Dois projetos estão caminhando pelos recantos da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, com um bonito propósito: eternizar o nome do Poeta Manoel de Barros. Um é para dar nome ao Aquário do Pantanal, em Campo Grande, e o outro a uma ponte sobre o Rio Paraguai, em Porto Morrinho. Na iminente impossibilidade de se dar o nome de uma mesma pessoa a duas obras, criou-se um impasse: Aquário ou Ponte? Ponte ou Aquário? Se tivéssemos o dom de ouvir o Poeta, depois do seu falecimento em 14/11/2014, por certo que ele nos responderia tão somente com aquele seu sorriso infantil de quem está achando tudo uma grande brincadeira: ‘-E eu sou lá gente de dar nome às coisas?
-Você, não, meu Poeta, mas os homens, sim...
-Mas essa gente não entendeu “Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças, nem barômetros? Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós?”
-Não, meu Poeta, não entendeu.
-É, estou vendo que ... “É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez”.
-Verdade, meu Poeta. Mas vamos lá: Aquário ou Ponte? Ponte ou Aquário?
-Então, “minha independência tem algemas?”
-Não exagere, Poeta. Coragem...
-Mas eu já disse que “As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças...”
-As suas crianças. Não as nossas, Poeta, não as nossas.
É que “As coisas muito claras me noturnam”.
- Não desconversa, Maneco... Vamos logo com isso... Aquário ou Ponte? Ponte ou Aquário?
-“Dou respeito às coisas desimportantes”
-Nós sabemos, Poeta, nós sabemos. Mas, espia só: o Aquário “Manoel de Barros” será o maior de água doce do mundo. Lá , nós e o mundo inteiro – caminharemos por um túnel de 70 metros, por onde poderemos apreciar a natureza dos rios Paraguai, Miranda e Piquiri, com 12,5 mil peixes de 135 espécies...
-“Parede que me seduz é de tijolo, adobe, reposto ao abdômen de uma casa. Eu tenho um gosto rasteiro de ir por reentrâncias, baixar em rachaduras de paredes por frinchas, por gretas – com lascívia de hera”...
-Calma, Poeta, ainda não te contamos tudo... No seu Aquário, também haverá um museu interativo , telões de 3D, em que se poderá ver a evolução do mundo , com destaque para imagens de mais de sete mil animais de centenas de espécies...
- Vai ter lagartixa?
- Vai.
- Vai ter outros répteis?
- Vai. E outros invertebrados e mamíferos também... “pernas de grilos pregados nas pedras. (...) Pequenos caracóis (...) lesmas...”
– “Asas misgalhadinhas de borboletas?”(...) “Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?”
- Podemos ver isto.
-É que “Uma espécie de gosto por tais miudezas me paralisa(...) Sinto “Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
- Já sabemos disso.
-Também tenho “Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.”
- Respeitaremos essa mania. E quanto à Ponte? O que nos diz?
-“Entendo bem o sotaque das águas” “Uma rã se achava importante porque o rio passava nas suas margens...” (...) “Para subir os barrancos de um rio, eles percorrem um dia inteiro até chegar amanhã.”
- Pois então... Uma ponte por onde passaremos nós e suas criaturinhas também é importante...
-Mas... “que haja por perto brejos e iguarias de brejos”
- Combinado.
-Porém, que fique definitivamente claro: “minhas disfunções líricas acabam por dar mais importância aos passarinhos do que aos senadores”.
- Tá certo.
E tem mais: que a ponte seja para “avançar para o começo. Chegar ao criançamento das palavras...”
- Fechado...
-“Sou – que doideira – um louco sem juízo.”