A primeira resposta que surge em nossa mente é que somos de Deus. Pois ele é o senhor de nossos pensamentos, de nossa história e de nossa vida. É ele quem criou todas as coisas. É ele quem alimenta os pássaros do céu. É ele quem dá beleza às flores. É ele quem ilumina as criaturas para chegarem à plenitude.
Contudo, essa é apenas uma face da realidade. Uma face que empolga e encanta, pois enaltece o poder que Deus possui em face da realidade humana. Tudo o que realiza em favor do ser humano tanto pode ser aceito e assumido quanto pode ser rejeitado e negado. E Deus continuará o mesmo. Só o ser humano terá de procurar e construir um caminho que lhe satisfaça e garanta um modo pessoal de viver.
Existe outra face e revela outra realidade. O ser humano, por ser livre, pode criar para si outro deus. Um deus ao qual também prestará seu culto, submeterá seus anseios e estabelecerá suas metas e projetos. Esse deus possui muitos nomes. Pode ser o dinheiro, o poder, o prazer, o êxito, a realização profissional, a ascensão social e até a política. São deuses dominadores. Não dão sossego. São exigentes e egoístas. Não permitem parceria. E se manifestam na hora de alguma escolha importante e séria.
Narra o Evangelho que um grupo de fariseus elaborou um plano para surpreender o Mestre em alguma afirmação ou em algum posicionamento diante da realidade do povo. O império se encontrava em crise. O povo andava descontente com a carga de impostos e taxas cobrados. Apresentaram a moeda do imposto e perguntaram: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus. Dize-nos o que pensas: é lícito ou não pagar o imposto a César?”. O Mestre percebeu a malícia deles e respondeu: “Hipócritas! Por que vocês me tentam? Mostrem-me a moeda do imposto”. E eles mostraram. E o Mestre continuou: “de quem é a figura e a inscrição nessa moeda?”. E eles responderam: “de César”. E ele lhes disse: “Pois deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. (Mt. 22, 15-21)
E encerrou-se o assunto. Dar a César o que é de César é ser cidadão exemplar e contribuir honestamente para o bem comum. A moeda e os impostos têm a imagem do poder político.
O ser humano tem a imagem de Deus. É feito à imagem e semelhança de Deus. Terá Deus como único Senhor. Tudo o mais será relativo, mas necessário para realizar sua vocação de membro da sociedade e filho de Deus Pai.
Os fariseus e os demais inimigos do Mestre queriam questionar a única verdade de que tudo a Deus pertence. Queriam com suas falsas dúvidas desviar o modo de pensar e de agir daquele que era muito querido e estimado pelo povo simples e humilde. A sociedade não pode continuar desconhecendo a realidade sofrida de tantas pessoas mantidas escravas da ignorância, desconhecedoras de seus direitos e dominadas por espertalhões detentores do poder e dos recursos materiais.