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Cone sul vira principal entrada para cigarros contrabandeados

Dados da Receita Federal mostram que a partir de 2019, Mundo Novo teve um salto na quantidade de apreensões e "tomou" o lugar de Ponta Porã

O município de Mundo Novo ultrapassou Ponta Porã e se tornou a principal porta de entrada dos cigarros contrabandeados nos últimos anos em Mato Grosso do Sul, chamando a atenção de grupos e facções criminosas justamente pela sua posição geográfica privilegiada para o comércio ilegal, fazendo divisa o Paraguai e com o estado do Paraná.

Conforme dados de apreensões anuais de 2016 até este ano enviados pela Receita Federal ao Correio do Estado, nos primeiros anos analisados, mais especificamente entre 2016 e 2018, Ponta Porã dominava o cenário de apreensões, ao lado de Campo Grande. 

Nos três anos, a cidade fronteiriça registrou 73,7 milhões de maços retidos, que dariam R$ 362,8 milhões (de acordo com valor cotado na época), enquanto a Capital catalogou 99,7 milhões confiscados (R$ 488,6 milhões). 
Ao mesmo tempo, Mundo Novo somou “apenas” 28,9 milhões de maços de cigarros contrabandeados apreendidos (R$ 130,2 milhões).
Porém, a partir de 2019, começa a se observar uma mudança na tendência anterior, com Mundo Novo “roubando” o posto de Ponta Porã como a segunda cidade com maior números de maços ilegais retidos.

Naquele ano, foram 16,5 milhões cigarros confiscados (o que daria R$ 82,2 milhões aos bandidos) em Mundo Novo e, em Ponta Porã, foram 12,1 milhões apreendidos (R$ 60,8 milhões), enquanto Campo Grande continuou na liderança disparada.

No ano seguinte, de forma inédita, Mundo Novo conquistou a liderança no quesito, tendência que seria observada nos anos seguintes até atualmente. 

Para se ter ideia do aumento no fluxo de contrabando no município, foram apreendidos mais de 103,3 milhões de maços entre 2020 e 2025, o que corresponde a uma quantia de R$ 526,6 milhões.

Para efeito de comparação, no mesmo período, Campo Grande presenciou 34,4 milhões de maços retidos e Ponta Porã ficou na vice-liderança com 55,4 milhões confiscados, pouco mais da metade do apreendido em Mundo Novo, o que escancara que o município realmente se tornou a principal porta de entrada do ilícito no País.

Mesmo com uma população estimada de 20 mil pessoas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Mundo Novo chama a atenção pela sua posição no mapa.

A cidade é a última da região sul de Mato Grosso do Sul, o que lhe dá o privilégio de fazer fronteira com o estado do Paraná e com o Paraguai.Vale destacar que os cigarros ilegais que chegam ao Brasil são, em sua grande maioria, de origem paraguaia. 

Uma carteira de cigarros no Paraguai chega a custar cerca de R$ 1,20 se comprado no atacado, mas quando chega no Brasil as marcas são vendidas a cerca de R$ 4,46 (em média), o que representa um ganho que pode chegar a mais de 500%, dependendo do valor pago e do comercializado.

De acordo com pesquisas da Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), a marca mais vendida em Mato Grosso do Sul é o Fox. 

Vale destacar que o Fox não possui registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser comercializado, produzido ou distribuído no Brasil e, por isso, é considerado ilegal no País.

Nos primeiros quatro meses deste ano, Mundo Novo já registrou 3,7 milhões de maços apreendidos (R$ 23.749.784,50). 

Caso mantenha essa média até o fim do ano, a tendência é de que o município termine 2026 com 11,2 milhões de maços retidos. Campo Grande e Ponta Porã seguem “na cola” com 3,1 milhões e 2,8 milhões de maços de cigarros confiscados, respectivamente.

Fonte: Receita Federal 

FACÇÕES

Segundo o estudo O Novo Mapa do Contrabando: A Ascensão das Facções nos Mercados Ilegais, publicado pelo Idesf, foi apontado que as facções criminosas entraram de vez no mercado de contrabando de cigarros, tendência que foi observada principalmente nos últimos 10 anos.

A questão do contrabando ser um crime mais leve em comparação ao tráfico de drogas é um dos motivos para a entrada das facções em Novo Mundo.

Conforme consta no Código Penal, a prática de importar ou exportar mercadorias proibidas no Brasil prevê pena de 2 a 5 anos de reclusão, enquanto o tráfico de drogas é consideravelmente maior, de 5 a 15 anos de prisão.

Porém, o que mais chama a atenção das facções criminosas é o lucro diante do pouco investimento que precisa ser feito para contrabandear os cigarros. 

Ainda segundo o levantamento, o mercado ilegal entre Paraguai e Brasil chegam a ultrapassar os R$ 60 bilhões por ano, sendo que os cigarros e similares representam 34% dos principais itens apreendidos pela Receita Federal.

* Saiba

De acordo com a pesquisa do Idesf, o cigarro ilegal tem uma participação de 74% no mercado sul-mato-grossense. Em outras palavras, a cada 10 cigarros vendidos em MS, sete são ilegais.

Diante disso, o Estado deixou de arrecadar R$ 3,7 bilhões de 2019 até agora por conta do cigarro contrabandeado.

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