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opinião

"Maneco: Ponte ou Aquário? O impossível diálogo do possível"

Sylvia Cesco - Professora

Redação

07/12/2014 - 00h00

Dois projetos estão caminhando pelos recantos da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, com um bonito propósito: eternizar o nome do Poeta Manoel de Barros. Um é para dar nome ao Aquário do Pantanal, em Campo Grande, e o outro a uma ponte sobre o Rio Paraguai, em Porto Morrinho. Na iminente impossibilidade de se dar o nome de uma mesma pessoa a duas obras, criou-se um impasse: Aquário ou Ponte? Ponte ou Aquário? Se tivéssemos o dom de ouvir o Poeta, depois do seu falecimento em 14/11/2014, por certo que ele nos responderia tão somente com aquele seu sorriso infantil de quem está achando tudo uma grande brincadeira: ‘-E eu sou lá gente de dar nome às coisas? 

-Você, não, meu Poeta, mas os homens, sim... 

-Mas essa gente não entendeu “Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças, nem barômetros? Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós?”

-Não, meu Poeta, não entendeu.

-É, estou vendo que ... “É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez”.

-Verdade, meu Poeta. Mas vamos lá: Aquário ou Ponte? Ponte ou Aquário? 

-Então, “minha independência tem algemas?” 

-Não exagere, Poeta. Coragem... 

-Mas eu já disse que “As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças...”

-As suas crianças. Não as nossas, Poeta, não as nossas. 

É que “As coisas muito claras me noturnam”.

- Não desconversa, Maneco... Vamos logo com isso... Aquário ou Ponte? Ponte ou Aquário?

-“Dou respeito às coisas desimportantes”

-Nós sabemos, Poeta, nós sabemos. Mas, espia só: o Aquário “Manoel de Barros” será o maior de água doce do mundo. Lá , nós e o mundo inteiro – caminharemos por um túnel de 70 metros, por onde poderemos apreciar a natureza dos rios Paraguai, Miranda e Piquiri, com 12,5 mil peixes de 135 espécies...

-“Parede que me seduz é de tijolo, adobe, reposto ao abdômen de uma casa. Eu tenho um gosto rasteiro de ir por reentrâncias, baixar em rachaduras de paredes por frinchas, por gretas – com lascívia de hera”...

-Calma, Poeta, ainda não te contamos tudo... No seu Aquário, também haverá um museu interativo , telões de 3D, em que se poderá ver a evolução do mundo , com destaque para imagens de mais de sete mil animais de centenas de espécies...

- Vai ter lagartixa? 

- Vai.

- Vai ter outros répteis?

- Vai. E outros invertebrados e mamíferos também... “pernas de grilos pregados nas pedras. (...) Pequenos caracóis (...) lesmas...”

 – “Asas misgalhadinhas de borboletas?”(...) “Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?”

- Podemos ver isto.

-É que “Uma espécie de gosto por tais miudezas me paralisa(...) Sinto “Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.

- Já sabemos disso.

-Também tenho “Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.”

- Respeitaremos essa mania. E quanto à Ponte? O que nos diz?

-“Entendo bem o sotaque das águas” “Uma rã se achava importante porque o rio passava nas suas margens...” (...) “Para subir os barrancos de um rio, eles percorrem um dia inteiro até chegar amanhã.”

- Pois então... Uma ponte por onde passaremos nós e suas criaturinhas também é importante...

-Mas... “que haja por perto brejos e iguarias de brejos”

- Combinado.

-Porém, que fique definitivamente claro: “minhas disfunções líricas acabam por dar mais importância aos passarinhos do que aos senadores”.

- Tá certo.

E tem mais: que a ponte seja para “avançar para o começo. Chegar ao criançamento das palavras...”

- Fechado...

-“Sou – que doideira – um louco sem juízo.”

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