Neste planeta, onde as mudanças se sucedem a cada segundo, apenas uma realidade permanece, mesmo com as tempestades que atingem o frágil coração humano: a paixão pelos livros, que cresce e invade para sempre a vida interior de quem se apegou a esse estranho objeto mágico de papel, que se agarra a nossa pele e segue-nos até a sepultura.
Estamos ligados a suas páginas pelo tato, pelo olfato, pela visão de terras encantadas, que nenhum aplicativo desses modernos, inseridos no computador, é capaz de provocar.
Segundo Proust, é preciso procurar a literatura, conviver com ela, para que possamos sair de nós mesmos, descobrir o ponto de vista dos outros sobre o universo que não é o nosso e cujas paisagens permaneceriam tão desconhecidas quanto as que existem na Lua.
Tais considerações me vieram, depois de participar de uma aula de conversação na Aliança Francesa de Campo Grande, ministrada pela diretora Arlete Saddi Chaves.
Conhecedora profunda das literaturas francesa e brasileira, projetou na sala de aula um programa da TV francesa cujo tema era “Os 20 Livros que Mudaram Sua Vida”. Participavam da discussão, escritores, membros da Academia Francesa, atores e poetas, ansiosos com a possibilidade de comentar os livros que marcaram suas vidas. Entre eles, François Cluzet (que encantou o público no papel do paraplégico do filme “Intocáveis”), Marie-Hélène Lafon e Boris Cyrulnik, que abriram o baú de memórias e deliciaram o público. Marie-Hélène Lafon leu uma cena de “Le Grand Meaulnes”, de Alain- Fournier, num exemplar gasto pelos anos, que me fez pensar no mesmo livro, com as folhas já soltas, que carrego comigo desde os tempos do curso de Francês na PUC.
Lembrei-me do professor Roberto Alvim Correa, que nos comovia com a leitura de trechos do romance. O programa ganhou novos aspectos com a presença do poeta Grand Corps Malade, que encantou o público com a leitura de dois poemas de Baudelaire: “Invitation au Voyage” e “Spleen”.
Pela exiguidade do espaço, não coloco aqui a lista de todos os 20 livros; mas, entre eles, figuravam “Bíblia”, “Madame Bovary”, “Os Miseráveis”, “O Diário de Anne Frank”, “Em Busca do Tempo Perdido”, “O Perfume”, “Crime e Castigo”, “Cem Anos de Solidão”, “A Peste”, “O Pequeno Príncipe” e... pasmem, “O Alquimista”, de Paulo Coelho.
A aula de conversação tornou-se algo vivo, proporcionando aos alunos, além do conhecimento de livros de autores famosos, o aperfeiçoamento de suas possibilidades linguísticas.
Dessa forma, os novos métodos de ensino da Aliança despertam cada vez mais o interesse pelo ensino da língua de Victor Hugo.
Encerro esta crônica de hoje expressando minha alegria pelas homenagens concedidas, no Dia da Mulher, a quatro grandes artistas, Maria Adélia Menegazzo, Albana Xavier Nogueira, Ana Ruas e Maysa Barros, que fazem da arte a essência do próprio viver. As quatro têm em comum o cultivo da delicadeza e da generosidade com que se dedicam aos amigos e ao trabalho.
À Unigran, patrocinadora dos prêmios, meus parabéns pelo acerto da escolha.