Por mais que a apreensão de projetores configure como aparente novidade, a atuação dos criminosos repete o mesmo roteiro de outras quadrilhas que se beneficiam da fragilidade da fronteira
Chamou atenção apreensão da carga de R$ 24 milhões em projetores de cinema que haviam sido furtados no Rio de Janeiro. Equipamentos encontrados em Campo Grande (MS), Vitória (ES) e Belo Horizonte (MG) seriam trocados por fuzis que “abasteceriam” quadrilhas de traficantes dos morros do Rio de Janeiro. O que, num primeiro momento, nos pareceu inusitado revela-se, porém, um filme bastante repetido, com enredo que ocorre praticamente da mesma forma todos os dias. É mais um caso que demonstra o quanto a falta de fiscalização na região fronteiriça interfere no dia a dia dos moradores. Estamos todos mais vulneráveis a assaltos. São frequentes, inclusive, os casos em que as vítimas são feitas reféns e ficam amarradas até que seus veículos cruzem a fronteira com o Paraguai ou Bolívia. Nos países vizinhos, as quadrilhas articulam-se para fazer a troca por armas e drogas, enviadas aos diferentes estados brasileiros. Novamente, portanto, somos prejudicados.
Estamos diante de um ciclo em que os cidadãos brasileiros perdem em vários aspectos. São vítimas da violência das organizações criminosas que, inicialmente, roubam seus produtos, trocam por drogas e geram mais caos ao País nas áreas da saúde e social. Impossível interromper esse esquema sem reforçar o aparato policial, começando pela origem de todos os problemas: a fronteira, que continua a ser negligenciada, principalmente pelo Governo Federal. No caso dos projetores, o primeiro flagrante ocorreu em Mato Grosso do Sul, onde parte do carregamento estava escondido até ser enviado ao Paraguai.
Recentemente, divulgamos a atuação de outra quadrilha que também aproveitava as lacunas da fronteira e as brechas do sistema da Receita Federal. O grupo sonegou cerca de R$ 400 milhões, simulando exportações de produtos siderúrgicos. Assim, os envolvidos beneficiavam-se da redução de impostos, mas a maior parte da carga ia para estados brasileiros. As deficiências expõem a corrupção existente de ambos os lados e o aperfeiçoamento de quadrilhas. Nos casos elencados acima - seja dos materiais roubados, das trocas por armas e drogas ou dos esquemas de sonegação - chegamos a um mesmo ponto em comum: a necessidade de reforçar a vigilância nas fronteiras.
Obviamente, o Governo Estadual não dará conta de promover as mudanças necessárias para corrigir as ineficiências, por mais que haja boa vontade e até aumento do efetivo, como deve ocorrer ainda neste mês. Entretanto, não é justo que Mato Grosso do Sul continue a arcar sozinho com a parte mais pesada de toda essa conta. Os moradores querem ver esses novos policiais atuando no seu bairro, para barrar a onda de criminalidade que continua fazer vítimas diariamente.
Por mais que a apreensão de projetores configure como aparente novidade, a atuação dos criminosos repete o mesmo roteiro de outras quadrilhas que se beneficiam da fragilidade da fronteira.
A população, incrédula, assiste o mesmo filme repetir-se diariamente, mas a falta de fiscalização não é suficiente para chegarmos ao fim.