“Ontem choveu no futuro”, anteviu Manoel de Barros. Sob a luz do poeta, temos várias razões para celebrar no “FestCine América do Sul”, após o que se plantou na sua primeira edição, em 2013, fruto de toda uma tradição do audiovisual, que a ACV/MS soube catalisar por meio de uma estratégia que transformará a cena cultural em nosso estado (de espírito).
Velhas bandeiras que mobilizam, até aqui, pesquisadores, realizadores, artistas e intelectuais sul-mato-grossenses como José Octávio Guizzo, Mária da Glória Sá Rosa e nosso saudoso poeta maior Manoel de Barros, que abriram as janelas da utopia para as novas gerações desfrutarem, hoje são conquistas efetivas que projetam o Estado no circuito cinematográfico do País.
Temos toda a matéria prima que o cinema precisa: uma luz própria, única, uma natureza exuberante, uma história misteriosa a ser levada para as telas, uma memória reveladora, o feitiço das fronteiras, o legado indígena milenar e uma banda sonora extremamente original que embala uma região, cuja expressão exige singulares narrativas.
Hoje, enfim, podemos visualizar no horizonte, sem devaneios, a tão sonhada criação de um curso de cinema, que vai atualizar um movimento com raízes fecundas em Campo Grande, que pratica o cineclubismo desde os anos 70, assim como a implantação da Film Comission, um instrumento poderoso para estreitar a distância entre arte e mercado, conferindo ao cinema um espaço na economia criativa.
A reativação do Cine Campo Grande, dentro de um movimento nacional de resistência e recuperação das salas de cinema de rua, é outro motivo para comemorarmos neste fórum legítimo que é o festival, que tem sabido contemplar e convergir as vertentes que refletem a pluralidade da produção atual. Aliada ao cinema, a televisão educativa é outro canal essencial para a formação e difusão de conteúdos independentes.
Não podemos ignorar mais seu papel nesse movimento que abraça todas as mídias acessíveis, públicas e privadas, como forma de comunicação interdisciplinar. Só vamos ocupar um lugar no mapa autoral se a TVE cumprir seu ideal e se alinhar à rede, configurando-se como laboratório dramatúrgico e experimental.
De olho no tripé produção, exibição e distribuição, que move o fluxo da chamada sétima arte, sem perder de vista a perspectiva da memória artístico-cultural, o “Festival América do Sul” consolida a cada edição sua dimensão continental, constituindo-se assim num espaço de intercâmbio entre miradas inconformistas e libertárias.
Neste roteiro de longa-metragem, fruto de uma luta de longa data, dá pra imaginar as próximas sequências que devem aperfeiçoar conquistas como o FIC, o MIS, para se desdobrar em editais e linhas específicas para a produção audiovisual. O que era delírio de visionários, hoje, torna-se realidade a cada encontro que envolve a comunidade inquieta, sensível e pensante de nosso Estado.
Na condição de cineasta sul-mato-grossense, que já viu muitos filmes abortados e com final infeliz, vou enfim realizando-me, sentindo na pele e experimentando essa colheita alentadora, que renova o espírito inventivo. Ao voltar para o quintal e lavar a alma para transfigurar o imaginário, dou-me conta do quão vale a pena acreditar no poder transformador da arte. Como dizia o poeta, antes arte do que tarde!
*Cineasta