozida. “A sopa tem que ser servida quente, fria não fica bom”, orienta a descente de paraguaios.
“Meus vizinhos gostam, dizem que só eu faço desse jeito. Eu falo ‘claro, eu sou paraguaia, você quer o quê?’”, brinca a aposentada, que mora no Assentamento Santa Mônica, em Campo Grande.
Petrona tem três filhos e quatro netos e diz que todos gostam da receita, a qual ela gentilmente fez para o Correio do Estado. Apesar disso, ela disse que os filhos não aprenderam a fazer a iguaria. “Minha filha fez Medicina e brinca que estudou para não ter que cozinhar, ela não gosta muito, mas eu amo cozinhar”.
ORIGEM DA RECEITA
Apesar de ser uma receita muito tradicional no Paraguai, nem mesmo os descendentes conseguem ter unanimidade sobre como foi a sua criação. Segundo Petrona, a receita viria dos índios paraguaios.
“A origem vem dos índios, os índios que foram os primeiros habitantes do Paraguai e eles que inventaram”.
Já Albino Romero conta que a história é mais recente e que teria surgido na Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai, que começou em 1932 e durou até 1935.
“Cada um tem uma história, mas os historiadores mais antigos contam que, na época da Guerra do Chaco, um comandante mandou a empregada fazer uma sopa de legumes e tinha milho saboró, ela fez, mas ele adormeceu e, quando acordou de manhã, estava aquela massa, que endureceu e virou a sopa. O comandante falou ‘isso que vamos mandar para os soldados comerem, porque isso não estraga’. Uns levavam caldo, mas, com o calor do Chaco, transformava-se em bolo, então ela foi criada para os combatentes [soldados que lutaram no conflito]”, diz Albino Romero, presidente do conselho deliberativo permanente da Associação Colônia Paraguaia.
COLONIZAÇÃO
Além desse costume, essas regiões também estão ligadas porque chegaram a fazer parte, até 1750, da Coroa Espanhola. Isso por conta do Tratado de Tordesilhas, que dividiu a América do Sul entre Portugal e Espanha em 1494.
O acordo definiu que um meridiano estabelecido a 370 léguas de Cabo Verde seria a referência, e que as terras descobertas a oeste da linha imaginária pertenceriam aos espanhóis e as terras descobertas a leste pertenceriam aos portugueses.
“Mato Grosso do Sul, que era a província de Itatim, já foi parte da Coroa Espanhola. Assim como o Rio Grande do Sul também foi uma província que fazia parte da Espanha e, com o Tratado [de Madri] de 1750, houve essa divisão. Mato Grosso do Sul e o Rio Grande do Sul ficaram para a Coroa Portuguesa, e isso desencadeou uma série de fatos, houve uma Guerra Guaranítica, houve uma guerra entre Brasil e Argentina, de 1825 a 1828, disputando o Uruguai”, conta Ricardo Cafure.
Depois desse confronto entre Brasil e Argentina, o Uruguai ganhou sua independência e passou a ser tratado como um país.
DANÇA
Nessa região, as músicas também são muito semelhantes. Campo Grande, por exemplo, foi considerada a Capital do Chamamé, música que nasceu em Corrientes, na Argentina, mas se espalhou pelo Uruguai e pelo Paraguai até chegar ao Brasil.
A música faz parte da cultura de Mato Grosso do Sul, tanto que, em 2010, o governo do Estado instituiu o Dia Estadual do Chamamé, comemorado em 19 de setembro.
Neste ano, em março, Campo Grande foi reconhecida como a Capital Nacional do Chamamé, título concedido após sanção presidencial ao Projeto de Lei nº 4.528, de 2019.
O chamamé também é apreciado no Rio Grande do Sul. Por aqui, por conta da baixa presença de argentinos no Estado, esse estilo musical chegou com os paraguaios.
“O chamamé é argentino, veio de Corrientes, mas quem trouxe para cá foram os músicos paraguaios. Como a letra sempre é uma mistura do espanhol com o guarani, os paraguaios difundiram, porque você não vê argentino por aqui, então quem trouxe o chamamé? Os paraguaios. E aqui temos ótimos músicos”, declara Cafure.
No dia em que sancionou o projeto de lei, a Secretaria-Geral da Presidência da República afirmou que a medida representava uma homenagem à comunidade campo-grandense e um reconhecimento de todos aqueles que apreciam esse estilo musical.
“O estilo musical se consagrou, sobretudo, em Campo Grande, expandindo para algumas outras cidades e, posteriormente, por meio de entusiastas que passaram a se organizar em grupos de intérpretes. Entre eles, Zé Corrêa, precursor do chamamé, sendo o mais representativo e popular artista do gênero musical no Brasil entre as décadas de 1960 e 1970, tendo difundido o ritmo na capital sul-mato-grossense, de modo que restou instituído o Dia Estadual do Chamamé”, diz a nota da época.
Entre os elementos que deram origem a esse estilo musical, que foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 2020, estão as culturas guarani, afro-americana e europeia. Entre alguns estudiosos da expressão artística, há controvérsias sobre sua origem.
Alguns chamam o chamamé de polca correntina, em razão das experimentações musicais observadas na região de Corrientes, na Argentina, a partir de uma mistura entre guarânia e polca paraguaia – estilo cujo andamento em muito se assemelha ao do chamamé. O estilo carrega também alguns ritmos fronteiriços, como o do rasqueado sul-mato-grossense.
Os conjuntos chamamezeiros são geralmente formados por dois violões e um bandoneón, instrumento típico da orquestra de tango, que pode ser substituído pelo acordeão, também conhecido como sanfona.