Artigos e Opinião

CRÔNICA

Theresa Hilcar: "O passado que me condena"

Theresa Hilcar: "O passado que me condena"

Redação

02/12/2014 - 00h00

Reclamei durante quatro dias seguidos. No quinto amanheci perplexa comigo mesma. Por que reclamar de ausências em vez de exaltar as presenças?

O ser humano é mesmo estranho e incoerente. Está sempre pensando no que já foi ou então no que virá. Foi quando me lembrei de uma história zen. Dois monges estavam na margem de um rio, quando chegou uma jovem linda e pediu ajuda para atravessar as águas. 

O  mais velho, delicadamente, ofereceu-lhe as costas, a jovem subiu e eles atravessaram o rio. Ela se despediu e agradeceu. Muitos quilômetros depois, o mais novo, cheio de  cólera, abordou o monge mais velho: “Como o senhor comete um ato como esse? O  senhor sabe que nós não podemos tocar numa mulher!”. O outro monge respondeu: “Mas a moça ficou para trás há muito tempo, é você quem continua carregando-a nas suas costas”. 

A metáfora caiu feito uma luva. Eu estava carregando não apenas uma, mas várias pessoas nas minhas costas. O pior é que elas nem sabem disto. Ninguém advinha o quanto nos magoa uma ausência, a desculpa esfarrapada, o motivo banal.

A tendência do ser humano é sempre a mesma: cuidar das próprias coisas, dar atenção ao que lhes diz respeito, o que importa para ele. E quem pode culpar as pessoas, afinal? Eu  também sou assim. 

Eu também olho bastante para meu umbigo, embora devo  confessar, tenho feito um certo esforço para sair dele. Mas detesto sair de casa  durante a noite, não suporto mais conversas sem sentido e faço qualquer coisa para não ir aos lugares onde preciso me expor. Certo é que não sirvo de parâmetro: tenho fobia social. E se forçar a barra entro em parafuso.

Um amigo querido, do alto dos seus setenta e poucos anos, escreveu sobre sua ausência, num e-mail curto e preciso. Melhor, precioso: “Não fui minha amiga, pois vive em mim uma preguiça interminável. Fiquei freguês da própria caverna, ermitão de mim mesmo. Procurei explicações para lhe dar e não achei nenhuma consistente.  Sabia que iria soar falso, se explicasse. Preferi o silêncio”. 

Ele é o monge mais sábio. Eu sou o que carrega o passado. Que continua inventando números, contando as faltas, relembrando os motivos que, a meu ver, não foram convincentes. É que a mente,  além de mentir, tem uma função muito específica na vida da gente: inverter a ordem das coisas e provocar o caos.

Na meditação do dia peço perdão aos amigos que contei nos dedos. E agradeço, com  absoluta sinceridade, aqueles que me abraçaram de perto. E imploro para que a mente se aquiete e me libere para amar, simplesmente porque somos todos um. Mas logo vem um pensamento contrário que me tira do foco. Ele vem de carona com o resquício de baixa autoestima do passado. E cisma de ficar.

São as sombras que a gente carrega e nem percebe. Não nos curvamos nem com o peso excessivo da carga. Eu queria muito saber como começa tudo isto. Em que margem do rio eu deixei meu coração cair.

Meu mestre diz que a maioria do nosso comportamento é uma espécie de vingança do  passado.

Das coisas que nos marcaram profundamente e não soubemos – ou não pudemos – falar. Das ausências, desafetos, desatenção, da falta enfim. Emoções e sentimentos que ficam nos perseguindo ao longo do tempo, levando a nossa atenção sempre para longe e para trás. Em vez de gastar energia com o que já passou, melhor focar no presente. Por isto respiro profundamente e digito o ponto final da crônica. E paro de reclamar. 

 

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