Cidades

SEGURANÇA

Três pessoas são vítimas de estelionatários a cada 2 horas

Criminosos usam técnicas novas para abordar as vítimas, tornando mais difícil a distinção entre o falso e o real, como no caso do golpe do falso advogado

Karina Varjão

16/07/2026 - 08h00

Em Mato Grosso do Sul, 6.635 pessoas foram vítimas de estelionato apenas este ano. Isto é, a cada 2 horas, três pessoas caem em golpes contra seu patrimônio. Segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), mais de 104 mil pessoas já foram vítimas do crime no Estado na última década.

De acordo com a Sejusp, em menos de 10 anos, o número de alvos dos criminosos triplicou. Os registros passaram de 4.270, em 2016, para 15.043, em 2024, um crescimento de 252%.

Para o advogado Vinicius Ferreira, o aumento dos golpes está ligado principalmente ao meio digital, causando mudanças na forma como os crimes são praticados.

“O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 2.166.552 estelionatos no País em 2024 e apontou crescimento de 408% desde 2018, ao mesmo tempo em que os roubos diminuíram 51%. Esses dados revelam uma transformação da criminalidade patrimonial: parte dos golpes passou a ser praticada a distância, sem contato físico e com possibilidade de alcançar várias pessoas simultaneamente”, explicou ao Correio do Estado.

Entre as práticas que vêm se tornando comuns, o golpe do falso advogado está ganhando força em Mato Grosso do Sul e foi tipificado como crime pela Câmara dos Deputados em março deste ano.

Os criminosos se aproveitam da vulnerabilidade de pessoas que buscam apoio jurídico e enviam mensagens pelo WhatsApp solicitando adiantamentos financeiros para o recebimento de alvarás ou liberação de indenizações.

Um relato anônimo à reportagem mostrou que os golpistas têm acesso a processos reais e se valem de informações verdadeiras das vítimas, o que torna mais difícil distinguir o que é golpe e o que não é. 

A vítima contou que recebeu uma mensagem de uma suposta advogada afirmando que o caso em andamento havia sido julgado e a causa, ganha. Assim, precisava da confirmação dos dados bancários para que fosse debitado o valor da causa.

“Eu realmente tinha um processo em aberto esperando julgamento e, surpreendentemente, eles mandaram o nome correto da empresa que estava do outro lado do processo. Inclusive, citaram o nome verdadeiro da minha advogada. Eu bloqueei o número. No dia seguinte, eu recebi outra mensagem de outro número falando em nome do escritório da minha advogada, pedindo novamente os meus dados. Eu só não caí no golpe porque meu marido estava em contato com nossa advogada verdadeira”, contou.

Ferreira comenta que essa mistura de informações falsas e reais é o que torna o golpe convincente. Os dados podem ser retirados pelos criminosos de consultas públicas, redes sociais ou, até mesmo, de forma ilícita.

Para Ferreira, essa transformação dos crimes acompanha uma sociedade cada vez mais digitalizada.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 90,5% dos brasileiros com 10 anos ou mais utilizaram a internet em 2025. Por sua vez, mais de 170 milhões de pessoas utilizam o Pix, de acordo com o Banco Central.

“Isso não significa que a internet ou o Pix sejam as causas do crime, mas que o aumento das relações pessoais, comerciais e financeiras no ambiente digital também ampliou as oportunidades exploradas pelos criminosos”, afirmou o advogado.

02 0726 0214 APP Celular GOUso constante da tecnologia tem facilitado os golpes - Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

O QUE FAZER

Para evitar cair em golpes, algumas medidas podem ser tomadas, mesmo em situações que pareçam inofensivas.

“A principal orientação é que o cliente nunca faça pagamento com base apenas em uma mensagem recebida de um número novo. Deve entrar em contato com o advogado pelo telefone que já utilizava anteriormente ou comparecer ao escritório. A regularidade profissional também pode ser consultada nas ferramentas da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], mas a simples existência de inscrição válida não confirma que a pessoa que está enviando a mensagem seja realmente aquele advogado”, explicou Ferreira. 

O advogado também ressalta que a liberação de valores judiciais não é condicionada à realização de nenhuma transação bancária (Pix, transferências) para uma pessoa indicada pelo WhatsApp e que todo pedido de pagamento deve ser confirmado diretamente com o advogado em um canal seguro e conhecido.

*SAIBA

Desde o mês de abril de 2025, a OAB tem mantido uma campanha permanente de enfrentamento ao golpe do falso advogado e disponibiliza a plataforma ConfirmADV, que permite à população verificar se está em contato com um profissional regularmente inscrito na Ordem. 

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