Duas notícias aparentemente díspares entre si publicadas semana passada na imprensa nacional dão uma ideia sobre o atual momento político, social e econômico que o Brasil atravessa e daquilo que poderá ocorrer nos próximos quatro anos do governo Dilma. A primeira se refere ao crescimento da miséria no Brasil da ordem de 3,8% que ocorreu no ano passado – após dez anos de estabilização –, conforme dados divulgados pelo Ipea. Assim, o total de pessoas que vivem na extrema pobreza passou de 10.081.225, em 2012, para 10.452.383 no ano passado. Mas, por outro lado, o número de pessoas consideradas pobres caiu de 30,35 milhões em 2012 para 28,69 milhões em 2013 – uma redução de 5,4%.
A segunda, conforme revela estudo da Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotivos), diz que a frota de autoveículos no Brasil deverá atingir a cifra de 95 milhões de unidades para uma população de 226 milhões de habitantes em 2034. Assim, é de se esperar que daqui a vinte anos haja um automóvel para cada 2,1 brasileiros! Mas qual o significado disso para o futuro do País?
Evidente que a primeira notícia preocupa mais, pois afeta justamente a parcela mais carente da população brasileira que vinha experimentando crescente ascensão social nos últimos anos do governo petista. No frigir dos ovos, porém, não necessitaria qualquer pesquisa do Ipea para constatar que o número de miseráveis aumentou no Brasil de dois ou três anos pra cá.
Basta percorrer as ruas de Campo Grande, MS, e provavelmente de outras cidades de portes médio e grande brasileiras, para verificar o crescimento de ambulantes nas ruas, de favelas na periferia, de moradores sem teto que se acotovelam no centro das grandes cidades brasileiras como em São Paulo, Capital, por exemplo. É verdade que em paralelo ao ressurgimento da miséria, apareceu também o que se poderia chamar de “uma nova classe média brasileira”, com status social e poder de compra, mas que infelizmente – ou porque não tiveram tempo ou condições de ascender na escala social do ponto de vista educacional e cultural – são o que se poderia chamar de “novos-ricos do sistema capitalista selvagem”.
Em relação ao crescimento do número de miseráveis no País pode ser que falte maior fiscalização por parte do governo federal para coibir que parte daqueles que ascenderam na escala social e “viraram” classe média, continuem a receber indevidamente auxílios do governo federal (auxílio-moradia, bolsa família, etc.). Também é fundamental que se reforce esses mesmos programas sociais para estratos mais pobres da população (os miseráveis) que ficaram a descoberto deles nos últimos dois anos pelo menos. Quanto à perspectiva de crescimento na frota de veículos automotivos para os próximos anos, conforme estudo da Anfavea, é sem dúvida uma boa notícia para a indústria automobilística nacional e para a economia do País.
No entanto, ela deixa antever dois grandes problemas pela frente: o primeiro é que as ruas das cidades brasileiras hoje já apinhadas de carros se transformem em formigueiros de veículos, aumentando substancialmente a poluição do ar; o segundo é que esse boom de automóveis deverá dificultar sobremaneira a implantação de modelos alternativos de mobilidade urbana. E durma-se com um barulho desses!