Estudantes relatam água acumulada em sala, problemas em banheiros, presença de escorpiões e mudanças acadêmicas; protesto está marcado para quinta-feira (13).
Estudantes do curso de Medicina da Uniderp, em Campo Grande, preparam uma manifestação para esta quinta-feira (13) em meio a uma série de reclamações sobre as condições oferecidas durante a graduação. Entre as reivindicações estão problemas de infraestrutura, organização do internato, mudanças acadêmicas ao longo do curso e a implantação de uma nova avaliação que, conforme os acadêmicos, poderá interferir diretamente na progressão dos alunos.
Imagens encaminhadas à reportagem mostram problemas de infraestrutura em dependências utilizadas pelos estudantes, entre eles água acumulada no piso de uma sala, danos no forro de banheiro e sinais de infiltração e desgaste.
Os acadêmicos também enviaram registros de escorpiões encontrados nas instalações da instituição.
Registro encaminhado por estudantes mostra água acumulada no piso de uma sala da Uniderp, em Campo Grande (Foto: Divulgação).As queixas ganham peso, conforme os estudantes, diante do custo da graduação. A mensalidade de Medicina chega a aproximadamente R$ 14 mil, podendo cair para cerca de R$ 12,6 mil com desconto. Para o grupo, os valores cobrados não estariam sendo acompanhados pela estrutura e pelos serviços esperados de uma graduação desse porte.
Problemas no forro de banheiro estão entre as situações registradas por estudantes do curso de Medicina (Foto: Divulgação).A mobilização, porém, não está restrita às condições físicas da universidade. Os acadêmicos afirmam enfrentar mudanças e incertezas durante a graduação, com reflexos sobre critérios de avaliação, organização acadêmica e planejamento do próprio percurso até a conclusão do curso.
Outra reclamação envolve o aprendizado. Estudantes dizem recorrer a cursos preparatórios, plataformas digitais e materiais externos para complementar a formação e alcançar o desempenho exigido em avaliações, inclusive no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed).
Escorpião foi encontrado nas dependências da universidade, conforme registro encaminhado por estudantes (Foto: Divulgação).Também são apontados problemas relacionados ao internato médico, etapa em que os alunos passam a atuar de forma supervisionada em ambientes de atendimento. Entre as reclamações estão organização das atividades, professores, cumprimento de horários e alterações de carga horária.
Estudantes também relatam problemas nas condições de banheiros utilizados pelos acadêmicos (Foto: Divulgação).Nova avaliação vira ponto de tensão
Em meio às diferentes reclamações, a criação da Avaliação de Progressão por Competências (APPC) tornou-se um dos principais pontos de tensão entre estudantes e universidade.
A insatisfação chegou ao campo jurídico. Acadêmicos que ingressaram no primeiro semestre de 2023 e em períodos anteriores à Resolução CNE/CES nº 3/2025 elaboraram uma notificação extrajudicial dirigida à Reitoria da Uniderp e à coordenação do curso de Medicina.
O documento pede esclarecimentos, acesso a documentos institucionais e a suspensão da aplicação da nova sistemática às turmas anteriores à resolução.
Conforme relatado pelos alunos na notificação, eles foram informados de que a APPC funcionaria como um exame abrangente, semelhante ao Enamed, e exigiria desempenho mínimo equivalente à nota 7 ou determinado número de acertos em cada etapa.
O ponto que provoca maior preocupação é a consequência de um resultado abaixo do exigido. De acordo com a versão apresentada pelos estudantes no documento, a nota mínima seria necessária para a progressão acadêmica.
Assim, mesmo aprovado nas disciplinas, módulos e estágios previstos na matriz curricular, o aluno que não atingisse o desempenho exigido na APPC poderia ficar retido e, dependendo da etapa, impedido de ingressar no internato.
A notificação sustenta, entretanto, que a Resolução CNE/CES nº 3/2025 prevê uma avaliação somativa abrangente antes do início do internato, destinada a verificar se o estudante possui competências mínimas para atuar sob supervisão, mas não estabeleceria, segundo a interpretação apresentada pelos acadêmicos, nota mínima de 7 nem retenção automática.
Esse é justamente um dos pontos que os estudantes querem que a universidade esclareça. A notificação solicita que a instituição indique qual dispositivo legal, regulamentar ou contratual permitiria utilizar a APPC como requisito eliminatório para estudantes que começaram o curso antes da vigência das novas diretrizes.
Também são cobradas explicações específicas sobre a nota 7, eventual retenção, impedimento de progressão e bloqueio do acesso ao internato.
Alunos contestam aplicação às turmas antigas
Outro questionamento está relacionado ao momento em que a nova regra passaria a valer. Os estudantes recorrem ao artigo 39 da Resolução CNE/CES nº 3/2025, que trata da adequação dos cursos de Medicina às novas diretrizes.
Na interpretação apresentada na notificação, a regra de transição direcionaria as novas determinações às turmas abertas depois do início da vigência da resolução. Por isso, o grupo questiona a aplicação da APPC, com caráter eliminatório, aos estudantes que ingressaram anteriormente.
Além das explicações, os acadêmicos pedem acesso ao Projeto Pedagógico do Curso vigente quando a turma de 2023 ingressou, ao regulamento da APPC e aos atos administrativos que instituíram a avaliação.
A lista inclui ainda atas de órgãos acadêmicos, parecer técnico-pedagógico, eventual parecer jurídico, critérios de correção, número de tentativas, possibilidade de recuperação e justificativa para a fixação da nota mínima 7.
Enquanto essas questões não forem esclarecidas, os estudantes solicitam que a universidade não aplique consequências que impeçam a progressão acadêmica exclusivamente por causa do resultado na APPC.
A notificação estabelece prazo de dez dias úteis para uma resposta escrita e fundamentada da instituição.
Caso não haja uma solução administrativa, o documento menciona a possibilidade de adoção de medidas judiciais, entre elas ação com pedido de tutela de urgência, mandado de segurança, ação para questionar atos internos e comunicação aos órgãos responsáveis pela supervisão do ensino superior.
“Não se trata apenas de alunos que não querem fazer uma prova”
Os organizadores da mobilização ressaltam que a APPC é apenas uma das reivindicações e rejeitam a interpretação de que o protesto tenha sido motivado simplesmente pela resistência a uma nova prova.
A questão da APPC é apenas uma das nossas reivindicações, a gota d'água em uma maré de carências, afirmam os estudantes.
O grupo diz não ser contrário à realização de avaliações, mas reivindica maior previsibilidade sobre as regras acadêmicas e melhorias nas condições oferecidas ao longo da formação.
A manifestação é sobre qualidade de ensino, infraestrutura, transparência, condições de formação, organização acadêmica e respeito aos estudantes.
A própria notificação extrajudicial registra que o movimento não pretende se opor às avaliações institucionais nem interferir na autonomia didático-pedagógica da universidade.
O argumento apresentado é de que alterações substanciais nas regras de progressão precisam observar a legislação educacional e as condições acadêmicas aplicáveis aos estudantes.
A manifestação está prevista para ocorrer nesta quinta-feira (13) e deverá reunir estudantes de Medicina no campus da Uniderp, em Campo Grande.